O bom samaritano

Na Bíblia há mais de quarenta parábolas. Neste especial de Natal, quatro delas são contadas entrelaçadas por histórias reais

Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre e tradutor. Jorge Waquim é filósofo pela Universidade Paris Nanterre e tradutor.  - Foto: Divulgação

As parábolas foram usadas por Jesus para tornar seus ensinamentos mais claros. São lições de vida. De como devemos cuidar do outro. Não apenas dos que nos são caros, como os familiares e amigos. Ensinam que podemos, sim, frutificar, mesmo com a alma podada pelas adversidades. A seguir um sonho, pois mesmo um pequeno grão, se cultivado poderá tornar-se grandioso. Na Bíblia há mais de quarenta parábolas. Neste especial de Natal, trouxemos quatro delas, contadas de forma entrelaçada por histórias reais, como a do auxiliar de topografia Wellington Ribeiro, 36, nesta primeira página. Após anos pertencendo a uma igreja, ele percebeu que a caridade, o perdão e o amor não estão entre as paredes dos templos. Mas sim dentro de cada um.

A parábola

“Descia um homem de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de salteadores, os quais, após despojá-lo de tudo, espancaram-no, deixando-o moribundo à beira da estrada. Um sacerdote, vendo-o, passou de largo, assim como um levita. Um samaritano, vendo-o naquele estado deplorável, moveu-se de íntima compaixão e o levou a uma hospedaria onde continuou a cuidar dele.”  Lucas 10:30-35


Wellington estava a caminho do cur­so de Edificações, no bairro da Boa Vista, Centro do Recife, quando viu um menino dormindo no chão. Tal qual na Parábola do Bom Samaritano, resolveu cuidar do garoto. Foi a uma loja, comprou lençol, um pacote de biscoito e uma garrafa de suco. O que mais chamou sua atenção foi o fato de diversos fiéis de uma igreja próxima passarem pela criança sem fazer nada em relação a ela. “Pedi ajuda a um deles. A gente cobriu o menino e eu disse: ‘Irmão, é isso o que Deus quer da gente’.”

Morador do bairro Fragoso, em Paulista, Grande Recife, o auxiliar de topografia Wellington Ribeiro, 36, não se considera ateu, mas assume que não acredita em tudo o que está na Bíblia. Ele deixou a igreja protestante. Mas não cansa de procurar respostas. A única certeza que tem é que não é preciso pertencer a uma instituição religiosa para amar o próximo como a si mesmo, praticar a caridade e o perdão. Isso ele não aprendeu à toa. Em sua vida, por várias vezes encontrou dificuldades e, acredita, Deus sempre lhe indicou o caminho.

O primeiro contato com a fé foi por meio da família. Wellington foi o segundo filho de uma família batista. A mãe morreu quando tinha 6 meses. Aos 8 anos, o pai sofreu o primeiro de cinco derrames e, um ano depois, teve uma recaída. “Fiz uma oração: que Deus não levasse meu pai. Só quando eu tivesse 18 anos e estivesse trabalhando.” Foi o que aconteceu.

O problema de saúde, que deixou o lado esquerdo paralisado, levou o pai a procurar diversas crenças na esperança de encontrar uma cura. Wellington acompanhou tudo de perto. “Depois que ele se converteu, em 1999, me converti à Igreja Batista”, conta.

No primeiro evento com o grupo de jovens, foi para um acampamento. Distanciou-se, olhou para o mar e começou a chorar. Mais uma vez ocorreu-lhe uma indagação: “Meu Deus, me converti para ficar desse jeito?”. No outro dia, recorda, acordou feliz. Wellington conheceu uma garota, comprometeu-se, mas o noivado acabou. “Fui para o mundo.” E voltou ao questionamento: “Deus, sou um homem honrado. Quero uma pessoa para me casar”. Pouco tempo depois, foi comprar um CD evangélico e conheceu a atual esposa, Rafaela Ribeiro. Casaram-se. Ela engravidou e, com nove meses de gestação perdeu o bebê, Caleb, e quase morreu. O casal superou a perda e dois anos depois nasceu Jacob, que está prestes a fazer 4 anos.

O rompimento
Também protestante, Rafaela era ministra de música da igreja. A essa altura Wellington cantava. Eles optaram por ir morar no Fragoso com o intuito de ajudar um pastor, ela como ministra e ele como evangelista. “A gente vinha de longe, de ônibus, com o menino recém-nascido.”

Nessa época, Wellington se recuperava de um pé fraturado. O pastor, segundo relata, cobrava a presença dele e da esposa. “Ele nunca ligou para saber como eu estava. E, quando eu ligava, ele me cobrava. Para não ter atrito, deixamos de ir. Não foi por raiva, mas, a partir desse ponto, deixei aquele mundo de ilusão - de aprender um pouquinho, cantar, bater palmas - e enfiei a cabeça nos livros.”

Wellington vai até o quarto, pega três Bíblias: uma versão protestante, outra católica e uma em alemão, de quando a esposa viveu na Suíça. E pergunta: “Qual é a certa? Preferi ficar neutro”, ele mesmo responde. “O marco zero é nossa casa, para todo e qualquer ensinamento. Ensinei isso a meu filho quando ele fez 3 anos”, conta. “Onde é que está Deus?”, questiona, dirigindo-se a Jacob. “No coração”, diz o garoto.

Para Wellington, a prática do bem está no cotidiano. “É simples. Se estou num ônibus e tem uma senhora, dou o lugar; é não cair em tentações; não mentir. E não preciso mostrar a todo mundo que estou fazendo o bem. Servir, na questão do amor ao próximo, vem do caráter. E dele vem a atitude. A gente só dá o que tem.” Hoje, ele e a esposa se apegam naquilo que os fazem serem bons para eles mesmos e para os outros. “Somos felizes, não temos fardos, não temos pastores. Temos todos como irmãos. É fazendo o bem a um e a outro que a gente vive bem. Assim vamos levando.”

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