Qui, 05 de Março

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opinião

Carnaval 

Carnaval sempre me pareceu uma coisa que vinha de longe, atravessando tempos e costumes até pousar aqui com a nossa cara. Antes de ser clube, rua, orquestra e confete, ele remonta a festas pagãs da Antiguidade — rituais em que o mundo virava do avesso por alguns dias, com permissões, exageros e certa “inversão” social, como celebrações ligadas a Dionísio/Baco e, em Roma, festas como as Saturnálias. 

Com o tempo, isso foi se acomodando ao calendário cristão, sempre colado ao período que antecede a Quaresma, quando a tradição pede abstinência; por isso o Carnaval anda no calendário, variando a cada ano. E até o nome, para muita gente, vem dessa ideia de “afastar a carne”, associado a expressões como carnem levare / carnis levale. 

No Brasil, a memória mais antiga da festa passa pelo Entrudo português, trazido na colonização, com seus jogos de água e farinha nas ruas — um jeito bruto e popular de brincar que, aqui, foi se misturando com influências africanas e indígenas e, aos poucos, se transformou no que virou blocos, desfiles e tantas formas de Carnaval. E, como toda festa precisa de símbolo, havia o Rei Momo, recebendo a chave e abrindo oficialmente a porta dessa licença coletiva, como quem diz, sem discurso, que por alguns dias a alegria manda mais do que a rotina.

Eu vivi um Carnaval em que a festa tinha um ritmo muito claro, quase uma sequência natural, como se o dia e a noite fossem duas formas complementares de brincar. O dia começava na rua, e a rua tinha o Corso, que era o Carnaval de rua da época. A gente saía em carros abertos, em jipes, em veículos improvisados, ia devagar, vendo e sendo visto, como se a cidade fosse uma grande passarela. 

E tinha a parte mais vulgar da brincadeira, que aqui se chamava mela-mela: a farra de jogar água, molhar, rir, correr, revidar, e sentir aquela liberdade que parecia infinita. Só que eu também vi a inocência dessa tradição se desgastar: o exagero foi entrando, algumas pessoas passaram do limite, começaram a usar coisas perigosas, substâncias nocivas, e ali eu percebi que uma brincadeira pode morrer não por falta de alegria, mas porque perde o cuidado. O Corso terminou, acabou sendo abolido, e ficou na memória como uma fotografia viva de um tempo que não volta mais.

Quando a tarde ia caindo, o Carnaval começava a mudar de roupa dentro da gente. A gente se preparava para a noite, e a noite tinha o clube, tinha os bailes, tinha uma outra atmosfera. Havia noites tradicionais, com nome e peso, como o Bal Masqué, o Baile Municipal, e aquela sexta-feira que parecia acender um farol no início da maratona, quando se dizia — como se fosse um título gravado na cidade — “Sexta-feira: o Carnaval começa no Cabanga”. 

A partir daí vinham as quatro noites, e cada uma parecia ter uma energia particular, como se o tempo ficasse mais curto e mais intenso — até chegar a quarta-feira, que, na minha memória, era chamada de Quarta-feira Ingrata, como se a própria cidade confessasse, com tristeza e humor, que a festa estava terminando.

No salão, a festa tinha outro brilho. O chão e o ar eram parte do espetáculo: confete e serpentina se espalhavam por tudo, grudavam no cabelo, na roupa, ficavam no corpo como prova de presença, e o salão inteiro virava um cenário colorido, bonito, quase mágico. E a música, naquela época, tinha identidade: as marchinhas eram como pequenas histórias cantadas, engraçadas, malandras, com refrões que todo mundo sabia e cantava junto; o frevo, principalmente aqui, era mais do que música, era o próprio sotaque do Carnaval, e junto vinham o samba e a canção, cada um com seu momento, como se a festa soubesse ser euforia e soubesse também ser abraço. 

E, quando eu penso nesse espírito — nessa mistura de riso, rua e coração batendo mais solto — sempre me vem “Máscara Negra”, de Zé Kéti com Hildebrando Pereira Matos, feita para o Carnaval de 1967, e que já começa como o retrato perfeito da folia: “Quanto riso, ó! Quanta alegria!”. Essa música, para mim, é maravilhosa porque consegue dizer duas coisas ao mesmo tempo: a alegria barulhenta do salão, com “mais de mil palhaços”, e, por trás da máscara, a dor silenciosa e solitária do Pierrô — esse contraste que é tão próprio do Carnaval clássico, onde a gente dança por fora e, às vezes, sente saudade por dentro. 

E, com o tempo, eu fui percebendo também uma coisa que hoje fica impossível ignorar: algumas marchinhas que a gente cantava com alegria — e que eram sucesso absoluto, tocadas ano após ano — passaram a ser vistas por outro lado, como letras que carregavam preconceitos que naquela época “passavam” sem discussão e hoje aparecem com mais nitidez. Entram aí exemplos bem conhecidos, como “O Seu Cabelo Não Nega, Mulata”, “Olha a Cabeleira do Zezé” e “Ei, Você Aí, Me Dá Um Dinheiro Aí”. Não é que a memória do Carnaval deixe de existir por causa disso; é que a gente aprende a olhar com mais maturidade e percebe que, em certos casos, havia ali racismo, machismo, homofobia — ou, no mínimo, estereótipos que fazem graça às custas do outro.

E havia um detalhe que hoje eu sinto como uma diferença enorme: as fantasias. Era comum ver grupinhos inteiros fantasmagóricos, alguns com máscaras e lençóis, outros com fantasias de muita criatividade, outros ainda grandiosos, trabalhados, cheios de detalhe. A fantasia não era só um item comprado; muitas vezes ela nascia antes do Carnaval, no ritual de ir ao centro comprar tecido, escolher cor, imaginar a ideia, costurar, adaptar. 

Eu lembro bem disso dentro de casa: minhas primas iam para o centro, e a gente ficava esperando, quase com ansiedade, elas voltarem com os pacotes, os rolos de tecido, as fitas, o material todo que viraria fantasia. E não era preciso luxo para haver encanto: às vezes, com um simples lençol a gente conseguia fazer uma fantasia de árabe — e eu mesmo, algumas vezes, fui assim para o Carnaval, com aquele improviso que virava personagem, e com a alegria de saber que, naquele tempo, a invenção valia mais do que o preço. 

E quando chegavam os bailes de fantasia, aquilo parecia o auge: fantasias esplêndidas, com trabalho de muita mão de obra, muita elaboração, como se o salão virasse um teatro vivo e cada pessoa fosse também parte do cenário. No meio desse brilho, acontecia o que, para mim, é a essência do Carnaval: encontro. A festa era um lugar onde as pessoas se aproximavam sem precisar de explicação, onde uma conversa começava no meio do barulho, e, de repente, virava promessa. 

Muita gente conheceu ali suas futuras namoradas; tenho amigos que se encontraram em baile, começaram a namorar, noivaram, casaram, e hoje existem famílias inteiras que nasceram daquele instante em que duas pessoas se viram no meio de uma marchinha ou de um frevo e decidiram não se perder mais.

Com o tempo, eu vi mudanças que foram tirando um pouco dessa delicadeza: coisas que eram brincadeira se desvirtuaram, como o lança-perfume, que começou como travessura de salão e depois virou outra coisa, escurecida, perigosa; e a própria forma da festa foi se alterando, a fantasia artesanal sendo substituída por “uniforme”, os abadás, e a folia popular virando, muitas vezes, festa com ingresso, corda, camarote, acesso comprado — mais comercial, mais padronizada.

E tem também uma lembrança simples e deliciosa, dessas que só quem viveu reconhece: a saída do clube já de manhã. Depois de uma noite inteira dançando, conversando, bebendo, a gente saía com aquela fome de quem gastou a noite toda. E ali, na frente do clube, sempre tinha o cachorro-quente salvador — tão famoso quanto suspeito — que era vulgarmente chamado de “comeu-morreu”. E a gente comia do mesmo jeito, rindo do nome, como se aquilo fosse parte do ritual de encerrar a madrugada: o último tempero do baile antes de chegar em casa.

E ainda havia — e há — o Carnaval dos desfiles. No Rio de Janeiro, os desfiles das escolas de samba ganharam fama mundial, com as baterias, os enredos e as grandes alegorias que o mundo inteiro reconhece. E aqui também existe esse momento forte: há desfiles e agremiações com história, que mantêm acesa a tradição do cortejo e do desfile, como a Pitombeira dos Quatro Cantos, em Olinda, e também escolas e grupos do samba, como a Gigantes do Samba, que desfilam e dão ao Carnaval daqui esse lado de espetáculo organizado, com sua própria identidade, provando que a nossa festa não se resume a um formato só — ela tem rua, tem clube, tem fantasia, tem bloco e tem desfile. 

E quando termina o Carnaval, quando a quarta-feira chega e a tal Quarta-feira Ingrata pesa no peito dos grandes foliões, duas coisas costumam aliviar aquela tristeza — principalmente para as pessoas que são inimigas do fim. Uma é que ainda existe quem não entregue a festa tão fácil: tem a tradição do Bacalhau do Batata, e há gente que vai brincar também na Quarta-Feira de Cinzas, como se dissesse que a alegria pode até diminuir, mas não precisa se apagar de uma vez. A outra é uma esperança mais adiante no tempo: depois de algum descanso, alguém lembra que no meio da Quaresma ainda vem a Micarema, e só essa lembrança já muda o humor do coração, porque o folião vive disso — de saber que a festa sempre dá um jeito de voltar.

E, no meu caso, particularmente, ainda tem uma memória que fecha esse ciclo com uma pontinha de realidade: houve anos em que eu morava fora, como no Rio de Janeiro, e vinha passar as férias aqui; terminava o Carnaval e eu já voltava logo em seguida, para recomeçar o ano, retomar os estudos, como quem guardava a fantasia no armário e, ao mesmo tempo, guardava por dentro a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, o Carnaval voltaria a me chamar de novo. E tinha também uma cena engraçada, dessas que a gente leva para sempre: eu ficava na casa da minha avó, onde meu irmão mais velho morava, e muitas vezes eu chegava dos clubes já de manhã, morto de cansado. 

Aí ele fazia a “brincadeira” dele: jogava água pela janela para me acordar e ainda gritava, rindo, “Aí vem o inimigo da água!”. Eu, meio dormindo, ainda levava alguns segundos para raciocinar… e, quando a ficha caía, eu pensava: inimigo da água é coisa séria — o inimigo da água, normalmente, é o fogo. Aí eu já saía correndo para abrir a porta, porque, quando eu abria, ele disparava pela casa, fugindo, vitorioso, como se tivesse acabado de ganhar mais um desfile particular — o dele, dentro da nossa própria história. E é assim que eu gosto de lembrar: o Carnaval como uma festa enorme, sim, mas também como um álbum de cenas pequenas, pessoais, engraçadas e inesquecíveis — daquelas que ficam com a gente muito depois de a música parar.


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