Edgar Morin e a permanência de um mestre acadêmico
A morte de Edgar Morin, em 29 de maio de 2026, aos 104 anos, deixa uma ausência profunda no campo acadêmico. Mais do que um filósofo e sociólogo, Morin foi um intelectual que atravessou o século XX defendendo uma ideia essencial, de que a pesquisa séria não aceita explicações simples, isoladas ou fechadas. Sua vida foi marcada pela recusa das certezas fáceis e pela defesa de um saber capaz de aproximar áreas.
Vejo sua obra como decisiva para pesquisas acadêmicas nas Ciências da Religião, na Filosofia, na Educação, na Sociologia e na Antropologia. Morin criticou a visão simplificadora do conhecimento, que separa os fenômenos em partes rígidas e esquece suas relações. Essa crítica é central porque muitos objetos não cabem em uma única disciplina. A religião não pode ser entendida apenas como doutrina, instituição ou prática social. Ela envolve símbolos, experiências, afetos, ritos, memórias, conflitos, identidades, linguagem e esperança.
Nas Ciências da Religião, o pensamento complexo qualifica a investigação acadêmica. Ele permite compreender o fenômeno religioso em sua riqueza humana, histórica e cultural. Uma pesquisa sobre fé precisa considerar fontes, contextos, comunidades, narrativas e modos de vida. Morin contribui por mostrar que o ser humano é múltiplo. Somos razão e emoção, indivíduo e sociedade, natureza e cultura. Por isso estudar religião exige método para perceber que a experiência religiosa não é apenas crença, mas também narrativa, corpo, celebração, silêncio, conflito e encontro.
Na Filosofia, Morin deixa herança necessária. Ele nos convida a refletir sobre os limites da razão, sobre a incerteza e sobre a responsabilidade ética do conhecimento. Pesquisar não é apenas acumular informações ou repetir conceitos. Pesquisar é relacionar ideias, reconhecer contradições, justificar métodos, admitir dúvidas e procurar interpretações mais humanas.
Em um tempo marcado por intolerância, crises ambientais, desigualdades e excesso de certezas, Edgar Morin permanece atual. Sua defesa da complexidade não é um luxo acadêmico, mas uma necessidade para toda investigação séria. Quando os debates públicos se tornam agressivos, sua obra ensina que compreender não significa concordar, mas buscar relações que explicam acontecimentos e atitudes humanas.
Morin não ofereceu respostas prontas. Ofereceu uma atitude diante da pesquisa e do mundo. Essa atitude exige humildade intelectual, abertura ao outro e coragem para religar saberes. Sua morte não representa apenas uma perda. Representa também uma convocação. Cabe aos pesquisadores, professores e estudantes continuar sua tarefa de produzir uma ciência consciente, crítica, sensível e responsável. Edgar Morin parte, mas sua herança continua viva como inspiração para pensar a complexidade da vida, da religião, da cultura e da existência humana.
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