Obstáculos no caminho

Da forma como ele é hoje (o ceav), a gestão é rompida para começar outra.

Filme "O amor no divã"Filme "O amor no divã" - Foto: Divulgação

“Da forma como ele é hoje (o ceav), a gestão é rompida para começar outra. o risco é o serviço deixar de existir”

Neste segundo dia da série Sem Reparação, que conta história de pessoas atendidas pelo Centro de Atendimento a Vítimas de Violência (Ceav), vítimas indiretas de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs), a Folha mostra os obstáculos do trabalho da equipe que estava, na época da apuração deste especial, na linha de frente desse que é um dos programas da política de reparação do Governo de Pernambuco, um dos pilares dos Direitos Humanos. Nas histórias narradas, as identidades dos personagens foram preservadas e seus nomes, trocados por outros escolhidos por eles próprios. Amanhã, terceiro dia da série que segue até quarta, a voz será da Clínica do Testemunho, ação junto às vítimas da Ditadura Militar. Textos de Tatiana Notaro. Fotografia de Peu Ricardo.

O coração do Ceav é a equipe técnica formada por dois advogados, dois psicólogos e uma assistente social. Bruno Araújo, Elaine Alves, Julia Santos, Josimar Souza e Alexsandra Silva, respectivamente, eram os terceirizados do programa quando a Folha acompanhou o trabalho por 15 dias. Atendiam em torno de 30 casos de CVLIs por mês, prioritariamente em Jaboatão dos Guararapes e Moreno, municípios com maior incidência desse tipo de violência. Ainda ministram cursos e palestram sobre Direitos Humanos.

Outro dificultador são as falhas da rede pública de serviços. “A gente atende o usuário, encaminha, mas não temos a certeza de que ele será atendido”, diz o psicólogo Josimar. “Penso que o trabalho do Ceav deveria ser uma política de Estado, não de governo. Automaticamente, ela teria continuidade. Da forma como é hoje, a gestão é rompida para começar outra. O risco é o serviço deixar de existir”, ressalta a advogada Elaine.

O trabalho deles começa com a lista de familiares que comparecem para reconhecer corpos no Instituto Médico Legal (IML). Dali acontecem a abordagem por telefone e o agendamento da primeira visita, nem sempre aceita. “Não insistimos muito porque o momento é muito delicado. Em respeito, a gente diz que a pessoa pode procurar depois e, em geral, eles retornam”, diz Alexsandra. Pergunto se eles têm algum tipo de suporte psíquico. “Temos apenas uns aos outros”, fala Elaine.

Fico curiosa sobre o assunto e Alexsandra escolhe um caso. “É de uma senhora cujo filho passou sete anos preso. O menino sofreu tortura e ela, junto. Todas as vezes que iam torturá-lo, ligavam para ela ouvir. Vendeu a casa para arrumar R$ 10 mil, mas ele foi morto. Quando fomos na casa dela, ela só conseguia dizer ‘mataram meu bebê’. Aquilo vinha em mim, que tenho um menino”.

A equipe vive o Ceav como uma nova perspectiva para os Direitos Humanos. Em geral, as forças estão voltadas a punir o réu. E quem fica? O que se vê a cada visita é que a atuação do Ceav encurta caminhos através de simples telefonemas. “Nosso objetivo não é fazer daquela pessoa uma privilegiada, mas quando se chega com o encaminhamento do Ceav, de fato, se consegue um atendimento mais célere”, diz Elaine. Josimar completa: “obviamente que a gente entende que esse não deve ser o caminho universal. Camufla a falha, e as pessoas precisam acessar os serviços pela porta de entrada”.

Para essas pessoas, o mais importante do trabalho é levantar a bandeira e universalizar os Direitos Humanos. Defendem que é preciso propagar o ideal de que, independentemente do contexto, todas as pessoas devem ter suas vidas preservadas. Mesmo que, na prática, isso não aconteça.

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