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Espiritualidade, respeito e o desafio da paz

O primeiro dia de um novo ano carrega sempre um simbolismo especial. É quando desejos de renovação, promessas silenciosas e expectativas coletivas se encontram. Mas, ao iniciar 2026, é impossível ignorar que vivemos um tempo delicado, especialmente quando o assunto é a convivência religiosa no Brasil. Falar de paz mundial soa, muitas vezes, como algo distante ou abstrato. No entanto, talvez nunca tenha sido tão urgente lembrar que a paz global começa em algo simples, profundo e cotidiano: o respeito ao outro.

Nos últimos anos, o país tem assistido a uma escalada preocupante de intolerância religiosa. Em nome de crenças consideradas absolutas, grupos e movimentos têm adotado posturas cada vez mais agressivas, impondo caminhos únicos para o sagrado e para a espiritualidade. Outras religiões são deslegitimadas, práticas espirituais são ridicularizadas, símbolos são atacados e pessoas são hostilizadas simplesmente por crerem de maneira diferente.

A fé do outro passa a ser vista como ameaça, erro ou inimiga.

Esse cenário revela um deslocamento perigoso. Quando a religião se afasta da espiritualidade, ela deixa de ser espaço de acolhimento e se transforma em instrumento de poder. O sagrado, que deveria unir, passa a separar. A crença, que deveria humanizar, passa a justificar a exclusão. 

É a partir dessa inquietação que este artigo dialoga com a reflexão do líder espiritual e humanitário indiano Sri Sri Ravi Shankar, sobre espiritualidade e religião. Em seus escritos, ele insiste em uma diferença essencial; a religião, quando se fecha em verdades que acham absolutas e identidades fechadas, perde sua função essencial. Já a espiritualidade, entendida como experiência interior, ética do cuidado e abertura ao outro, derruba barreiras e cria pontes. A essência da religião, afirma ele, não está no exclusivismo, mas na compaixão, na aceitação e no reconhecimento da dignidade de todas as formas de fé.

"Quando a verdade e a beleza da nossa essência espiritual são vivenciadas como uma experiência direta, a rigidez conceitual da religião se dissolve, abrindo espaço para o verdadeiro florescimento da consciência humana e para a evolução de uma sociedade progressista", afirma Shankar. 

Essa perspectiva ajuda a explicar um ponto central do nosso tempo. Não é a diversidade religiosa que gera conflito, mas a incapacidade de conviver com ela. O problema não está nas variedades de caminhos espirituais, mas na intenção de que apenas um deles seja legítimo. Quando uma pessoa acha que apenas a sua maneira de viver a fé ou ter acesso ao sagrado é válida, a intolerância cresce e pode se transformar em agressão.

O Brasil sempre foi marcado por uma religiosidade plural. Tradições indígenas, cristãs, africanas, orientais e espiritualidades contemporâneas convivem, se cruzam e se transformam. Negar essa pluralidade é negar a própria história do país. Mais do que isso, é negar a humanidade do outro. Não há paz possível quando a fé é usada para humilhar, silenciar ou apagar existências.

Por isso, neste primeiro dia de 2026, talvez o gesto mais revolucionário não seja fazer grandes discursos sobre paz mundial, mas praticar o movimento de pacificação de forma concreta. Ser compassivo. Exercitar a empatia. Reconhecer que o outro, em sua crença, em sua linguagem espiritual, em sua forma de se relacionar com o divino, não é um adversário, é um irmão.

Oxalá que possamos, todos, olhar o outro como um irmão de verdade; que possamos nos cobrar e nos exigir uma maturidade espiritual. Isso significa enxergar o que segue outra crença (ou aqueles que não acreditam em nada) não como alguém a ser convertido, corrigido ou derrotado, mas como parte da mesma força de criação e manutenção do mundo. Essa força, que muitos chamam de Deus, outros de sagrado, energia, mistério ou simplesmente vida, não cabe em fronteiras religiosas estreitas. Ela se manifesta na diversidade.

Acreditem. A paz que tanto desejamos não virá de imposições, nem de disputas teológicas, muito menos da negação da fé alheia. Ela nasce quando somos capazes de sustentar diferenças sem transformar em muros. Quando entendemos que espiritualidade não é gritar verdades, mas viver valores. Quando a religião deixa de ser arma e volta a ser caminho, opção.

Que 2026 comece com menos certezas absolutas, menos egoísmo e mais escuta. Com menos condenação e mais cuidado. Que sejamos todos, de fato, instrumentos de paz, não apenas no discurso. Mas na forma como tratamos o outro, respeitando sua fé e sua espiritualidade.


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