Covid-19

Ômicron: como a variante que completa 2 anos agora mudou o curso da pandemia

Cepa representou uma queda na gravidade da doença

Variante ômicron Variante ômicron  - Foto: Pexels

Nesta semana, há dois anos, cientistas da África do Sul anunciavam a descoberta de uma nova cepa do Sars-CoV-2, vírus da Covid-19, que mudaria os rumos da crise sanitária que parou o mundo e provocou quase 7 milhões de mortos. A variante Ômicron levou países a baterem recordes de infecções, ao mesmo tempo em que surpreendia por não aumentar os quadros graves na mesma proporção.

Agora, 24 meses depois, a versão do vírus segue predominante e, embora tenha levado o cenário epidemiológico a uma realidade mais próxima à de outros patógenos respiratórios, como o Influenza e o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), ainda é um desafio pelas suas múltiplas sublinhagens e reinfecções.

Para entender o impacto que Ômicron teve na pandemia, é preciso relembrar a situação em novembro de 2021. A vacinação avançava pelo mundo, e grande parte da população ainda não havia tido contato com o Sars-CoV-2. Uma preocupação, porém, eram as cepas do vírus, que em questão de meses surgiam e se disseminavam pelo planeta.

A Gama, por exemplo, identificada em Manaus, levou o Brasil aos piores momentos da pandemia, com dias em que se registravam mais de 3 mil mortes diárias. A Delta, identificada pouco depois na Índia, gerou receios de que as vacinas não fossem mais eficazes.

— Antes da Ômicron, a cada dois, três meses tínhamos uma nova variante. Mas ela mudou isso, e está se mantendo estável agora por dois anos. Temos as subvariantes, que têm um certo escape imunológico, mas a raiz da estrutura do vírus continua sendo a Ômicron. É como se o esqueleto continuasse o mesmo — diz Rosana Richtmann, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e coordenadora do comitê de imunizações da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Antes da Ômicron foram 4 “variantes de preocupação” (VOC) – classificação de cepas que têm alta importância para saúde pública – em menos de dois anos de pandemia. Porém, quando ela surgiu, as mutações já indicavam que era um novo momento da crise sanitária: havia 32 alterações na proteína Spike, que o vírus utiliza para se grudar na célula e infectá-la.

Poucos dias depois, a OMS declarou que se tratava de uma nova VOC e, em apenas quatro semanas, a Ômicron se tornou predominante no planeta. Quatro meses depois, em março de 2022, a organização estimou que cerca de 90% da população mundial tinha alguma imunidade, seja pela vacinação, seja pelo contato com o vírus.

— A disseminação da Ômicron teve um impacto muito grande do ponto de vista do número de casos. Por ser uma cepa de transmissão muito mais fácil, tivemos um incremento de ondas que envolviam um número muito maior de pessoas infectadas — diz Richtmann.

O momento foi o de pior contágio em toda a pandemia. Em janeiro de 2022, o Brasil chegou a registrar mais de 1,3 milhão de novos casos em apenas uma semana. No mundo, chegou a ser 4 milhões em somente um dia. A dificuldade para contê-la levou até países mais rígidos, como Nova Zelândia e China, a aliviarem medidas sanitárias impostas desde 2020.

Mas a subida exponencial dos diagnósticos não foi acompanhada por hospitalizações e mortes. Embora também tenham crescido, reflexo do altíssimo número de contaminados, a proporção foi consideravelmente menor. O pico de óbitos, por exemplo, tanto no Brasil, como no mundo, continuou a ter sido no início de 2021.

— A trajetória das epidemias tem uma característica que envolve a emergência de variantes cada vez mais eficientes do ponto de vista de sobrevivência e reprodução. Cepas mais virulentas dão lugar às mais transmissíveis. Porque acaba sendo melhor para o vírus, o hospedeiro se sente bem e dissemina mais o patógeno. Vírus muito letais não se disseminam tanto porque matam o hospedeiro — diz Maria Cátira Bortolini, professora do departamento de Genética e coordenadora da pós-graduação em Genética e Biologia Molecular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Além dessas próprias características evolutivas da cepa, Bortolini acrescenta que a menor gravidade é também porque ela se disseminou num contexto diferente das anteriores, em que cerca de 55% da população mundial havia recebido ao menos uma dose das vacinas, segundo a plataforma Our World in Data.

— Nós tínhamos um cenário de imunidade ou adquirida por infecções anteriores, ou pela vacinação, ou por ambas. Então a Ômicron também chegou num momento em que a população estava diferente — continua.

Mais próximo à gripe
O infectologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) Max Igor Lopes, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), explica que a mudança de perfil do Sars-CoV-2 com a variante Ômicron, e suas sublinhagens, levou a doença a se aproximar do que ocorre hoje com outros patógenos respiratórios, como a gripe.

— Todos os vírus respiratórios têm essa característica de acumular mutações, escapar da imunidade e causar novas infecções. Isso acontece com a gripe, por isso nos vacinamos todo ano. O coronavírus está se tornando assim, hoje está adaptado aos humanos. O que acontece é que os quadros graves diminuem por causa da imunidade — diz.

O Brasil ainda deve terminar 2023 com quase 15 mil vidas perdidas pela Covid-19 – enquanto registra em média mil vítimas fatais pela gripe a cada 12 meses. Porém é um número consideravelmente menor que nos três anos anteriores: 74,8 mil mortes pela Covid-19 em 2022; 423,3 mil, em 2021, e 195,7 mil, no primeiro ano da pandemia.

Para o futuro, endemia e vacinas
Para o futuro próximo, a expectativa é que a Ômicron continue se dividindo em sublinhagens e provocando ondas de casos, mas que isso não se traduza na sobrecarga dos hospitais vivida no passado.

— Esperamos que continue nessa toada de termos uma doença endêmica, com aumento do número de casos de tempos em tempos, mas não com a mesma gravidade de antes. É um vírus que não vai embora — diz Richtmann.

Um desafio, porém, é em relação à vacinação, o grande fator por trás da menor gravidade. O primeiro é conseguir desenvolver doses atualizadas no ritmo necessário para alcançar as mutações do vírus.

— Precisamos imaginar que é um vírus de ampla circulação, é muito vírus e muito hospedeiro. Então a possibilidade de ocorrência de mutações aumenta muito. Isso é um desafio para quem desenvolve as vacinas — diz Bortolini.

Ainda assim, os especialistas concordam que as doses atuais, embora não tenham sido desenhadas para a versão da Ômicron em circulação, seguem efetivas em garantir uma alta proteção contra desfecho grave e óbito pelo "esqueleto" do vírus continuar o mesmo. No entanto, o segundo problema é que, mesmo disponíveis nos postos de saúde, a cobertura está baixa.

— Muitas crianças abaixo de 5 anos não se vacinaram, é a população com pior cobertura do país. E elas representam, junto aos idosos, um importante contingente dos óbitos. E tem ainda o baixíssimo percentual de brasileiros que receberam a dose bivalente, que é a vacina com componentes da Ômicron, que oferece uma proteção melhor do que a dose inicial — alerta a epidemiologista Ligia Kerr, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e professora da Universidade Federal do Ceará.

Segundo dados do Ministério da Saúde, somente 17,1% dos brasileiros acima de 18 anos receberam a bivalente. De acordo com um boletim do Observa Infância, da Fiocruz, cerca de 9 a cada 10 crianças com menos de 5 anos não estão completamente vacinadas contra a Covid-19. Isso embora, até setembro deste ano, a faixa etária tenha registrado 3.586 casos de síndrome respiratória grave pela doença, enquanto foram somente 412 naqueles de 12 a 19 anos.

Recentemente, o governo anunciou a inclusão da dose oficialmente no Calendário Nacional de Vacinação do PNI. O imunizante será oferecido anualmente a grupos prioritários semelhantes àqueles da campanha contra gripe, como crianças com menos de 5 anos, idosos e gestantes. A decisão é considerada acertada pelos especialistas.

— A proteção da vacina é maior nos primeiros meses após a vacinação, depois cai. Então o que se pensa hoje é mais nos grupos vulneráveis, em que a Covid é pior. Não é que vacinar a população saudável seja uma estratégia ruim, é uma relação de custo-benefício — diz Lopes.

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