O ano novo sob o olhar das novas bruxas

Previsões apontam 2019 como um ano fértil para a criação. Cartas aconselham definir prioridades para concentrar energias

Priscila Ferraz: “Há várias formas de desvendar a Carta do Ano, mas uso numerologia”Priscila Ferraz: “Há várias formas de desvendar a Carta do Ano, mas uso numerologia” - Foto: Rafael Furtado /Folha de Pernambuco

Permeadas pelo sentimento de renovação, muitas pessoas aproveitam o fim de ano e o início do novo para abandonar velhos hábitos e traçar metas. Em busca dessa concretização, alguns se apegam a orações, rituais e simpatias, como pular sete ondas ou segurar entre os dentes sementes de romã no Réveillon. Há ainda quem se guie pela perspectiva do tarot, cuja essência é oferecer conselhos para serem colocados em prática em diferentes situações durante o ano que está vindo. A bruxa e taróloga Priscila Ferraz explica que 2019 será regido pela carta d’O Enforcado, com influência d’A Imperatriz. “Será um período de ambiente fértil para criar. E O Enforcado reforça isso pedindo paciência para cultivar esse ambiente”, conta.

De acordo com Priscila, há várias formas de se desvendar a Carta do Ano, mas ela utiliza o método mais comum, o da numerologia, por meio da soma de todos os números: 2+0+1+9, que corresponde à carta de número 12. A figura desse arcano em diferentes baralhos é um personagem de cabeça para baixo, com braços e pernas atadas. À primeira vista, assusta. Mas, segundo Priscila, é uma carta que chama para a reflexão. “Assim como na carta, às vezes nos vemos em situações desconfortáveis, nas quais tudo parece estar de ponta-cabeça. E pior: estamos de mãos atadas e não podemos fazer nada além de ter paciência e esperar. Então, 2019 pode nos trazer muitas situações como essa.” Ela ressalta que o tarot não faz previsão, mas, sim, aconselhamentos que, postos em prática, contribuam para uma vida mais positiva, leve e segura.

“Essa carta diz que precisamos definir o que é prioridade e concentrar energias. Quando focamos nas prioridades, naturalmente sacrificamos aspectos menos importantes. Fazer pausas para escrever uma lista das nossas reais necessidades e planos pode ajudar muito em 2019. Sem pressa. Ter paciência e tomar o tempo necessário para pesar opções. Lembrando que tão importante quanto ter sabedoria é saber quando colocá-la em prática”, revela. Ela explica, ainda, que a numerologia indica que seja feita a soma dos números até chegar a um resultado abaixo de 22, já que são apenas 21 cartas no baralho, ou até não ser mais possível somar. Por isso, o ano também terá influências da carta 3 (1+2), e que corresponde à Imperatriz.

“Ela vem dizer para que nunca deixemos faltar a criatividade nos nossos planos, que vai ser uma das nossas maiores ferramentas em 2019. É uma carta que resgata a beleza, a vida. Ela fala muito sobre gerir novos projetos. Por isso a carta é geralmente representada por uma mulher grávida.” Dialogando com a carta d’O Enforcado, Priscila conta que, assim como numa gestação, é necessário preparo, tempo. “Planejamento e criatividade. Para aqueles que sabem cultivar a perseverança enquanto esperam, a Imperatriz avisa que tem muita beleza guardada, principalmente se for pensada de forma criativa. Criatividade é o potencial de criar. Todo mundo tem esse potencial.”

Priscila é uma nova bruxa - que foge do estereótipo da feiticeira do mal que voa em vassouras - e auxilia homens e mulheres por meio da aromaterapia, cristais, essências, e tirando cartas de tarot em uma sala na Zona Norte do Recife. Ele está à frente do projeto Diário da Bruxa, crescendo, principalmente, na internet, com atendimentos online, através das redes sociais e com vídeos e cursos no Youtube. Foi para lá que ela levou os conhecimentos adquiridos nos estudos como mitologia grega, astrologia e do próprio tarot, mas também o que conseguiu absorver pelo conhecimento compartilhado com outras mulheres.

Como Josenilda Maria, 50, e que há 36 vende velas, incensos, lambedores, entre outras coisas extraídas das ervas. Muitos dos itens que Priscila usa em seus rituais e produtos são fornecidos por Josenilda, mais conhecida por Galega. “Eu aprendi com minha mãe, que aprendeu com minha avó, que havia aprendido com a minha bisavó. Cresci na área rural de Ipojuca e, desde criança, fui vendo essas mulheres rezando, preparando banhos e aproveitando todo o poder da natureza”, conta a vendedora.

Ela possui um boxe na esquina da rua da Praia, no entorno do Mercado de São José. Lá, é possível encontrar de tudo: raiz de angélica para regular a menstruação, defumadores, velas coloridas, sal grosso. “É o que as pessoas mais têm procurado para esse final de 2018 e começo de 2019. Sal grosso e as sete ervas, para poder se limpar, limpar os ambientes. O ano de 2018 foi muito difícil, aconteceu muita coisa. Então, é primeiro orar a Deus, aos anjos da guarda, mas também buscar esses rituais de renovação”, conta. Ela indica que as pessoas que buscam se livrar da negatividade, sentimentos ruins como inveja, façam primeiro o ritual de purificação com as sete ervas e depois o ritual com o banho de cheiro, que é para atrair positividade e boas energias.

 Perseguição e preconceito

Historicamente, mulheres com conhecimentos como os utilizados por Priscila e Galega foram perseguidas e demonizadas. Até hoje, rituais que utilizam de ervas, por exemplo, são condenados e vistos com maus olhos, como se feitos para o mal. “As mulheres que usavam do conhecimento empírico ou até mesmo científico, eram vistas como demoníacas, possuídas. O auge disso foi na época da Inquisição (séculos 12 a 14 e 15 a 19), que era utilizada contra mulheres, mas também contra homens que proferissem crenças que fossem divergentes da pregada pela Igreja Católica. Então, os índios eram tidos como sem alma, os asiáticos são considerados pagãos até hoje”, explica o historiador Esequias Pierre.

Ele explica que o auge da Inquisição está muito centrado na Idade Média, embora ela tenha perdurado até pouco tempo atrás. “Contextualizando aquele período, era uma época da idade das trevas, com a predominância do catolicismo. A religião era utilizada como um instrumento de dominação, muito ligada à questão do patriarcado.

Então, no meio desse contexto, as mulheres eram colocadas como seres da segunda categoria dentro da própria igreja, até como questão de controle social”, continua Esequias. “E aí qualquer tipo de hábito que fugisse do padrão descrito na Bíblia, era demonizado. Colocado como algo sobrenatural, condenável. E as mulheres sofreram esse ataque.” Muitas mulheres eram consideradas bruxas e morreram em fogueiras, inclusive, acusadas de atraírem os padres. “O celibato da igreja e essa perspectiva patriarcal eram muito mais por interesse da proteção patrimonial do que da própria religião”, afirma o historiador.

As consequências históricas desse período ressoam até hoje, como o preconceito e a perseguição. “Nesse período, se você fosse uma mulher idosa, de aparência desagradável ou com alguma deficiência física, seria acusada de bruxaria, torturada e morta, pois havia feito um pacto para fornicar com o demônio. Se fosse uma mulher tão bonita ao ponto de despertar pensamentos e desejos nos padres e homens casados, poderia ser vista como sintomas de possessão demoníaca”, acrescenta a bruxa Priscila Ferraz. 

Ritual das bruxas
 

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