O grão de mostarda

Especial de Natal mistura parábolas com histórias reais

O deputado estadual Eriberto Medeiros (PP), presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco, participou da entrega de uma nova ambulância para a comunidade de Vila Ameixas, neste domingo (28)O deputado estadual Eriberto Medeiros (PP), presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco, participou da entrega de uma nova ambulância para a comunidade de Vila Ameixas, neste domingo (28) - Foto: Divulgação

“O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual grão é, na verdade, a menor de todas as sementes, mas depois de crescido, é a maior das hortaliças e faz-se árvore, de tal modo que as aves do céu vêm pousar nos seus ramos.” Mateus 13:31-32

Todo projeto, quando é bem-sucedido e cresce, não raro passa uma ideia de que foi sempre assim, grande. Mas basta conhecer um pouquinho mais sobre sua trajetória para saber que nem sempre foi desse jeito, que no início de tudo foi plantada uma semente, que germinou, desenvolveu-se, floresceu e deu frutos. Algumas dessas sementes, assim como a da parábola bíblica do grão de mostarda, são inesperadas, de tão pouco prováveis, e até também por isso muito mais gratificantes. É o que constatamos no projeto que, por uma feliz coincidência, tem o nome de Sementes do Amanhã, no bairro de Campina do Barreto, Zona Norte do Recife. Idealizada pela professora Lúcia Tavares, 67 anos, a iniciativa está prestes a completar o jubileu de prata oferecendo alternativas socioculturais e educacionais para os jovens da comunidade. A dança como carro-chefe.

No caso de dona Lúcia, a primeira semente foi plantada em seu coração, ainda criança, quando sonhava se tornar bailarina. Filha de um funcionário público e de uma professora do bairro de Casa Amarela, que tiveram 12 filhos, dona Lúcia também sonhou com uma tradicional festa de aniversário de 15 anos que os pais, muito humildes, não puderam lhe dar. Mesmo assim, desde cedo seus desejos sempre foram diferenciados. Aos 9 anos descobriu-se apaixonada por música clássica. Estava ali formada uma personalidade, com uma percepção da vida fora de série, que influenciaria toda sua existência - e a de outras centenas de pessoas nas décadas que viriam a seguir.

“Sempre fui uma grande sonhadora. Tinha em mim algo que nunca entendi”. Dona Lúcia cursou magistério e, logo depois de formada, começou a trabalhar com crianças, já se dedicando ao voluntariado. Em 1989, casada e mãe de cinco filhos, mudou-se para Campina do Barreto. “Chegando aqui vi uma outra realidade. Vi a favela, que ia até a beira-rio, (de um lado) até Chão de Estrelas e (do outro) até a ‘ponte do Medo’ (que leva até Peixinhos, em Olinda)”, recorda. “Vi naquelas moças e naqueles rapazes que as necessidades deles eram maiores do que quando eu era criança.”

O local semeado
Em 1992, dona Lúcia enfrentava dificuldade para estudar datilografia até que descobriu um curso gratuito no Córrego do Euclides. Para aperfeiçoar os estudos, conseguiu comprar um manual num sebo da feira de Casa Amarela. Ao concluir, adquiriu sete máquinas usadas e fez do terraço da própria casa - que servia de garagem para o marido - um local de curso de datilografia gratuito. Estavam plantadas as primeiras Sementes do Amanhã.

A partir do curso de datilografia, dona Lúcia foi abrindo sua residência para outras atividades, como artesanato, reciclagem, assistência pedagógica, música, creche e, claro, a tão querida dança. “Meu sonho era formar o grupo de dança, mas ficava acanhada, por não saber dançar. Um dia fui à Escola Cônego Rochael de Medeiros (em Santo Amaro). Lá tinha aula de balé. Na aula havia duas meninas que moravam próximo e as convidei para mostrar alguns passos para as meninas que frequentavam minha casa”. Cinco delas ensaiaram para participar da festa de formatura do Sementes do Amanhã. “A partir desse grupo tomei a frente. Era tão divino que fui me sentindo como se fosse uma bailarina feito elas”. Aos poucos, a casa de dona Lúcia foi abrigando mais atividades, atraindo mais alunos e mais voluntários. “Quando começamos era muito humilde. Hoje já melhorou muito”, avalia, mesmo considerando que a estrutura está longe da ideal.

Os frutos
Mesmo com todas as dificuldades, o Sementes do Amanhã é motivo de orgulho para ela. “A gente tenta transformar a vida dessas crianças. É uma forma de salvar vidas. Principalmente quando se trata de demanda feminina”, considera. Para manter o projeto vivo, a facilitadora se apoia numa corrente que para ela é muito grande: a da solidariedade.

O curso de dança acabou se tornando a principal atividade do espaço. Atualmente, conta com três professoras, duas auxiliares e 64 alunas de 3 a 20 e poucos anos de idade. A partir dos 7 anos, as aulas são ministradas em sete níveis. Pelo menos seis alunas já cumpriram todo o curso, embora o principal objetivo seja outro: oferecer uma visão melhor da vida. Algumas delas se tornaram professoras no próprio Sementes do Amanhã. “Essas meninas estudam em escolas públicas. Algumas já concluíram curso universitário”, orgulha-se. “Também há voluntárias que trabalhavam aqui, que chegaram como donas de casa. A orientação era que estudassem. Hoje também estão formadas. São os nossos frutos.”

Para dona Lúcia, os pré-requisitos para atuar no Sementes do Amanhã são: ser humilde, participativo e ter o espírito de igualdade. “A única razão de ser é trabalhar com amor, respeito, solidariedade. O mundo precisa de solidariedade”, conclama. Quem quiser colaborar com o Sementes do Amanhã pode entrar em contato pelos telefones: (81) 99905-2877 e 98554-2219.

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