O sexagenário sertão de Guimarães

Neste especial, o sertão aparece redesenhado dentro de enredos humanos, costurados pela obra do escritor

O matadorO matador - Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

Nonada. O sertão está em toda parte assim como está aqui, debaixo dos nossos pés e conosco, aonde quer que formos. Assim como designa áreas distantes do litoral, secas, onde quase nada chove, está também dentro de cada um de nós. Para lembrar os 60 anos de publicação de um dos maiores romances da literatura brasileira - Grande Sertão: Veredas -, a Folha de Pernambuco redesenhou o sertão dentro de enredos humanos, costurados pela obra do mineiro João Guimarães Rosa. Personagens reais, embora anônimos, que se deixam sair em veredas para este grande sertão metafísico em que vivemos.

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Guimarães Rosa se preocupou em descrever o sertão e, tanto assim, definir quaisquer outros. Pode ser o “lugar que carece de feixos”, como diz no livro, ou a vida em um momento qualquer. Há a rota geográfica ao instante que se desobriga dela; há as certezas sobre Deus assim como há aliança com um diabo do qual se duvida. Grande Sertão é um livro sobre dúvidas: o mal está ou não? O diabo existe? O que fazer desse amor que existe ao mesmo tempo que não pode ser?

O leitor pode demorar a cair na história, contada sem capítulos. Rosa não dá o fio condutor romanesco, mas constrói uma teodisséia conduzida por um diabo que não aparece, onde tudo tem justificativa divina. A narrativa monologar em primeira pessoa é feita por Riobaldo, um jagunço letrado que protagoniza a saga pelo sertão mineiro, para um interlocutor. Junto a ele está Diadorim, figura central do maior drama da vida de Riobaldo: o amor contemplação e não declarado por um homem. Andrógino, Diadorim é o sentimento que não racionaliza a quem ama.

Amando esse Diadorim-homem por todo o livro, Riobaldo não se pensa homossexual, mas consente que há ali um sentimento com o qual não sabe o que fazer. O pedido ao leitor é que, ao estar com Grande Sertão: Veredas, abandone a simplória identidade de gênero. “Riobaldo ama, mas não sabe exatamente o objeto do amor”, ajuda a nortear o professor Lourival Holanda. “A força está nessa indecisão. Ele diz ‘Diadorim é a minha neblina’; está dito, mas não pôde ser explicitado. O mais forte do sentimento é aquilo que não cabe em linguagem”. Por fim, a Diadorim-mulher é o amor-contemplação de Riobaldo que ganha um ar ainda mais fatal de não-realização pela morte. O fim e o vazio.

Guimarães Rosa foi um conservador, médico e cônsul do Brasil na Alemanha, onde, destacam os que o estudam, concedia visto aos judeus que fugiam da Alemanha nazista. É dito também como um escritor neobarroco, profundo, contemporâneo, que morreu logo depois de tomar posse na Academia Brasileira de Letras. Em seu sertão, reservou para si um pedaço de Riobaldo; então temos um livro um tanto autobiográfico. Nele, Rosa não se limita geograficamente - como acontece com os romances de 1930, muito ligados ao lugar - e apresenta uma jornada na busca de si mesmo. E nos ensina: o sertão é importante, mas o que conta são as veredas.

Há muitos sertões a se descobrir a cada leitura, por cada leitor, a cada repertório. Aqui, o sertão toma um lugar de sentimento que ao ser adentrado propõe conexões imediatas com a vida de quem o lê, alinhavadas a frases do livro, ipsis litteris, marcadas para que possam ser identificadas. Este recorte é um grão diante do sertão rosiano, imenso para caber em poucas páginas, mas se oferece como um convite ao encontro ou ao reencontro com este que está entre os 100 livros mais importantes do século 20, uma obra sobre o ser humano. Travessia.

“Eu gosto de matar”
O matador de aluguel carrega, em si e no seu ofício, o sentimento de finitude, a materialidade da morte, o perigo inerente. Representa dicotomias: a injustiça que se vê justa, a morte que vive entre nós, o criminoso que reza e renega o “diabo”. Esse personagem representa a violência, nosso medo de vítimas, nossas intenções de algoz e, tão importante, o câncer da impunidade que reage contra a sociedade. Ele é a violência, o nosso árido sertão urbano.

“Determinaram - era o demo”
O homem das ruas é o espelho do que somos: egoístas, indiferentes, perversos. Ele é, como nós, um sobrevivente neste sertão em que estamos, que nos denigre, mas nos constrói. O homem concentra todos os sertões humanos em si, dono da inteligência que nos diferencia dos animais e o instinto de sobrevivência que nos aproxima deles.

“Deus é paciência; o contrário é o diabo”
O corpo imobilizado já foi prisão - na impotência física e o inconformismo com uma fatalidade. Mas na cadeira de rodas, o tempo e a vida andam porque a cabeça funciona a mil. Ela não é apenas a vitória sobre si e sobre os acontecimentos, mas a lida com a morte enquanto se busca, na fé e na resiliência, a vida.

“Diadorim é minha neblina”
No coração que ama o outro não dá espaço para que a cabeça tenha escolhas. Abafar um sentimento é somente atrasá-lo, uma angústia inútil, porque o desejo fatalmente encontrará uma forma de ser

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