Obra de ponte no Recife liga nada a lugar nenhum

Ponte Iputinga-Monteiro deveria estar pronta em 2013, mas o que existe até agora é um pedaço de concreto que serve de abrigo para moradias precárias

Construção foi paralisada há cinco anos porque teria ocorrido um erro no traçado da ponte Construção foi paralisada há cinco anos porque teria ocorrido um erro no traçado da ponte  - Foto: Brenda Alcântara

Com as obras paradas há meia década, a Ponte Iputinga-Monteiro, no Recife, segue em meio a um impasse sobre o qual existem mais incertezas que acertos. Uma possível falha no traçado gerou a necessidade de adequações na construção e, consequentemente, inviabilizou a continuidade do projeto. Desde 2016, a Prefeitura tem anunciado que realizará estudos de mobilidade na região e projetos executivos para os ajustes, mas, até agora, nada saiu do papel. O caso é acompanhado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), que cobra esclarecimentos da empresa responsável pelo projeto sobre os supostos erros, antes de julgar o processo. Em dezembro, o empreendimento integrou um relatório do tribunal que elencou 1.547 obras inacabadas em Pernambuco.

A ponte teria 280 metros de extensão e 20 de largura, com duas faixas no sentido Monteiro, na Zona Norte, e duas no oposto, sobre o rio Capibaribe. Na margem da Iputinga, na Zona Oeste, ela seria ligada à rua Maria de Fátima Soares. Já na outra, à rua Pinto Campos, chegando à Praça do Monteiro.

Quando a construção começou, em maio de 2012, na gestão do ex-prefeito João da Costa, a obra era vista como solução para desafogar o trânsito nas avenidas Norte e Conselheiro Rosa e Silva, uma vez que o Recife é desprovido de ligações entre as zonas Norte e Oeste. A Ponte-viaduto Torre/Parnamirim é a última antes de um hiato de quase oito quilômetros até a BR-101, travessia seguinte sobre o Capibaribe. Quem segue da sede do Detran, na Iputinga, ao Plaza Shopping, em Casa Forte, por exemplo, tem que percorrer 6,5 quilômetros via BR-101 e avenida Dezessete de Agosto. Se a Ponte Iputinga-Monteiro já existisse, essa distância cairia para quatro quilômetros.

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Na margem do rio na Iputinga, uma estrutura de 20 metros de altura foi a única parte erguida. Leva nada a lugar nenhum. O segmento de concreto se conectaria a uma das cabeceiras da ponte. Estruturas de ferro chegaram a ser implantadas, mas já estão corroídas. Barracos construídos há três ou quatro anos, depois de as obras terem parado, ocupam lugares de onde outros moradores já haviam sido retirados em processos de desapropriação. A presença de cavalos e porcos é frequente no local e reforça o aspecto de abandono.

O acesso ao antigo canteiro de obras é difícil. Um trecho da rua Jornalista Possidônio Cavalcanti Bastos é o único com pavimento novo. Essa e mais 19 vias seriam requalificadas no projeto de construção da ponte e comporiam três subsistemas de ligação com a Estrada do Barbalho e o Parque do Caiara.

Na época em que o impasse veio à tona, a própria Autarquia de Urbanização do Recife (URB), responsável pela obra, havia identificado problemas no traçado da ponte. Por isso, as respostas da empresa responsável pelo projeto são tão importantes para esclarecer responsabilidades, diz a conselheira do TCE Teresa Duere. “Chamamos a empresa e ela ainda está no prazo para informar o que aconteceu no projeto. Depois, vamos julgar. É preocupante que a Prefeitura tenha dito, nos autos, que não tem dinheiro para continuar a obra. O fato é que aquilo não só é um desperdício de dinheiro público, mas um perigo à população, porque o material está exposto, além da frustração da expectativa de quem mora de um lado e tinha a expectativa de ter a ponte para ir até o outro lado para trabalho”, analisa Duere.

O Ministério Público Federal também acompanha o caso por meio de um inquérito civil, já que, além da Prefeitura, o projeto tinha recursos do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird) com participação do Governo Federal. O empreendimento consumiria R$ 42,7 milhões, um décimo do que custou a Via Mangue, concluída, também com atraso, em 2016. Na Ponte Iputinga-Monteiro, R$ 16 milhões chegaram a ser gastos. A obra deveria ter ficado pronta no fim de 2013.
Em nota, a URB informou que ainda realiza estudos para a readequação viária de todo o sistema do qual a ponte fará parte, e que a proposta é ajustá-lo às recomendações do TCE. Sobre a denúncia de invasão de terrenos no entorno do elevado, afirmou que mandará uma equipe para verificar o caso.

Moradores lamentam abandono
Enquanto não há um desfecho sobre o assunto, quem vive no entorno amarga frustrações. Como a requalificação de 20 vias na região também não foi terminada, ficaram para trás apenas poeira, pedras e ruas esburacadas. O pedreiro Luiz Carlos Nunes, 38 anos, mora em um barraco apertado no lado da Iputinga. Já ouviu muito sobre o destino da ponte, mas não viu nada mudar. “Seria bom para deixar de ter que fazer um ‘arrodeio’ até o outro lado e para acabar com esse abandono todo aqui desse lado”, opinou. Morador da região desde que nasceu, o servente de pedreiro Everton Santana, 21, não crê num desfecho rápido para o impasse. “Já retiraram o pessoal que mora perto e indenizaram umas três vezes, e já tem um povo invadindo de novo. Se um dia voltar, a obra vai demorar por causa disso”, relata.

Do outro lado, um canteiro de obras também foi montado, mas a estrutura de concreto que chegou a ser construída é bem menor. Por lá, casas que estão na rota da ponte ainda estão de pé, embora algumas outras já tenham sido demolidas. “A gente estava quase fechando um acordo de indenização, mas a obra parou. Ficou só esse terreno aí atrás. Algumas casas foram derrubadas, a comunidade foi destruída. Depois disso, os assaltos aumentaram”, conta a moradora Valéria Barbosa, 49.

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