O perigo das valas nas praias do litoral pernambucano

As correntes de retorno são responsáveis pela maioria dos afogamentos na orla pernambucana, segundo o Corpo de Bombeiros

Arte correnteArte corrente - Foto: Arte corrente

As correntes de retorno, conhecidas como valas, representam um risco real aos banhistas, sendo responsáveis pela maioria dos afogamentos nas praias do litoral pernambucano. E com a chegada do verão é bom ficar atento. Essa ameaça natural, que ocorre em todo o tipo de praia, é capaz de carregar pessoas para alto-mar em pouco tempo.

Um mapeamento feito nas praias do Recife, Jaboatão dos Guararapes e Cabo de Santo Agostinho, por pesquisadores do Departamento de Oceanografia da UFPE, identificou 77 correntes de retorno. As correntes de retorno móveis são maioria, 53 no total, seguidas das correntes de retorno fixas. Na Capital, as falhas nos recifes das praias de Boa Viagem e Pina, são as responsáveis por essas armadilhas.

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Um dos autores do estudo e especialista em dinâmica de marés, Pedro de Souza Pereira, aponta as áreas em frente ao Edifício Acaiaca e à Casa do Brigadeiro, ambos em Boa Viagem, como exemplos de pontos de correntes de retorno fixas. Foi neste último que o jovem Eronildos Francisco da Silva, de 23 anos, nadava com a namorada e dois amigos quando foi levado pelas águas e desapareceu no último domingo (20).

Esses locais, contextualiza o pesquisador, estão situados em cantos de pedra como costões, molhes e piers. São formadas pelo encontro de correntes laterais para o canto de pedra ou pela ocorrência de grandes ondas que elevam rapidamente o nível de água.

“E no caso desses pontos, as lacunas entre as rochas se tornam “caminhos” para a água retornar. Quando a onda quebra na costa, voltam por essas brechas, assoreando e abrindo canais, muitas vezes, não vistos pelos banhistas por estarem submersos”, explica.

É aí que mora o perigo. É, justamente, nessas valas que as ondas não quebram e não há presença de espuma do mar, devido ao retorno das águas e à maior profundidade, passando ao banhista um falso aspecto de calmaria.

Outros aspectos também são indicativos para identificar essas armadilhas: a cor da água - o intenso movimento de retorno levanta a areia do fundo e mistura a água a outros sedimentos, deixando-a em tom marrom escuro - e os “caldeirões”, trechos pontuais no mar com uma maior movimentação de ondas. “A regra de ouro é: água no umbigo, sinal de perigo”, reforça Pereira.

De acordo com o estudo, o município que mais apresentou a existência de correntes de retorno foi Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife, onde foram contabilizadas 37 correntes de retorno. Logo depois vem o Recife e Jaboatão com 15 e nove, respectivamente. Esses dados alertam para os perigos dessas praias e para os cuidados que os banhistas devem ter ao frequentá-las.

De acordo com o especialista, é possível que o fenômeno ocorra em qualquer praia. O que define a velocidade, intensidade e o tipo de corrente de retorno, por exemplo, é a topografia da praia. Se no Recife, os espaços entre uma pedra e outra propiciam o seu aparecimento, nas praias do Cupe, em Ipojuca, e do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho, as correntes de retorno são frequentes porque a intensidade das ondas geram grandes canais submersos.

Para se ter uma ideia do quão perigosas são essas praias, alerta Pereira, em média quatro correntes de retorno são formadas a cada 50 metros. “Por isso, a presença de surfistas. Porque são as ondas que alimentam essas correntes. E o surfista pega essas valas para ter impulso até o alto mar”, contextualiza.

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