[Conversa com o leitor] Qual o plano, presidente?

A intervenção no Rio surpreendeu, mas, se analisarmos os fatos recentes, veremos que o governo vinha preparando a opinião pública para isto.

"Os senhores sabem que o crime organizado quase tomou conta do Estado do Rio de Janeiro. É uma metástase que se espalha pelo País e ameaça a tranquilidade do nosso povo", disse Temer no pronunciamento que fez após assinar o decreto para a intervenção militar no Rio de Janeiro, nessa sexta, dia 16. A ação surpreendeu, mas, se analisarmos os fatos recentes, veremos que o governo vinha preparando a opinião pública para isto.

Em 31 de janeiro, no evento "O futuro começa hoje", no Rio de Janeiro, o ministro da Defesa Raul Jungamann declarou que “o sistema de segurança do Brasil está falido". E algumas das razões para isso seriam "nacionalização" e a "transnacionalização" do crime. E foi além. Jungmann ilustrou sua opinião citando o caso do traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem, que está apreso em Rondônia: "Nem está a 5 mil quilômetros do Rio de Janeiro. Mesmo assim, declara uma guerra na Rocinha (em 2017), o que leva as Forças Armadas a serem convocadas. O sistema também faliu porque o Governo Federal não tem mandato sobre a situação dos estados, apenas em situações extraordinárias, que não deveriam acontecer", disse ele na ocasião, e isso repercutiu nos jornais e sites de todo o País.

E o que estaria realmente motivando o presidente? Seria apenas a desordem provocada pelo crime organizado? Ou Temer viu no caótico Rio de Janeiro o trampolim para aumentar sua popularidade? Quem sabe vislumbrou uma chance de empurrar com a barriga a votação da Reforma da Previdência diante do insucesso na obtenção dos votos necessários à sua aprovação, escapando momentaneamente da pressão do mercado.

Há, no entanto, um outro aspecto que talvez seja o mais importante: como o presidente pretende resolver o dificílimo problema do crime organizado no Rio de Janeiro e conter suas ações no País? Como cortar seus tentáculos, que hoje penetram em todos os poderes e na sociedade civil de variadas e obscuras formas? Trata-se de um grande desafio e não consegui achar informações sobre o que planeja o governo neste sentido.

 Mas vi como a notícia repercutiu lá fora. A agência Associated Press (EUA) publicou: ''A decisão é significativa em termos simbólicos e práticos, para a maior nação da América Latina, onde muitos ainda lembram da brutal ditadura militar que governou entre 1965 e 1985”.

Nasci e vivi no Rio de Janeiro até meus dez anos de idade e lembro claramente dos tiros que ecoavam em Santa Teresa, onde morávamos, sempre que a polícia agia no combate ao tráfico naquele bairro de elegantes casarões. Então, tenho minhas razões para achar que a intervenção é necessária e tardia, até porque crime organizado e narcotráfico são assuntos para a Policia Federal, ainda mais num estado falido como o carioca, onde já não se sabe quem é mocinho ou bandido. Penso que um golpe não seja a intenção de Temer, mas gostaria muito de saber qual é o plano do presidente. Porque sem plano, meu caro Temer, isso tudo não passará de uma maquiagem para favorecer o MDB nas próximas eleições.

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