O mercado público e seu novo perfil

Espaços que vem ganhando destaque por seu potencial cultural, econômico e democrático, o mercado público agrega diversos segmentos da sociedade se reúnem e interagem

Os 23 mercados públicos do Recife seguem os mesmos conceitos. Variam os serviços ofertados, de acordo com as características do seu entorno, como o Mercado da EncruzilhadaOs 23 mercados públicos do Recife seguem os mesmos conceitos. Variam os serviços ofertados, de acordo com as características do seu entorno, como o Mercado da Encruzilhada - Foto: Rafael Furtado

 Entre os edifícios de domínio do Estado, os mercados públicos vêm ganhando destaque por seu potencial cultural, econômico e democrático. Um espaço popular, onde os diversos segmentos da sociedade se reúnem e interagem, seja na forma de negociar ou divertir. Hábitos que transcendem a ideia de um simples comércio, que simbolizam uma manifestação cultural legítima e agregam à memória afetiva de quem cresceu frequentando esses locais. Os 23 mercados públicos do Recife seguem os mesmos conceitos. Variam os serviços ofertados, de acordo com as características do seu entorno, mas mantêm a essência: a presença da raiz cultural pernambucana, além da semelhança marcante com as feiras livres, no que diz respeito à freguesia e receptividade dos clientes. A Cidade tem passado por mudanças, com o crescimento dos bairros influenciando os ambientes e direcionando os investimentos públicos. Os mercados, antes classificados como equipamentos meramente comerciais, assumiram aos poucos um perfil mais social, adotados como ponto de encontro.

Mudanças ocorreram, mas os espaços mantiveram a regionalidade, preservando a cultura, o artesanato e as raízes populares. Mas a concentração de pessoas apenas durante os fins de semana preocupa os comerciantes. O direcionamento das atrações para os sábados e domingos valorizam esses espaços, mas também preocupam os locatários, que precisam faturar durante a semana. O poder público tenta contornar o problema fortalecendo a mobilidade no entorno dos mercados e ampliando o acesso a pedestres, ciclistas e usuários do transporte público.

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A história e o comércio

Historicamente, o Recife pode ser considerado precursor do “movimento social” dos mercados públicos no Brasil. Localizado no Centro da Capital e inaugurado em 1875, o mercado de São José é o mais antigo do Brasil. O equipamento fica num dos pontos de maior movimentação de pessoas da Cidade, destacado à época por sua importância comercial e proximidade do porto. A evolução de seu entorno reforçou o caráter comercial, que hoje se destaca pela negociação de peixes, ervas e artesanatos.

A consolidação do mercado de São José aconteceu naturalmente, com os demais espaços sendo distribuídos pelos subúrbios recifenses. É o que explica o presidente Instituto da Cidade Pelópidas Silveira, João Domingues. Na antiguidade, os mercados eram muito mais centros comerciais do que um lugar de lazer. “Sempre que você tem um lugar de maior potencial de pessoas se encontrarem, você tem um bom ponto comercial. Normalmente, é nessas regiões que se desenvolveram os mercados”, ressalta.

O arquiteto e urbanista atrela as mudança graduais nos espaços ao formato ao qual os produtos passaram a ser comercializados. “A forma de usarem o equipamento mudou um pouco, porque não existiam supermercados, não se tinha um grau de industrialização. Você comprava produtos frescos, a granel, e não numa embalagem com prazo de validade”, observa. “Principalmente, nas áreas que passaram por um processo de transformação de ocupação do solo, no que diz respeito à renda. Um público que se locomove de carro e tende a consumir de outros estabelecimentos comerciais”, destacou Domingues. Para o pesquisador, percebe-se que, ao longo da história, os perfis dos mercados  acompanharam as alterações dos hábitos da população que os circundam.

“O mercado de São José representa o centrão, que sempre teve um comércio muito forte. Mas, antes, havia uma população que morava ali. Hoje, ela diminuiu. O caráter de vendas regionais, artesanatos, ervas, peixes e produtos frescos, porém, permanecem perpetuados”, observa. O comerciante Samuel Corrêa, 50, trabalha há 34 anos como feirante e deu continuidade ao negócio do pai no mercado da Madalena. Ele sentiu na pele a mudança na procura dos serviços. “Muitos boxes comerciais, de verduras e carnes, fecharam para dar lugar a bares e casas de ração. Isso foi tirando um pouco da cara do mercado público, de ser quase uma feira”, observa. “Meu número de clientes reduziu muito. Antigamente, às 3h da madrugada já tinha cliente esperando eu abrir. Hoje não tem mais. De quinta para sábado eu tiro a renda da semana”, lamenta o locatário.

A cultura

As raízes populares e regionais encontradas no mercado resultam em uma mistura social. O poeta Miró, da Poesia Marginal, sempre bebeu dessa fonte e tem propriedade ao falar do assunto. “A minha poesia é popular, é fácil de entender. E o mercado público tem essa coisa universal da pluralidade. Então, eu levanto a mão, faço uma poesia e o cara pergunta: ‘Quanto é o livro?´. Vendo meus livros e vivo disso. O mercado público é essencial à minha poesia”, conta o escritor, que tem o mercado da Boa Vista como uma segunda casa. “Moro aqui perto. Depois do mercado da Madalena, o Boa Vista é o que mais inspira”, afirma. “A Madalena é um mercado com tradição de cordel e da poesia do Interior. Já o da Boa Vista é mais a poesia urbana. Tem gente que vem para cá sem o corpo saber. Ele acorda e vem para cá almoçar e esperar alguma coisa acontecer”, destaca. “Ai um cara recita uma poesia e depois entra uma mulher cantando brega, depois vem outro e toca Beatles, Waldick Soriano. E isso com a atenção do público, que está ali esperando algo acontecer. O mercado virou um ponto de encontro, como o shopping é para alguns.”

O social

A informalidade dos espaços e da freguesia criam um aconchego para quem tem o hábito de frequentá-los. O aposentado Milton Gouveia, 62, e seus seis amigos não perdem uma oportunidade de reunirem a turma da antiga empresa. Atualmente, todos estão aposentados e utilizam o mercado da Encruzilhada como um “quartel general”. “Marcamos de vir aqui e nos programamos para nos encontrar pelo menos uma vez por semana. Porque aqui é um clima acolhedor, um clima diferente de um shopping, diferente de um bar. É uma mistura de boteco com uma convivência muito cordial e agradável de serviços ofertados. Temos um atendimento fantástico. Os comerciantes nos conhecem pelos nomes, e a gente se sente muito à vontade”, avalia.

Evolução dos espaços

A Prefeitura do Recife diz estar atenta a essas modificações nos mercados. Cita como exemplo o da Madalena, que será requalificado ainda este ano. O investimento visa atrair um maior número de turistas e recifenses. O local é tradicionalmente um equipamento de cultura, com muitos boxes de artigos para animais, serviços e alimentação. Já o mercado da Boa Vista tem uma forte e antiga tradição de bares e apresentações culturais. É foco do projeto Viva o Mercado, que leva atrações culturais semanais a esses espaços públicos, e que já fez o mesmo na Encruzilhada e no Cordeiro. Os banheiros também devem ser reformados neste ano, por meio de uma parceria público-privada. “Vimos uma necessidade de requalificar os banheiros, de melhorar a acessibilidade, de humanizar os espaços. Não precisamos de muito para atrair o público para o mercado. Ele já tem seu público habitual. O que a gente quer é agregar ainda mais, para que venham mais visitantes, mais turistas, para que as pessoas do bairro e arredores frequentem mais”, explica a arquiteta que gere as obras nos mercados públicos do Recife, Ana Paula Lins.

O mercado da Encruzilhada é um exemplo desse implemento. Conhecido pela diversidade de serviços, culinária e produtos, ganhou três novos boxes voltados à gastronomia em novembro de 2017, atraindo um novo público ao equipamento, que busca o convívio harmônico com a tradição dos bares antigos. Os banheiros antigos serão reformados ainda no primeiro semestre deste ano, atendendo uma queixa antiga do público e locatários. Em Afogados, também foi realizada a reforma dos banheiros, a colocação dos expositores refrigerados nos boxes de alimentos perecíveis, além da pintura.

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