Cobrar tal prioridade dos nossos 594 congressistas é realmente um exagero?
A educação de qualidade transcende a sala de aula; ela é a engrenagem fundamental que impulsiona o progresso social e econômico de um país. Diante das demandas do mundo globalizado, formar cidadãos preparados exige ir além do básico. Nações que cultivam a equidade, o pensamento crítico e a inovação consolidam-se, naturalmente, como protagonistas no cenário educacional global.
Após a Segunda Guerra Mundial, o Japão direcionou seus esforços do militarismo para a educação. Esse investimento, somado a uma forte cultura de trabalho, eficiência industrial e foco em inovação, resultou no "milagre econômico" do país. Esse modelo estratégico consolidou o Japão e a Alemanha entre as maiores potências econômicas globais. O baixo investimento brasileiro per capita na educação básica — que não chega a um terço do valor aplicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) — compromete a competitividade do país e o desenvolvimento sustentável. Na contramão dessa realidade, a experiência da Coreia do Sul demonstrou que tratar o ensino como infraestrutura básica foi o verdadeiro motor para erradicar a pobreza a partir da década de 60 e construir a riqueza atual.
A educação básica no Brasil é limitada por entraves estruturais e sistêmicos, como a infraestrutura escolar precária, currículos extensos e superficiais, descontinuidade de políticas públicas, evasão escolar e desvalorização do magistério. Esse panorama é tensionado pelos resultados da Prova Nacional Docente (PND), que expõem lacunas na formação dos educadores, evidenciadas pelo baixo desempenho em matemática. Atualmente, a carga horária discente nas escolas públicas limita-se a um único turno, resultando em uma abordagem superficial de um currículo saturado de disciplinas. O contraturno é frequentemente ocupado por interações em redes sociais, atividades de baixo teor produtivo, ociosidade, inserção precoce no mercado de trabalho ou cursos complementares esporádicos. Paralelamente, observa-se uma degradação sem precedentes na relação entre alunos e professores, configurada por manifestações generalizadas de indisciplina e desrespeito.
Diferente da realidade de outros países, a carreira docente na Coreia do Sul é altamente prestigiada, bem remunerada e atrai os melhores talentos nacionais. Graças a isso, os estudantes desenvolvem grande capacidade de concentração e hábitos rigorosos de estudo, dedicando até 14 horas diárias às atividades escolares. O sistema educacional prioriza as áreas de ciências, matemática e tecnologia, e o governo investe de forma equilibrada para manter o padrão de qualidade entre as instituições. Ao garantir que o esforço individual seja o principal fator de sucesso, o modelo sul-coreano faz com que seus alunos liderem consistentemente os rankings internacionais de avaliação.
A avaliação mais recente com resultados consolidados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) ocorreu em 2022. A medição ocorre por meio de um teste computadorizado de duas horas de duração nas competências de leitura, matemática e ciências. Neste exame, o Brasil ocupa posições próximas ao terço inferior do ranking entre 81 países analisados.
Nascido nos anos 1940 e desgastado por crises nas décadas seguintes, o ideal do "Brasil, país do futuro" naufragou na falta de investimentos estruturais. O caminho para retomar esse futuro existe e passa pelos R$ 67,36 bilhões hoje destinados a fundos eleitorais, partidários e emendas parlamentares em 2026. Com esse dinheiro, seria possível universalizar o tempo integral, zerar a fila das creches e levar água, luz e quadras esportivas a todas as escolas. Mais do que isso, daria para pagar o piso dos professores e conectar a rede pública à era da inteligência artificial. Cobrar essa decisão dos nossos 594 parlamentares não é pedir muito; é exigir o básico.
*Gauss M. Cordeiro, professor emérito da UFPE e membro titular das Academias Brasileira e Pernambucana de Ciências
