Endividamento elevado preocupa famílias
O Brasil atravessa um momento preocupante. O endividamento das famílias atingiu um novo recorde e se consolida como um dos maiores desafios econômicos e sociais do país. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 81,6% dos lares brasileiros possuíam algum tipo de dívida em maio deste ano. Trata-se do quinto aumento mensal consecutivo, superando os 80,9% registrados em abril e os 78,2% observados no mesmo período do ano passado.
Esse cenário não surgiu por acaso. É resultado de uma combinação de fatores que afetam diretamente o orçamento das famílias, especialmente das camadas de menor renda. Entre os lares que recebem até três salários mínimos, a inadimplência avançou para 38,6%. Já o percentual de consumidores que se declaram “muito endividados” alcançou 17%, o maior nível desde junho de 2024.
Na prática, milhões de brasileiros vivem uma realidade angustiante. A renda já não acompanha o custo de vida. Alimentação, energia, transporte, saúde e moradia consomem parcelas cada vez maiores do orçamento doméstico. Em resumo: sobram boletos, falta dinheiro para pagá-los. Para manter despesas básicas, muitas famílias recorrem ao crédito, submetendo-se a juros reconhecidamente extorsivos.
As consequências desse processo vão muito além dos números. O endividamento excessivo compromete a qualidade de vida, destrói a capacidade de poupança, adia projetos familiares, reduz investimentos em educação e habitação e gera insegurança permanente. Quando a renda passa a ser absorvida pelo pagamento de dívidas, o futuro torna-se refém das contas do presente.
Os juros elevados agravam ainda mais esse quadro. E é preciso reconhecer que eles não surgem do nada. São, em grande medida, consequência da deterioração fiscal observada nos últimos anos. Quando o governo gasta sistematicamente mais do que arrecada e demonstra pouca disposição para controlar suas despesas, aumenta a desconfiança dos agentes econômicos e dificulta a redução sustentável das taxas de juros.
O atual governo tem apostado prioritariamente no aumento da arrecadação por meio da elevação da carga tributária, ao mesmo tempo em que os gastos públicos continuam crescendo de forma descontrolada. O resultado é a persistência dos déficits fiscais e o aumento da necessidade de financiamento do governo. Quanto maior a percepção de risco fiscal, maior tende a ser a pressão pela manutenção de juros elevados.
Forma-se, assim, um círculo vicioso. O governo gasta mais, aumenta sua necessidade de financiamento, eleva a percepção de risco da economia e dificulta a queda dos juros. Os juros elevados encarecem o crédito, ampliam o endividamento das famílias e reduzem os investimentos produtivos. No final da cadeia, quem suporta o maior peso dessa engrenagem é o cidadão comum.
Essa realidade também enfraquece a narrativa segundo a qual a taxa de juros seria consequência exclusiva da atuação do então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Sua substituição por Gabriel Galípolo, indicado pelo presidente Lula, não alterou o cenário. Isso mostra que o problema é mais profundo e está relacionado aos fundamentos fiscais da economia, e não apenas aos nomes que ocupam cargos públicos.
O endividamento recorde das famílias brasileiras é um sinal de alerta que não pode ser ignorado. Nenhuma sociedade prospera quando seus cidadãos vivem permanentemente sufocados por dívidas. Nenhuma economia cresce de forma sustentável quando o consumo é financiado por crédito caro e a confiança é corroída pela incerteza fiscal.
Enquanto não houver um compromisso efetivo com a responsabilidade fiscal, o controle dos gastos públicos e a criação de um ambiente favorável ao investimento e à geração de riqueza, o país continuará empurrando milhões de famílias para uma situação cada vez mais delicada. O drama do endividamento não é apenas uma questão econômica. É uma questão humana. Por trás de cada estatística existe uma família abrindo mão de sonhos, adiando projetos e lutando diariamente para fechar as contas do mês. É por isso que enfrentar esse problema deve ser uma prioridade nacional, antes que a dívida de hoje se transforme na desesperança de amanhã.
(*) Dedico este artigo in memoriam do excelente professor e querido amigo Roberto Cavalcanti de Albuquerque, pioneiro no ensino da Macroeconomia no Brasil.
* Economista, foi secretário de Educação no governo Marco Maciel, deputado estadual, federal e senador da República.
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