“Onde, fria, a vida ferve”

A Folha de Pernambuco traz histórias de pessoas que também têm o Capibaribe como principal personagem

Anísio Silva Barros: o atravessadorAnísio Silva Barros: o atravessador - Foto: Jedson Nobre/Folha de Pernambuco

Em tupi significa “rio das capivaras” ou “dos porcos selvagens”. A bacia hidrográfica do rio Capibaribe se limita a Pernambuco. Nasce nas vertentes da Serra do Jacarará, em Poção, e tem cerca de 250 km banhando 42 municípios. No Recife, serve de inspiração para diversas denominações, como Veneza Brasileira, Veneza dos Trópicos e Cidade dos Rios e Pontes. Mesmo com toda a poluição, o Capibaribe está vivo e é um dos principais diplomatas pernambucanos, principalmente, para o escritor João Cabral de Melo Neto, que nele se inspirou em poemas como “O Cão sem Plumas”, cujo um dos versos ilustra o título desta página. Hoje, no dia dedicado a homenageá-lo, a Folha de Pernambuco traz histórias de pessoas que também têm o Capibaribe como principal personagem.

Anísio Silva Barros: o atravessador
De domingo a domingo, faça chuva ou sol, Anísio Silva Barros, 52, tira seu sustento fazendo travessias de barco do cais da Jaqueira até o Hospital Evangélico, na Torre, por R$ 2,50. É assim que leva a vida há 35 anos, desde que deixou a pescaria. “Antigamente era uma abundância de peixes. Tudo mudou quando a poluição tomou conta. Foi aí que me tornei atravessador. E, toda vez que vejo alguém jogar lixo no rio, sou o primeiro a protestar. Se o Capibaribe está assim hoje é por culpa nossa também”, reconhece.

Socorro Cantanhede: a protetora
Graças ao empenho de movimentos como o da ONG Recapibaribe, encabeçado há 21 anos por Socorro Cantanhede, o rio respira mais um pouco. Sua principal bandeira é o recolhimento do lixo no rio como forma de protesto para que a gestão pública invista em limpeza e saneamento. Hoje, ela faz diferente: leva educação ambiental a estudantes para estimulá-los a preservar o Capibaribe. “Educação ambiental é a semente para olharmos com mais respeito para o rio. Esse ‘diplomata pernambucano’ merece ter sua vida de volta”, afirma.

José Santana: pescador por amor
“Hoje só se encontra com facilidade bagre, que se adapta a ambientes poluídos, mas não serve para vender. Tem que ir a alto-mar para conseguir um bom pescado.” O lamento é do pescador José Santana, 62, que exerce o ofício há mais de 40 anos. “A gente passa o dia todo para pegar 4 kg. Isso quando ‘o rio está para peixe’. Mas a gente que é pescador não consegue deixar o rio nem o mar. Não dá dinheiro, mas dá prazer”, declara José, cuja aproximação com o Capibaribe vem de criança. “Parecia piscina de tão límpida que era a água”, lembra.

Valdeci Nascimento: o contemplador
Em São Lourenço da Mata, em meio a pés de acerola, manga, graviola, laranja e coco do pomar de sua casa, o autônomo Valdeci Nascimento, 63, passa o tempo contemplando o rio Capibaribe, ora deitado na rede, ora sentado num tronco caído. A sombra das árvores reforça o ar de aconchego e tranquilidade Valdeci para compartilhar suas muitas lembranças. Entre elas, a de tempos em que o Capibaribe era um bom lugar para mergulhar com os filhos e pescar um peixe para o almoço ou jantar. “Dá uma tristeza ver no que o rio se transformou. Dava para ver os pés embaixo d’água. Mas a cidade foi se expandindo sem saneamento e hoje o Capibaribe recebe só esgoto”, lamenta. “Ajudei a levantar o viaduto do centro da minha cidade. Quando vi o terreno para vender, não pensei duas vezes em comprá-lo.”

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