O hotel, a salada e o Titanic

Entre todos os pratos do cardápio do Waldorf Hotel, criado por Escoffier, curiosamente, aquele que mais agradava o público era uma entrada - salada bem simples, com poucos ingredientes

Lecticia CavalcantiLecticia Cavalcanti - Foto: Cortesia

Um dos mais famosos hotéis do mundo, o Waldorf Astoria, na esquina da 5ª Avenida com a Rua 34 (em Nova York), “vai fechar as portas no mês que vem”, informou a revista Veja (de 11 de janeiro passado). Que pena. Inaugurado em 1893, por William Waldorf Astor, hospedou, durante todos esses anos, presidentes, estrelas e escritores importantes. Marylin Monroe chegou até a morar lá. E foi também cenário de vários filmes, entre eles o clássico de Al Pacino, Perfume de Mulher.

Esse William Waldorf, que construiu o hotel, era um homem pouco afeito a se exibir. E tinha uma forma peculiar de escolher aqueles com quem trabalhava. O gerente de seu hotel, por exemplo, foi por ele definido antes mesmo de começar a construção do edifício. É que, numa noite chuvosa, William Waldorf e sua esposa não conseguiam encontrar quarto disponível em nenhum hotel de Filadélfia (Pensilvânia, EUA), por causa de três convenções que ali ocorriam. Tentando ao menos se proteger da chuva, entraram, desesperados, em um pequeno albergue, também lotado. Só que o funcionário que os atendeu, George Boldt, lhes cedeu seu próprio quarto. E passou a noite em claro, cochilando (às vezes) em um sofá da sala. Ao partir, no dia seguinte, lhe disse Waldorf: “Você é a pessoa certa para gerenciar um hotel. Quando construir o meu, vou lhe devolver o favor que nos fez”. Dito e feito. Passando o tal senhor, anos depois, a ser o gerente do Waldorf Hotel.

William, visionário como era, convidou para organizar o cardápio, aquele que era considerado o impe­rador dos cozinheiros e pai da moder­na gastronomia - Georges-Augus­te Escoffier (1846-1935). O mesmo que redefiniu a cozinha france­sa, em fins do século XIX, eliminan­do seus excessos de molho e tempe­ro. “As simplificações marcam uma evolução, e não um declínio, na arte culinária. Se a aparên­cia é mais simples, nem por isso a comi­da perde valor” - assim escre­veu no seu Le guide culinaire (com 5 mil receitas), até hoje consulta obrigatória de todos os grandes chefs. Foi ele também que substituiu o serviço à francesa (com todos os pratos servidos juntos) pelo serviço à russa (um prato por vez). E introduziu a prática do menu à la carte. Por conta disso contribuiu pa­ra a fama de restaurantes e hotéis do mundo, entre eles Grande Hotel (Ro­ma), Ritz Hôtel (Paris), Savoy Ho­tel (Londres). E, claro, o Waldorf Hotel.

Entre todos os pratos do cardápio do Waldorf Hotel, criado por Escoffier, curiosamente, aquele que mais agradava o público era uma entrada - salada bem simples, com poucos ingredientes, diferente das servidas naquele tempo. A receita não levava legumes nem verduras; apenas aipo, maçã, maionese e nozes. Dizem que essas maçãs da receita eram homenagem ao amigo Oscar Tschirsky, indicado pelo próprio Escoffier para ser maître daquele hotel. Por não poder viver sem a fruta. O sucesso da salada foi inesperado. E imediato. Tanto que acabou todo o estoque de maçãs da despensa, no primeiro dia em que foi servida. Merecendo aquela salada, por seus muitos méritos, o nome do próprio hotel. Depois ganhou mundo, chegando ao Brasil em meados do século passado.

Mais tarde, John Jacob Astor, atraído pelo dinheiro que ganhava seu primo, William, construiu ao lado um outro hotel - o Astoria. Passando, o conjunto, a ser conhecido como Waldorf Astoria. Mas a vida tem seus mistérios. John morreu pouco depois, no naufrágio do Titanic. Coincidência (ou não), na mesma revista Veja que anunciou o fechamento do hotel, há grande matéria sobre o naufrágio daquele transatlântico, revelando que ele “não teria afundado apenas em virtude da colisão com o gelo, mas sim porque um incêndio ocorrido poucos dias antes da viagem enfraquecera a estrutura da embarcação”. Seja como for, William desgostoso com a morte do primo, vendeu o hotel a uma construtora, a Bethlehem Engineering Co. Em 1930, o quarteirão foi demolido para construção, no local, do Empire State Building. Sendo construído perto dali, na Park Avenue 350, o novo Waldorf Astoria. Onde estava até bem pouco tempo. O hotel em breve não mais existirá. Mas sobreviverá a sua Waldorf salad. Ainda bem.

Receita: Waldorf Salad

Ingredientes:

100g de nozes pesadas com casca
250g de talos de salsão
250g de maçãs
80g de maionese
2 colheres (de sopa) de suco de limão
4 colheres (de sopa) de creme de leite
Sal a gosto

Preparo:

- Quebre as nozes, retire a pele e pique
- Descasque os talos de salsão e corte em tiras finas
- Descasque as maçãs e corte, em tiras também
- Coloque, em uma saladeira, nozes, salsão e maçãs. Reserve
- Prepare o molho misturando maionese, suco de limão, creme de leite e sal
- Junte o molho às maçãs, salsão e nozes que estão na saladeira. Misture
delicadamente. Cubra com papel-filme. Deixe na geladeira até servir

* * é especialista em Gastronomia. Escreve toda semana neste espaço.