Cavaleiro andante. Em homenagem a Vital Farias
Eu tive a grata satisfação de ter sido discípulo de uma geração esteticamente rica e profunda, em se tratando da música nordestina brasileira. Era final da década de mil novecentos e setenta e começo da década de mil novecentos e oitenta. Esse tempo não volta mais. Naquele instante, quatro menestréis, quatro cavaleiros, quatro cantadores se encontravam para rodar o Brasil, expandindo a largura poética de um povo sofrido que, antes e depois de tudo, continuava sendo muito forte. Somos sertanejos - poetas - cantadores, resistindo à invasão fútil de gêneros musicais que avassaladoramente vêm esmagando a identidade cultural do nosso sertão a cada década que se passa. Esses cavaleiros chamavam-se: Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai.
“Sou um caboclo sonhador, meu senhor, viu; não queira mudar meu verso.” Esse fragmento musical é de uma música minha, onde faço questão de dizer que tenho orgulho de ser nordestinamente brasileiro e um árduo defensor da poesia popular. Costumo, em minhas apresentações mais intimistas, declamar um trecho de um poema de um poeta chamado François Silvestre, que diz assim:
“Só é cantador quem traz no peito
o cheiro e a cor de sua terra.
A marca de sangue dos seus mortos
e a certeza de luta dos seus vivos.”
Pois bem, perdemos há poucos dias um dos maiores representantes da música essencialmente sertaneja; sertaneja no mais sublime sentido da palavra sertão. Vital Farias, um paraibano que saiu lá dos rincões áridos e “ariãnicos”, mais precisamente da cidade de Taperoá, e se embrenhou pelas veredas dos grandes sertões “guimarãnicos”, saiu abrindo cancelas, desbravando os quatro cantos deste país, levando apenas uma viola embaixo do braço e uma ruma de canções dentro do peito, gritando e pedindo clemência para que salvassem a Amazônia dos dragões de ferro, da impunidade e da tirania que oprime, desfigura e mata o que temos de mais valioso: nossa identidade cultural.
Viva Vital Farias. Salve a música popular nordestina brasileira.
Maciel Melo.
Poeta, cantador e compositor brasileiro.
