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Novo Start, o fim de um tratado nuclear de outra época

Acordo foi assinado em 2010 em Praga pelos então presidentes americano, Barack Obama, e russo, Dimitri Medvedev

Fotografia divulgada pela Força Aérea dos EUA mostra um míssil balístico intercontinental Minuteman III desarmado sendo lançado durante um teste de desenvolvimento às 00h33.Fotografia divulgada pela Força Aérea dos EUA mostra um míssil balístico intercontinental Minuteman III desarmado sendo lançado durante um teste de desenvolvimento às 00h33. - Foto: Clayton Wear / Força Aérea dos EUA / AFP

A expiração, a partir da quinta-feira (5), do tratado Novo Start entre os Estados Unidos e a Rússia marca o fim dos grandes acordos bilaterais de desarmamento nuclear e a transição para uma ordem menos regulada, com a ascensão da China e a revolução tecnológica como pano de fundo.

O que prevê o Novo Start ? 
Este acordo foi assinado em 2010 em Praga pelos então presidentes americano, Barack Obama, e russo, Dimitri Medvedev.

Naquele momento, o pacto era um dos componentes cruciais da chamada política do "reset", um recomeço na tentativa de Washington de "restabelecer" as relações com o Kremlin.

O acordo Novo Start limita os arsenais das duas potências nucleares a um máximo de 1.550 ogivas estratégicas ofensivas para cada um, o que representa uma redução de quase 30% em comparação com o limite anterior, fixado em 2002.

Também limita o número de lança-mísseis e bombardeiros pesados a 800.

O tratado implica, ainda, uma série de inspeções mútuas de instalações militares, um pilar da política de desarmamento conhecida como "Confia, mas verifica", defendida pelo ex-presidente americano Ronald Reagan.

Em janeiro de 2021, a Rússia e o governo do presidente democrata Joe Biden chegaram a um acordo de última hora para prorrogá-lo por cinco anos, até 4 de fevereiro de 2026, em um clima de grande desconfiança mútua, mesmo antes de a Rússia invadir a Ucrânia, em fevereiro de 2022.

Estéril 
Em 9 de agosto de 2022, a Rússia anunciou a suspensão das inspeções americanas previstas em suas instalações militares como parte do tratado. Disse que o fez em resposta aos obstáculos americanos às verificações russas.

Desde então, não houve inspeções, o que reduziu o alcance do Novo Start.

Em setembro de 2025, o presidente russo, Vladimir Putin, propôs a Washington estender os termos do tratado por um ano, uma "boa ideia" para o americano Donald Trump, mas à qual os Estados Unidos não deram seguimento.

"Esta proposta só se referia aos tetos das ogivas, que não é o mais importante quando se fala de controle de armamentos", assinala à AFP a pesquisadora Héloïse Fayet, do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri).

"A parte mais importante do Novo Start, as inspeções e a verificação mútua, não estão incluídas", acrescenta.

A expiração do tratado fragiliza o controle das armas, o que gera o temor de uma retomada da corrida armamentista. O papa Leão XIV pediu, nesta quarta-feira (4), para "evitá-la".

O Kremlin assegurou que agirá de forma "responsável" assim que o tratado expirar.

De todo modo, as limitações técnicas servirão como um freio.

"Os obstáculos são difíceis de avaliar por parte da Rússia", assinala Fayet.

"Da parte americana, podem voltar a pôr em serviço ogivas que estavam em estoque, o que não é muito complicado, sobretudo porque a NNSSA (a autoridade de segurança nuclear americana) intensifica sua produção de trítio, um gás indispensável", acrescenta.

A NNSSA anunciou, em 26 de janeiro, ter realizado "um número recorde de 13 extrações de trítio em nove meses".

Isso "demonstra o que o setor da segurança nuclear pode alcançar quando age com urgência e determinação. A entrega bem-sucedida de trítio é essencial para satisfazer os requisitos de dissuasão", disse Brandon Williams, administrador da NNSA.

Nova ordem 
Duas tendências fundamentais transformam o panorama nuclear e, segundo alguns, fazem com que o tratado tenha deixado de ser pertinente: o aumento do poder nuclear chinês e os avanços técnicos, como a inteligência artificial (IA) ou a conquista espacial.

A China é a terceira potência nuclear, embora esteja muito atrás da Rússia e dos Estados Unidos, e sua trajetória ascendente preocupa muito Washington.

Algumas vozes afirmam que Washington corre o risco de enfrentar o problema de obter uma dissuasão eficaz tanto contra Moscou quanto contra Pequim.

Os Estados Unidos se veriam obstruídos se o tratado os vinculasse apenas à Rússia e Pequim não quer um.

Além disso, as revoluções tecnológicas "permitem novas formas de dissuadir e forçar o adversário", o que complica a equação, ressalta Fayet.

Por exemplo, o projeto americano do Domo de Ouro, que prevê capacidades de interceptação de mísseis instaladas no espaço, preocupa Moscou porque poderia pôr em risco o princípio da vulnerabilidade recíproca e aceita, uma pedra angular do diálogo dissuasório.

Nestas condições, segundo Fayet, "a expiração do Novo Start pode ser uma oportunidade para fazer o controle de armamentos de outra maneira: incluir estas novas tecnologias no perímetro controlando o tipo de vetores (que servem para lançar uma ogiva nuclear) ou de armas em vez de simplesmente contar as ogivas nucleares; ou, por exemplo, acordar não incluir a IA nas armas atômicas".

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