Seg, 08 de Junho

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OPINIÃO

Dois Brasis, agora com inteligência artificial

Existe uma frase de Ariano Suassuna que diz: "É muito difícil você vencer a injustiça secular, que dilacera o Brasil em dois países distintos: o país dos privilegiados e o país dos despossuídos." Essa reflexão de Suassuna ganha novo contorno quando pensamos em inteligência artificial e desigualdade. Nos últimos anos, o avanço da IA generativa tem provocado transformações positivas em diversos setores da sociedade. Mas e quando apenas um recorte da população brasileira tem acesso a esses benefícios? O acesso à inteligência artificial esbarra em um problema que não é novo: o letramento digital. Essa é uma habilidade que vai além de ter conhecimento sobre como manusear dispositivos. Engloba saber ler, escrever e usar ferramentas digitais para gerenciar informações, comunicar-se e participar da sociedade da informação. 

Apesar do Brasil ser um dos países que mais tem utilizado IAs generativas, ficando acima da média global, o uso é dominado pelas classes mais ricas e com ensino superior. De acordo com a Pesquisa TIC Domicílios, divulgada no final de 2024 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 69% das pessoas que usam IA no Brasil são da classe A, caindo para 16% das classes D e E. Quando o recorte é escolaridade, o contraste também é alarmante: 59% dos usuários com ensino superior utilizam a ferramenta, em contraste com 17% daqueles com apenas o ensino fundamental. Isso significa que os benefícios do uso da inteligência artificial no mercado de trabalho pode acentuar desigualdades se as camadas menos abastadas da nossa sociedade não forem estimuladas e capacitadas para usar essas ferramentas para aprimorar ou até mudar o seu trabalho. 

Aqui é importante pontuar que transições de carreiras serão necessárias, tendo em vista que muitas profissões se tornarão obsoletas, enquanto as profissões do futuro vão surgir com o desenvolver dessas tecnologias. Mas essa transição não acontece sozinha. Exige investimento em educação, em políticas públicas de inclusão digital e, principalmente, em letramento específico para uso de IA. Não basta distribuir acesso à internet ou dispositivos. É preciso ensinar como fazer boas perguntas, como direcionar a tecnologia, como usar IA de forma ética e inteligente conforme a realidade de cada pessoa. Empresas, governos e profissionais que dominam essas ferramentas têm responsabilidade nesse processo que vai ditar quem prospera e quem fica para trás na economia do futuro. Sem capacitação, essa transformação tecnológica pode se transformar em crise social. A pergunta que fica é: vamos democratizar o uso da IA ou vamos assistir à criação de uma nova camada de desigualdade, ainda mais difícil de vencer?

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