Qui, 12 de Março

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opinião

Da rua da Hora a Ipanema. E de Hannah Arendt a Tom Jobim

Chegando o Carnaval. Espaço para fazer coisas. Ir ao sebo da Torre (na rua José Bonifácio, descoberta de meu neto). José Almino espantou-se:

- Tem sebo na Torre ? Fomos lá, sexta-feira de tarde. Luiz Savio escolheu um livro de Celso Furtado. Eu escolhi uma entrevista de Fellini sobre cinema. E Havana para um Infante Defunto, do cubano Cabrera Infante (para reler o que lera há quarenta anos). Na volta para casa, pego o computador para ver mensagens. Uma delas é de amigo que faz doce provocação:

- “Luiz, por que você não escreve sobre sua formação desde a infância? Influências sobre seu estilo de vida? Pessoas gostariam de ouvir.” Topei. E respondi: Terei muito prazer em atender sua sugestão.

Infância.

Minha lembrança mais remota de infância é em Boa Viagem. Numa casa que papai alugou ao advogado Torquato de Castro. Defronte ao mar. Numa época, talvez 1950, em que a rua tinha sido feita de piche pelos americanos. Durante a Segunda Guerra. Eu teria três anos. A casa tinha um muro, largo, feito de pedra. Eu possuía uma coleção de carrinhos. Que enfileirava ao longo do muro. A outra lembrança é a rua da Hora, no Espinheiro. Lembro dos oitis caídos dos oitizeiros. E de minha mãe me levando ao Instituto Recife. De dona Eulália Fonseca.
E dona Erundina.  

Dez anos depois, papai alugou outra casa, em Boa Viagem, perto da anterior. Junto a uma casa no feitio de trem para funcionários da Great Western. Éramos vizinhos de Nelson Bergamo, pai de Ana Maria, Roberto e Fernando. E, do outro lado, morava um alemão, Luiz Herzog, pai de Érica. Nunca mais a vi. Ela era mais velha que eu. Alegre. Reunia sempre um grupo de amigos e amigas para jogar volibol aos domingos.

Durante a semana, eu estudava pela manhã no Colégio Nóbrega. E, à tarde, quase inteira, batia bola na praia. Com Nego Nu. Filho de seu Afonso, que geria a barraca de coco número 11. Acontece que essa folga tinha um preço. Nota três em matemática. Papai não disse nada. Mas foi à secretaria do colégio, me matriculou no semi-internato. Eu passei a entrar na aula às sete da manhã, almoçava no Nóbrega e só saía às cinco e meia. Passei de ano. E abandonei o futebol praieiro.

As duas influências mais fortes na adolescência foram meu pai e o Nóbrega. Meu pai era um homem, médico clínico, que me impressionava pela humanidade. Tratava bem todas as pessoas. Até hoje, quando encontro colegas que o conheciam, papai é referido de modo carinhoso. Outro fator influente na minha juventude foi o Nóbrega. O ambiente moral me ajudou muito a lidar com a vida. E, lá, criei laços de amizade que permanecem até hoje. Dois amigos daquela época: José Maria Pereira Gomes (infelizmente nos deixou) e José Ricardo Lagreca, médico em Natal, filho de dr. Sales Cabral e dona Lourdes.

Ipanema.
Em 1971, resolvi fazer o mestrado na FGV em Planejamento Governamental. E decidi alugar um ap em Ipanema. À época, Ipanema era a meca da inteligência, da resistência política e do humor do Pasquim. Sair da província e conviver com o clima ipanemense foi importante para mim. Olhar outro mundo, conhecer outros hábitos, entrar em contato com pessoas de outras origens.

Lá, na rua Maria Quitéria, éramos vizinhos de Nelson Rodrigues. Eu o via todo domingo pegar carona com seu amigo, Marcelo Soares de Moura. Para irem ao Maracanã, estádio Mario Filho, irmão de Nelson. Foi onde acompanhei a Banda de Ipanema. Dois Carnavais seguidos, 1972 e 73. E admirei a alegria corajosa de Leila Diniz, musa de todos nós.

Maturidade.
Recebi três maiores influências intelectuais: a energia notável das ideias do pensador católico, Alceu de Amoroso Lima, nas páginas do Jornal do Brasil. O rigor da filósofa judia, Hannah Arendt. Suas lições sobre a ação e o fazer humano. E sobre a política, como agir conjunto. Não se faz política sozinho. E a terceira influência foi dos cronistas e poetas: os cronistas Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, semanalmente.

No caso dos cronistas, eles me ensinaram a escrever de modo leve. Exercer o ameno. Olhar o simples. Descobrir a manhã, o rio, o arrebol, as pedras seculares que levam ao mosteiro de São Bento. O estilo contemporâneo de escrever. No caso dos poetas, Drummond e Carlos Pena me mostraram a beleza em duas versões: a montanha das Gerais e o mar pernambucano. A ondulação mineira e a verticalidade pernambucana. O rural e o urbano. Terra e oceano. O mineral e a cana. Os silêncios de Minas e as vozes do Recife. Os verdes mineiros. E o azul pernambucano.

Mas, há, na minha vida, capítulo especial: a música. Não há dia em que eu não ouça música. Seja em casa ou nos canais de tv. Concertos e documentários. Barenboim tocando Beethoven. E, no carro, os pendrives com Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Desde Mojave a Dream. De Águas de março a Sabiá. E Chico Buarque de Holanda. Com Sinhá, Vitrines e Construção.     

Fiz um aprendizado gostoso nas viagens ao exterior. Aprende-se muito viajando. Não apenas a experiência de outras culturas. Mas a diversidade de costumes. Os fiordes na Noruega. E a Toscana italiana, a bordo de um Fiat, que dirigi em direção a Portofino. Um sonho. Os jardins de Monet e o monte São Michel. As estrelas e a noite de Van Gogh. O protesto de Picasso na Guernica. Esta é uma história que se entranha na gente. E nos oferta a beleza. Nos torna mais humanos.

Comecei com Fellini. E concluo com o final da entrevista dele.
Pergunta: que coisa lhe resta dizer num próximo filme?
Resposta: Não sei. Depois de tantos dobres de finados, depois de tantas quedas e ruínas, me agradaria fazer felizes aquelas pessoas, a maior parte mulheres, que depois de cada filme que faço, com um ar timidamente desiludido, e um convite esperançoso na voz, sempre me repetem: “Mas por que não faz uma bela história de amor?”.



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