Qui, 12 de Março

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Autismo feminino: quando a inteligência silenciosa esconde um pedido de ajuda

Escrever sobre o autismo feminino é, para mim, escrever sobre um território emocional que conheço de perto através das minhas pacientes. Ao longo dos anos, acompanhei mulheres que chegaram ao consultório exaustas, carregando diagnósticos que não explicavam sua história e tentando entender por que o mundo sempre pareceu barulhento demais, rápido demais, exigente demais. A verdade é que muitas delas são autistas, mas passaram a vida inteira sem saber.

A camuflagem social, ou masking, é uma das razões para essa invisibilidade persistente. Meninas aprendem cedo a observar o mundo como quem estuda um idioma estrangeiro. Ensaio após ensaio, constroem um repertório de gestos, expressões e respostas que não surgem naturalmente, mas funcionam como passaporte para serem aceitas. Essa habilidade costuma ser lida como maturidade, quando, na realidade, é um esforço contínuo de adaptação que cobra um preço alto ao longo da vida.

Esse custo aparece nas formas mais variadas: ansiedade que nunca melhora, depressão recorrente, transtornos alimentares, crises sensoriais e um cansaço emocional profundo. Muitas chegam acreditando ter múltiplos transtornos, quando, na verdade, o que experimentam é o esgotamento acumulado de anos atuando para se encaixar. A raiz permanece invisível porque o modelo de autismo usado na prática clínica ainda é calcado na experiência masculina. E quando medimos mulheres por uma régua feita para meninos, inevitavelmente deixamos de enxergá-las.

Também é preciso falar da dupla excepcionalidade, mais comum no autismo feminino do que se imagina. Mulheres extremamente inteligentes, criativas e com desempenho acima da média costumam ter sua dor emocional minimizada. A lógica social é cruel: se ela é tão capaz, deve “dar conta”. Mas a realidade é outra. Altas habilidades cognitivas não anulam hipersensibilidades sensoriais nem dificuldades de regulação emocional. Apenas as disfarçam melhor, até que o corpo não aguenta mais.

O resultado é um diagnóstico que, quando finalmente chega, não aprisiona. Pelo contrário: organiza memórias, alivia culpas antigas e devolve dignidade. Muitas mulheres relatam que, pela primeira vez, conseguem interpretar sua trajetória com compaixão. Compreendem por que interações sociais as exaurem, por que situações imprevisíveis desencadeiam crises e por que a necessidade de rotinas rígidas sempre foi tão forte. Entendem, enfim, que não eram inadequadas, apenas estavam tentando sobreviver em um mundo pouco sensível às suas diferenças.

Por isso, falar de autismo feminino é falar de responsabilidade coletiva. A ciência precisa avançar, mas a sociedade também. Precisamos abandonar a ideia de que empatia, comunicação impecável, autocontrole emocional e flexibilidade infinita são obrigações femininas. Precisamos reconhecer que o autismo não tem um único rosto, um único comportamento, um único padrão.

O autismo feminino não é uma falha. É uma forma singular de perceber e sentir o mundo, de forma intensa, profunda, sensorial, inteligente. Uma forma que, por muito tempo, precisou se esconder para sobreviver. Por trás da camuflagem, existe força. Existe resiliência. Existe uma inteligência sensível que, por anos, foi silenciada para caber em moldes alheios. Agora, finalmente, começa a ser vista.
 


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