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Crises não destroem marcas. A má gestão delas, sim

A recente crise envolvendo a Ypê acendeu um alerta que vai muito além do setor de produtos de limpeza. O caso mostra, com bastante clareza, que no ambiente de negócios atual uma falha operacional raramente permanece restrita ao campo técnico. Quando um problema chega ao conhecimento público, ele passa imediatamente a disputar espaço no território da confiança, da imagem corporativa e da percepção de valor da marca.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária determinou a suspensão da fabricação, comercialização, distribuição e uso de lotes específicos de produtos da marca, após inspeção que apontou descumprimentos em etapas críticas do processo produtivo. A empresa, por sua vez, afirmou publicamente que seus produtos são seguros, citou análises internas e testes independentes e informou que segue em diálogo com o órgão regulador.

Não cabe aqui antecipar conclusões sobre o mérito técnico do episódio. Esse é um papel das autoridades competentes e dos processos formais de apuração. Mas, do ponto de vista da comunicação corporativa, o caso já oferece uma lição importante: quando há ruído entre operação, governança e comunicação, a crise deixa de ser apenas um problema interno e passa a afetar diretamente a relação da marca com a sociedade.

Toda crise corporativa tem duas dimensões. A primeira é objetiva: o fato, a falha, a fiscalização, o produto, o processo, a decisão administrativa. A segunda é simbólica: aquilo que o público entende, interpreta, comenta e compartilha. É nessa segunda camada que a imagem de uma empresa é mais pressionada.

Uma marca não é feita apenas de logotipo, embalagem, campanha publicitária ou presença digital. Marca é percepção acumulada. É o conjunto de experiências, memórias e associações construídas ao longo do tempo. Quando uma crise surge, esse capital intangível é colocado à prova em tempo real.

Hoje, qualquer crise operacional pode ser rapidamente convertida em crise de imagem. A velocidade da informação impõe às empresas uma postura mais ativa, transparente e coordenada. Quando a marca demora a ocupar seu lugar na conversa pública, o vácuo de comunicação passa a ser preenchido por especulações, interpretações fora de contexto, consumidores inseguros e, muitas vezes, pela própria concorrência.

Esse é um dos pontos centrais da comunicação de crise: o silêncio também comunica. E, muitas vezes, comunica insegurança, desorganização ou distanciamento.

Em situações como essa, os prejuízos mais visíveis costumam estar na operação: revisão de processos, logística, estoque, distribuição, atendimento ao consumidor, eventual recolhimento de produtos e perdas comerciais. Mas o impacto mais profundo pode estar no ativo mais difícil de reconstruir: a confiança.

Confiança é o que faz um consumidor escolher uma marca na prateleira sem precisar racionalizar demais. É o que reduz a objeção de compra, sustenta a recorrência e cria vínculo emocional. Quando essa confiança é abalada, a empresa passa a operar em outro cenário: precisa provar aquilo que antes era presumido.

Por isso, branding não pode mais ser tratado apenas como uma frente estética ou publicitária. Branding é gestão de percepção. E, portanto, também é gestão de risco.

Uma marca forte não é aquela que nunca enfrenta problemas. É aquela que construiu capital de confiança suficiente para atravessar momentos críticos com coerência, transparência e capacidade de resposta. Empresas com alta presença no cotidiano das famílias, como ocorre com marcas de produtos essenciais, estão ainda mais expostas. 

Quando a crise entra na casa do consumidor, o impacto deixa de ser apenas racional e passa a ser também emocional.

Daí a importância de uma comunicação de crise planejada, e não improvisada. Ela precisa estar integrada à governança da empresa, com protocolos claros, porta-vozes preparados, fluxos ágeis de aprovação, monitoramento permanente da percepção pública e alinhamento entre jurídico, operação, marketing, relações institucionais e atendimento ao consumidor.

Comunicar bem em uma crise não significa transformar uma resposta técnica em peça publicitária. Também não significa assumir responsabilidades indevidas antes da conclusão dos processos. Significa informar com clareza, orientar o consumidor, demonstrar responsabilidade e dar visibilidade às providências adotadas.

A comunicação efetiva reduz a assimetria de informação. Quando a empresa explica o que aconteceu, quem é afetado, quais medidas estão sendo tomadas, como o consumidor deve agir e quais serão os próximos passos, ela diminui o espaço para desinformação. Já uma comunicação lenta, excessivamente defensiva ou pouco compreensível tende a ampliar o desgaste.

Esse aprendizado vale para grandes indústrias nacionais, mas também para empresas pernambucanas de todos os portes. Nenhuma organização está imune a falhas, questionamentos, denúncias, fiscalizações ou ruídos públicos. A diferença está na forma como cada uma se prepara, responde e aprende.

Crises não destroem marcas necessariamente. A má gestão delas, sim.

O caso Ypê mostra que imagem corporativa não é um conceito abstrato. Ela influencia vendas, relacionamento com o mercado, confiança dos consumidores, percepção institucional e valor de marca. No ambiente atual, empresas que tratam comunicação apenas como divulgação perdem capacidade de defesa. Já aquelas que entendem comunicação como inteligência estratégica conseguem prever riscos, proteger ativos intangíveis e fortalecer vínculos com seus públicos.

A pergunta que fica para as lideranças empresariais não é se uma crise pode acontecer. A pergunta é: quando ela acontecer, sua empresa estará preparada para responder com clareza, estratégia e credibilidade?

 

* Jornalista, sócia-fundadora da Foco Consultoria Estratégica e especialista em branding, gestão de crise e comunicação corporativa. 


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