Ônibus: os gargalos no subúrbio

Se em avenidas, faixas exclusivas dão fluidez, nas ruas dos bairros, o tráfego é difícil para coletivos

Urnas eletrônicas passam por preparaçãoUrnas eletrônicas passam por preparação - Foto: Gustavo Glória/Folha de Pernambuco

Corredores exclusivos aparecem sempre nas discussões sobre a neces­­­sidade de dar mais fluidez ao transporte público. Dos mais caros, como os de BRT, aos que exigem menos intervenções, como as faixas sinalizadas no chão ou em pla­­­­­cas, eles se traduzem em prioridade a ônibus que comportam até 150 passageiros de uma só vez em detrimento de carros ocupados, não ra­­­ro, por uma ou duas pessoas. Mas se a rapidez é cada vez mais assegurada por políticas públicas nas grandes avenidas, o mesmo não se pode dizer dos subúrbios. Apertadas e com obstáculos que variam de desor­­­dem urbana a estacionamen­­­to irregular, vias internas de bairros são desafios diá­­­rios da operação dos coletivos.

Mudar esse cenário não é tão simples, dizem especialistas, mas é viável amenizá-lo, sobretudo, com adequações e soluções que deem vez a outras formas de mobilidade. O Grande Recife Consórcio de Transporte (GRCT) não tem números específicos sobre as dificuldades de operação no su­­­búrbio, mas afirma que, em toda a rede, entre 4% e 5% das viagens programadas deixam de ser realizadas devido a engarrafamentos.

Para algumas linhas que enfrentam gargalos, como as de Nova Desco­­­berta, o índice ul­­­tra­­­passa 10%. Também há exemplos em Dois Unidos e Vasco da Ga­­­­ma, no Recife, além de Cavaleiro, em Jaboatão.

O coordenador de operações do GRCT, Mário Sérgio Corné­­­lio, estabelece a cadeia de impacto. "Com carros estaciona­­­dos em vias estreitas, uso do solo irregularmente e desobe­­­diência à sinalização por terceiros, a velocidade dos ônibus cai bastante. Colocar mais ônibus para compensar as perdas de viagens contribuiria para piorar esse cenário.

E por que se perde a viagem? Se não for por aciden­­­te ou quebra de ônibus, é porque não se con­­­segue cumprir o tempo de rotação (perío­­­do de ida e volta do ônibus). Mesmo perdas pe­­­­­quenas representam muito para a comunidade”, avalia.
César Cavalcanti, da Associação Na­­­cional de Transportes Públicos (ANTP), diz que, apesar de as condições operacionais nos bairros serem diferentes das do Centro, quando se fala em priorizar os ônibus, considera-se todo local onde o trânsi­­­to do modal seja difícil. "A prio­­­rização deve existir também nos bairros. Não é só em grandes aveni­­­das que há congestio­­­namen­­to", diz, acrescentan­­­do que uma fiscalização de estaciona­­­mentos mais efetiva e a redu­­­ção do tamanho dos ônibus que atendem algumas áreas são ações a se considerar.
Presidente da As­­­sociação Bra­­­sileira de Engenheiros Ci­­­vis no Estado e consultor, Stenio Cuentro defende uma mudança de lógi­­­ca. "Não adianta querer oferecer o serviço na porta se não tem como o serviço chegar lá. Em vez de colocar ônibus ou micro-ônibus, por que não alargar cal­­­­çadas, dando condição de as pessoas se locomoverem 200, 300 metros para pegar o transporte onde ele pode passar? É o que acontece em cidades melhor planejadas. Aqui, a lógica está invertida", analisa.
Boa Viagem e Nova Descoberta, Recife
Na rua Desembargador João Paes, em Boa Viagem, só passa uma linha de ônibus: a 010-Piedade (Shopping Recife). A quantidade de veículos estacionados nos dois lados da via estreita é suficiente para atrasar as viagens. “As pessoas têm a ideia errada de que estacionar na rua é um direito, mas não é. Estacionar na rua é um privilégio que tende a acabar, sobretudo quando isso ocorre no caminho do ônibus”, avalia César Cavalcanti, da ANTP.

Em Nova Descoberta, a falta de fluidez ocorre em várias vias, como a Córrego do Joaquim e Córrego da Areia. O motorista de ônibus Ilson Cruz, 53, diz que falta fiscalização. “Com carro estacionado e comércio no meio da rua, tem hora que fica tão apertado, que a gente arrasta o pneu no meio-fio”, declara. A linha onde ele dirige ônibus chega a perder 10,69% das viagens programadas.

Cavaleiro, Jaboatão
Passar por avenidas como a General Manoel Rabelo e Agamenon Magalhães é um teste de paciência para motoristas e passageiros de ônibus. Basta um carro parar onde não deve para que o trânsito “dê um nó”. Perto do mercado público, a situação é mais crítica. À espera da 409-Curado IV/Barra de Jangada, linha municipal de Jaboatão, o vigilante Francisco Santos, 45 anos, sabia que demoraria até chegar ao destino.

“Tem muito ônibus nessa linha. A questão é que eles ficam presos nesse trânsito. Ainda vou passar pelo Ibura, que também tem uns locais apertados”, afirmou. A professora Jacira Leite, 60, aguardava a linha 370-TI TIP/TI Aeroporto, outra que transita por Cavaleiro. “Aqui é muito tumultuado. Deveriam alargar a avenida ou, pelo menos, organizar o comércio”, disse.

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