Opinião

O exemplo de Elvas (Portugal)

Há poucos quilômetros da fronteira com a Espanha, na região portuguesa do Alentejo, está situada a cidade de Elvas. O povoamento do local remonta a períodos muito remotos. Há vestígios arqueológicos celtas, romanos e visigóticos. Os muçulmanos ocuparam também o território que foi retomado pelos cristãos duas vezes: em 1166 e definitivamente em 1229. 

A partir de 1640 a cidade, e suas fortalezas, tiveram um papel importante na guerra entre Portugal e Espanha, quando os portugueses recobraram a independência de seu reino depois de 60 anos sob o mando dos reis espanhóis. Nesse momento, Matias de Albuquerque, neto do primeiro donatário de Pernambuco, atuou como comandante do exército português no Alentejo.
Antes disso, ele chegou a governar Pernambuco em nome de seu irmão mais velho, Duarte de Albuquerque Coelho (o quarto donatário de Pernambuco). Quando da invasão holandesa a Pernambuco, em 1630, Matias resistiu bravamente durante cinco anos, mas não logrou repelir o inimigo. Mas, voltemos a Elvas.

A região assumiu grande importância geoestratégica nas disputas entre Portugal e Espanha e, tanto a cidade, quanto os seus arredores, foram cenário da construção de magníficas estruturas militares, sendo a mais famosa e imponente delas o Forte da Graça, construído entre 1763 e 1792, que é a maior fortaleza do mundo com estrutura defensiva de baluartes. Elvas e seu entorno constituem um verdadeiro “vade-mécum” de arquitetura militar.

Em 2012, Elvas recebeu da Unesco o título de Patrimônio Mundial da Humanidade. Desde então, sua projeção no cenário do turismo cultural ganhou um enorme impulso. Tive a satisfação de visitar a cidade dias atrás. Por toda a parte se faz referência à titulação recebida da Unesco.

Pude conversar com um empreendedor local, o sr. António, dono do restaurante Girassol, que funciona no centro histórico há 30 anos. Ele me disse que nos últimos dez anos o título atraiu grandes investimentos na preservação do patrimônio, na rede hoteleira e de estabelecimentos de gastronomia. 

Em seu restaurante há um mapa-múndi cheio de alfinetes que marcam a origem dos seus clientes: o Girassol já recebeu  comensais de praticamente todo o mundo. Grande parte deles vinha atraída pelo fato de a cidade ter a titulação de reconhecimento. Eram turistas com interesses culturais e com a disposição de se hospedar na cidade e desfrutar de sua gastronomia, ou seja, de gastar dinheiro lá. 

António relatou-me, com satisfação, que Elvas se transformou para melhor depois do título de Patrimônio Mundial. Ele próprio adquiriu um antigo sobrado dentro do recinto amuralhado da cidade para estabelecer um hotel. Não por acaso, Elvas celebrou com grandes festividades o aniversário dos dez anos da titulação. Lá, governo e sociedade civil se uniram para tirar o máximo proveito do reconhecimento internacional, como me explicou o professor de história João Garrinhas, elvense da gema e grande divulgador da cidade.

Nossa querida Olinda também é Patrimônio Mundial Unesco. Em dezembro de 2022, completam-se 40 anos da concessão do título. No entanto, o cenário parece bem distinto do que conheci em Elvas. É patente que Olinda não consegue ainda transformar o importante reconhecimento internacional em estratégias eficazes de preservação patrimonial,  divulgação turística e consequente atração de investimentos.

Muitas vezes tem-se a impressão de que para muitos, o fato de o sítio histórico ser tombado é mais um atrapalho do que um benefício. Reverter esse quadro seria de extrema importância para a sobrevivência de nosso patrimônio e para a geração de oportunidades econômicas para a velha Marim dos Caetés. Nesse sentido, o exemplo de Elvas tem muito a nos dizer.



*Historiador e Vice-Diretor de Cultura do Gabinete Português de Leitura em Pernambuco

 

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