O que eu tenho a ver com isso?

Há um sentimento de ódio espalhado nas redes socais, destruindo amizades, azedando as relações de família. Um rancor que parece ser acalentado por atores políticos

Patrícia de Raposo, editora chefe da Folha de PernambucoPatrícia de Raposo, editora chefe da Folha de Pernambuco - Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

Vivemos tempos difíceis, tempos violentos e impacientes. Se a democracia pressupõe o poder exercido pelo povo, a intolerância cai como uma pedra sobre ela. Ausência total de disposição para aceitar pessoas com pontos de vista diferentes, ela se contrapõe à sua oponente, a tolerância, que, por contraste, é o “discordar pacificamente”. É o “aceitar”.
O limite entre uma e outra é a emoção. E quando a emoção descontrolada impera, acontece o que temos visto nos últimos dias: o regresso da violência política, essa tão desprezível brutalidade que calou tanta gente nos tempos de chumbo.

A intimidação que a violência política impõe é uma terrível ameaça não só à liberdade de imprensa, que é o direito de comunicar, mas sobretudo à liberdade de expressão, o direito de ser. E só mesmo regimes totalitários tentam reprimi-la, impedido que alguém possa manifestar livremente suas crenças, opiniões e posições.

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Nos últimos dias temos visto muito desrespeito à liberdade de expressão. Pessoas estão sendo agredidas porque têm posicionamento político diferente, porque se manifestam politicamente usando um boné, uma camisa, um broche.

Em alguns casos, as vítimas eram homossexuais assumidos, o que amplia o leque da motivação para transgredir a lei e a ordem, coisa que não se via há muito tempo tão abertamente no Brasil, afinal, conquistamos a duras penas o direito à diversidade e à cidadania.

Há um sentimento de ódio espalhado nas redes socais, destruindo amizades, azedando as relações de família. Um rancor que parece ser acalentado por atores políticos, como a estimular o silêncio através do medo e, desta forma, inibir manifestações divergentes.
Numa sociedade na qual a educação é relegada a segundo, terceiro, último plano, e a capacidade de discernimento – que sabemos, só evolui com leitura – é ausente em grande parte da população, só poderíamos chegar a este lamentável momento, no qual resta pouca possibilidade de reflexão entre a população.

Para discernir é preciso analisar e confrontar. Sem cultura histórica, sem conhecimento, é impossível. Com o crescimento das redes sociais a situação se agrava, porque a massa acredita que o WhatsApp é fonte de informação crível e não consegue perceber uma fake news quando a recebe. No Brasil, 70% das pessoas são incapazes de detectar uma notícia falsa, como mostrou recente pesquisa do Instituto Ipsos, divulgada dia 2 de outubro passado.

Por outro lado, não temos visto as autoridades se colocarem firmemente contra os abusos violentos. Nem dirigentes partidários. Já houve uma morte e diversos ataques brutais a várias pessoas, sem falar nas intimidações, que nem chegam a ser registradas.
Finalizo com a frase dos escritores Steven Levitsky e Daniel Ziblatt: “O paradoxo trágico da via eleitoral para o autoritarismo é que os assassinos da democracia usam as próprias instituições da democracia - gradual , sutil e mesmo legalmente - para matá-la”.

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