Religiosidade nas mais diversas vertentes
Religiosidade nas mais diversas vertentesFoto: Arte/Folha de Pernambuco

Como tudo que se mostra secular, as tradições religiosas precisam de um trabalho constante de renovação para se adaptarem às mudanças socioculturais e, assim, manter ou ampliar seu público.

Esse desafio é ainda maior no contexto de uma sociedade plural, em que a tecnologia permite, com uma facilidade sem precedentes, o contato entre pessoas de diversos lugares do mundo.

No último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, mais de 5,2 milhões de jovens entre 15 e 29 anos declararam-se sem religião, um contingente maior que o número de espíritas e seguidores de religiões de matriz africana como a umbanda e o candomblé, ficando atrás apenas do catolicismo e do protestantismo.

Isso não significa, porém, que esse público não procura vivenciar a espiritualidade. “É uma categoria muito ampla. Inclui ateus e agnósticos, mas a maioria são pessoas que têm uma crença, mas não participam de nenhuma instituição religiosa”, explica o coordenador do curso de mestrado profissional em sociologia da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), Joanildo Burity.

Sem aderir completamente a uma doutrina específica, em geral, os “sem religião” divergem de visões mais ortodoxas em relação a temas como sexualidade, diversidade de gênero e participação política.

Nesse cenário, carregando práticas e rituais antigos, as instituições religiosas devem ficar atentas às mudanças de comportamento, além de inovar na linguagem utilizada para se comunicarem. “O jovem gosta de defender o seu posicionamento, com ou sem fé. Ele está próximo do tema da espiritualidade, mas se afasta de regras que não condigam com a realidade dele”, afirma a jornalista Nathalia di Oliveira, autora do livro-reportagem “O caminho que escolhi – Por que o jovem decide seguir ou não uma religião?”, resultado do trabalho de conclusão de curso, disponível em e-book.

Para ela, é importante ver de forma separada a crença religiosa das ações de igrejas e centros. “Você não poder usar um tipo de roupa ou fazer uma tatuagem, por exemplo, pode distanciá-lo”, diz.

Esse debate cultural sobre novas estéticas e costumes tem se inserido nas instituições, provocando aberturas, mesmo sem alterar os fundamentos das doutrinas. “A música contemporânea, o forró, o funk. Há uma indústria cultural que apela muito para a juventude, com foco na produção de shows, livros, filmes. E isso tem potencial para atrair tanto jovens conservadores quanto os mais engajados socialmente”, analisa o pesquisador Joanildo Burity.

Informalidade
Em resposta a essa diversidade nos padrões de conduta, há estratégias lançadas dentro das congregações para promover a renovação de seguidores e até sacerdotes. O professor Joanildo Burity cita os movimentos carismático, na Igreja Católica, e pentecostal, no protestantismo, como exemplos de mobilizações que tentam atrair o público jovem a partir de uma abordagem mais informal. “Desde os anos 70, esses movimentos vêm fazendo uma espécie de atualização da forma como as cerimônias são conduzidas tanto na música quanto na possibilidade de dançar durante as celebrações, chegando a haver cultos exclusivos para jovens em que eles cantam, pulam, dançam, riem”, detalha. Com isso, também foram introduzidas na prática religiosa apresentações de teatro e uso de redes sociais.

Reitor do seminário propedêutico, que corresponde ao primeiro ano da formação de um padre, Josivan Bezerra adota diversas inovações no dia a dia da instituição para que os jovens não se sintam isolados. “Nossos seminaristas têm Facebook, Instagram. Aqui a gente tem wi-fi. Eles não ficam mais trancados, visitam a família uma vez por mês e estudam cursos civis [de preparação para o vestibular]. Agora a gente tem psicólogos na formação, o que antes não havia”, conta.

Na visão dele, a profusão de novos meios de comunicação, especialmente na internet, modificou a forma como as pessoas enxergam os líderes católicos. “Padres como Marcelo Rossi, Fábio de Melo, Reginaldo Manzotti apresentam um modelo diferente do sacerdote à moda antiga”, considera o religioso. Localizado no Centro Histórico de Igarassu, o seminário conta com 14 participantes, a maioria jovem. “Quando eu entrei no seminário, em 1997, éramos quatro jovens. No meu primeiro ano como reitor, 2012, entraram 12. Há três anos, 25. Este ano, foram 18, mas quatro saíram”, informa.

Independentemente da linguagem utilizada, o desejo de seguir uma carreira dentro da igreja sempre vem da fé. Consciente das restrições impostas pelo sacerdócio, John Lyncon Bonfim, 18, resistiu à pressão da família para não entrar no seminário. “Quando eu comecei, minha mãe falou que eu não ia ficar nem três meses. Três meses depois, eu disse a ela: ‘Eu consegui e espero ser padre um dia”, recorda.

O vice-reitor do seminário, padre Ivan Maciel Barbosa, lembra que é sempre preciso preservar alguns valores diante dos problemas da atualidade. “Há questões urgentes com que nos deparamos, mas devemos agir com amor, sem deixar para trás aquilo que é humano, demonstrando respeito e dignidade”, reitera.

Papel social
Outro aspecto importante é promover ações voltadas às causas sociais. “Atuamos na Amazônia, nas regiões ribeirinhas, no Sertão, de acordo com as necessidades da população. Temos um trabalho específico para quem vive na rua”, conta Joel Bezerra, pastor geral da Primeira Igreja Batista do Recife, no bairro da Boa Vista, Centro. Uma das primeiras protestantes a chegarem à Capital pernambucana, em 1886, a Batista tem hoje 640 pastores e 700 igrejas em Pernambuco.

Para ganhar capilaridade e garantir a renovação no espaço ecumênico, Joel Bezerra, que atua na congregação há 39 anos, defende que o importante é acolher e respeitar as pessoas, inclusive nas plataformas digitais. “Deve-se usar as redes sociais para o bem. É um instrumento bom porque você tem alcance. Você pode testemunhar, dar exemplo”, orienta. “Ninguém obriga ninguém a fazer nada. Devemos acolher todos por meio do trabalho individual e pelas ações coletivas”.

O acolhimento também é um lema no espiritismo. Segundo a presidente da Federação Espírita Pernambucana (FEP), Cristina Pires, cerca de 430 casas atuam no estado, além das instituições apoiadas pela Comissão Estadual de Espiritismo, que funciona de forma independente. “A gente tem como princípio não fazer proselitismo, como se só pudesse ser feliz quem for espírita. Mas, na verdade, será feliz quem praticar o bem, o amor. Levamos os jovens a viver desse jeito”, atesta.

Assim como nas outras denominações religiosas, as reuniões da juventude promovidas pelos grupos têm atividades culturais para engajar o público. “Em Brasília, participamos de um encontro que reuniu mil jovens. Nessa programação, tem muita música, arte, literatura”, conta. Outro eixo de atuação é a assistência social, com ações em comunidades carentes.

Para todas essas áreas de atuação, os centros espíritas contam com voluntários, entre eles os evangelizadores, que se comunicam com crianças e adolescentes; os facilitadores, que trabalham com adultos; e os palestrantes, que abordam a doutrina em eventos abertos à população. “Cada casa tem sua autonomia, considerando a realidade em que está inserida, então não há um modelo rígido. Quando a gente se reúne, é mais em busca de compartilhamento de informações”, explica.

Inovar para resistir
As redes sociais também são uma aliada para os adeptos das religiões de matriz africana. No terreiro de candomblé Obá Ogunté Sítio de Pai Adão, localizado no bairro de Água Fria, Zona Norte do Recife, é o jovem Lucas Gabriel de Andrade, 18, o responsável pela divulgação das ações da casa na internet. “Hoje o pessoal está muito envolvido nas mídias, como o Instagram e o Facebook. Depois da criação das páginas, tivemos mais visitas. Estou sempre disponível”, diz.

Conhecido como Lucas Nagô, ele foi criado no terreiro e hoje é mestre de percussão do afoxé, grupo musical que leva a sonoridade dos cantos do candomblé para espaços e eventos externos. A música é um grande atrativo que atiça a curiosidade de quem não tem familiaridade com a cultura afro. “Apesar de ser de uma família religiosa, foi o afoxé que me trouxe de fato ao terreiro”, revela.

Babalorixá do sítio desde 1988, Manoel Papai vê aumentar o interesse em conhecer o candomblé, especialmente por parte da população negra. “Houve uma mudança no comportamento das pessoas negras com relação à religião. Abriram-se as portas e aderiram. Mas também recebemos gente de fora”, afirma.

Na capela onde trabalha, imagens de santos católicos, que não são mais usadas nas celebrações, simbolizam as estratégias do passado dos que enfrentaram décadas de perseguição. “No tempo da escravidão, se usavam as imagens nas festas para que os senhores achassem que estavam rezando para os santos católicos”, relata. Assim, com todas as mudanças sociais, mantém-se o desafio de preservar as raízes. “Há muitos cantos que só nós cantamos. O candomblé continua falando a língua africana”, ressalta.

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