Ter, 21 de Abril

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OPINIÃO

Evoé! Carnaval no Espinheiro 

Última década do século XX. Influenciados pela irreverência que marcou o século que estava terminando, tínhamos que aproveitar certos detalhes da vida, ademais com a proximidade do suspeitoso século XXI.   

No início da manhã do sábado pré-carnavalesco do ano de 1993, na cidade do Recife, o histórico e tradicional bairro do Espinheiro, ainda com muitos casarões preservados de famílias e moradores de priscas eras, foi despertado pelo som de cornetas que saudavam a chegada do reinado de Momo no lugar… Os sonolentos vizinhos sabiam lá o que era isso, numa hora dessas? Claro que não.     

Ninguém imaginava o que iria acontecer nesse dia: o primeiro grito de Carnaval do Espinheiro (que se tem notícia), no bar do antigo Armazém Centenário, comandado pelo herdeiro Paulo Costa e sua esposa Thaísa (in memoriam). 

Localizado no centro do bairro, o memorável estabelecimento situa-se (agora com outro nome) na esquina sul do cruzamento das ruas Conselheiro Portela e Barão de Itamaracá, com frente em diagonal para a Igreja Matriz do Espinheiro, da Paróquia do SS. Coração Eucarístico de Jesus. Baseado nos títulos dessas duas ruas, bem como no da unidade religiosa, é possível entender a razão do zelo que os habitantes desse bendito lugar têm pelo seu refúgio, que faz fronteira com os bairros das Graças, dos Aflitos, do Rosarinho, da Encruzilhada e da Boa Vista.    

Nesse estágio, morador da pequena Rua Amapá, onde viveram o saudoso jornalista, radialista, escritor, compositor e boêmio Antonio Maria (Ô ô ô saudade / saudade tão grande / saudade que sinto do Clube das Pás, do Vassouras…), e o amigo, médico, compositor e cantor Fernando Azevedo (Acorda Recife, Acorda / que já é hora de estar de pé / levanta, o Carnaval começou / no bairro de São José…), comumente eu passava defronte do Armazém Centenário, nos necessários movimentos urbanos. Não dava para esquecer.   

Então, para o sucesso do evento, foi contratada uma orquestra com cinco músicos criteriosamente selecionados, para tocar: um surdo de marcação, uma caixa de tarol, um saxofone (o maestro), uma corneta curta e um trompete. 

E assim, no local exato, após a explosão dos fogos de aviso, às 11 horas em ponto, sob a proteção divina de Baco, iniciou-se a célebre primeira festa de Carnaval do Espinheiro, no espaço interior do bar do Armazém Centenário. 
Tinindo, a orquestra inicia o show com o belíssimo frevo de rua Último Dia (Levino Ferreira), e a batida seguiu com os frevos Cabelo de Fogo (Nunes); Duas Épocas (Edson Rodrigues); Voltei Recife (Luiz Bandeira); Freio a Óleo (José Menezes); Mexe com Tudo (Levino Ferreira); Oh!  Bela (Capiba); Três da Tarde (Lídio Macacão); Duda no Frevo (Senô); Lágrimas de Folião (Levino Ferreira); Diabo Louro (J. Michiles); Nino o Pernambuquinho (Duda); Vassourinhas (Matias da Rocha); Gostosão (Nelson Ferreira)… 

À medida que a festança avançava, com o frevo fervendo cada vez mais, novos foliões se somavam ao ambiente festivo que incorporou as calçadas. Eram passantes da rua que davam uma paradinha para olhar o que estava acontecendo e resolviam ficar, como um futuro amigo nosso que disse: “eu estava indo à casa da minha sogra, mas mudei de ideia ao aqui chegar e após tomar uma lapada fiquei de vez, o frevo é ”bom demais” (Viva J. Michiles!). 

Ocorre que os foliões nem se aperceberam da missa da Matriz, no final da tarde, e, para surpresa geral, no auge da frevança, não é que aparece no meio do bar o padre Arnaldo, o vigário da paróquia (há décadas), exigindo a “imediata suspensão da vilipendiosa brincadeira”… todavia, sem chegar a um acordo com o colegiado brincante, que invocou a Lei Orgânica do Município por meio de um confrade criminalista, ela seguiu em frente… Quixotescamente, ”tudo era paz, amizade e felicidade”. 

Pois é, minha gente, foi uma festa e tanto, com a naturalidade e a contagiante alegria momesca, como originariamente sugere, sem as amarras e as artificialidades daquelas enlatadas.   
Nunca seria um encontro perfeito, sabíamos disso, de modo que, no pós-carnaval, vieram as consequências deste estranho episódio que ocorreu no arborizado e monástico bairro. Uma enxurrada de reclamações e broncas pesadas devido a uns “baderneiros” que tiraram o sossego do lugar. 

Mesmo com os injustos contratempos, a festa foi aprovada e se repetiu no ano seguinte, já com a participação das famílias de foliões. Uma boa providência foi a fundação do Bloco do Centenário, para a eterna alegria do velho Espinheiro, no mês de fevereiro. É importante ressaltar que este fato teve efeitos multiplicadores para o Carnaval de toda a região espinheirense e além-fronteiras.

Para finalizar, vamos recorrer ao frevo de bloco lírico Saudosos Foliões, de autoria do excepcional compositor Edgar Moraes, que diz: “Embora eu sofra as ilusões / não posso esquecer jamais / os saudosos foliões / que ficaram na história dos nossos carnavais…” No caso do Espinheiro, foram cúmplices desta aventura carnavalesca: 

1 - No pioneiro grito de Carnaval: Paulo Costa, Toni Almeida, Gilberto Marques, Sílvio Hansen, Jorge Belfort, Nelson Bergamo, este escriba que vos fala, Paulo Belfort, Jaime da Galinha (Jaime do Brito Bastos de Souza Leão), Armando Lobo, Albino Dantas, Raul Lins, João Carlos Rocha, Rui Medeiros, Olímpio Arruda (Bayeux), Osório Arruda, Marcos Belfort, Jaime Nuno, Gustavo Adolfo, Evaldo Duarte, Roderick Jordão, Carlos Alberto de Carvalho (Bel) e Lula Cineasta.   

2 - Nas festas subsequentes, aderiram os habitués: Edmir Regis, Dilson do Prado Cavalcanti, Severino Tavares, Flávio Cury, Valdir Barbosa, Ricardo Moraes, Paulo Fázio, Estevão Dantas Seve, Roberto Nogueira, Rogério Santa Clara, Ítalo Rocha, Antonio Carlos Figueira, Romero Caldas, Ildefonso Fonseca e Zelito Nunes, entre outros.

    “…Agora é só recordações / de tudo que o tempo levou / as minhas inspirações / traduzem bem o quanto sofre um Pierrô.” 


* Administrador de empresas (UFPE) e cervantista. Autor do livro “Sonho Impossível - O Recife e Cervantes” (2024) ([email protected])

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