O Carnaval bonito que resiste, no Recife Antigo
O Carnaval é uma ancestralidade viva que não se limita a uma simples manifestação popular. Em verdade, cumulativamente, ele carrega história, cultura, alegria, estética, musicalidade, comicidade e a criação de personagens tiradas da realidade.
Com o passar do tempo, a cidade do Recife tornou-se um excepcional palco ao ar livre para o Carnaval, com características próprias, tendo o seu centenário Frevo, aqui nascido, eclético e contagiante ritmo musical, como base e referência, ao lado da cidade-irmã, Olinda.
Entre o final dos anos de 1990 e o início do século XXI, com a revitalização do portuário Bairro do Recife, berço colonial, os clubes de Blocos Líricos encontraram nele o espaço ideal para fazerem uma festa adequada, capaz de exaltar as belezas que possuem. Deu certo. Na época, acompanhamos essa transformação com a presença da turma do Bairro do Espinheiro, admiradora da Festa de Momo e da modalidade carnavalesca.
Com o protagonismo dos Blocos Líricos, a Ilha do Recife Antigo cultiva o carnaval dos sonhos, autêntico, dos belos blocos e das belas canções, das fantasias, das brincadeiras e das amizades. É o que vemos hoje, em conjunto com outras modalidades carnavalescas tradicionais, em harmonia com as suas ruas históricas que, como escreveu Cervantes em uma novela, [...] ”só com os nomes cobram autoridade sobre todos os nomes das de outras cidades do mundo”: a do Apolo, a da Moeda, a do Bom Jesus, a da Alfândega, a da Guia, a do Brum, a Madre de Deus e a do Moinho. Ao falar delas, não podemos deixar de citar as acessórias praças: a do Arsenal, a do Marco Zero, a Tiradentes e a da Comunidade Luso-Brasileira; pontos vitais das valiosas vias, reminiscências da grandeza da Cidade Lendária.
Este carnaval de 2026 tem algo de especial, por ser o primeiro do segundo quarto (2/4) do Século XXI. Tal celebração crescerá em alegria, e o momento do país é bom, e nos faz pensar no futuro, em estarmos preparados para outros carnavais, “que assim seja”... E nesse momento, há dois fatos relevantes associados que intensificarão a aguardada festa de Baco.
O primeiro é a comemoração do aniversário de 80 anos de Alceu Valença, já em linha, prestes a acontecer (1º de julho). O músico, compositor e cantor Alceu Valença foi, pelo desempenho individual, o principal impulsionador do Carnaval no Recife Antigo. Há vários anos, o autor de Anunciação realiza, na costeira estação do Marco Zero, com o apoio de primorosa equipe musical e artística, a apoteose do Carnaval, no último dia da festa, subliminarmente na passagem para a quarta-feira de cinzas, com um magnífico espetáculo ao vivo, em parceria com uma multidão de pessoas que não arredam o pé da folia em todos os instantes da madrugada... são frevos magistrais, num estilo pessoal frenético, em cujo repertório também não faltam o maracatu, o caboclinho e o Hino de Pernambuco.
O segundo fato é o filme O Agente Secreto, do cineasta recifense Kleber Mendonça Filho, lançado com sucesso em meados de 2025. A repercussão da qualidade da película foi reconhecida com a conquista de diversos prêmios em festivais internacionais, em diversas categorias, e ratificada com a indicação à láurea mais significativa, o Oscar, em quatro categorias (Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco (Escalação). O resultado final do Oscar será conhecido no dia 15 de março, no evento oficial em Los Angeles, nos Estados Unidos.
Mas o que queremos destacar é a febre em torno do O Agente Secreto, nesse período momesco, em razão de ele ter sido filmado, ambientado, na cidade do Recife, remetendo ao ano de 1972, com cenas nas regiões centrais e históricas, algumas delas em lugares onde o
nosso carnaval acontece. Uma cena icônica é a de uma orquestra arrastando um bloco com o Frevo de Rua Cabelo de Fogo, do Maestro Nunes, com foliões e folionas dançando. Em outra cena, o ator protagonista, Wagner Moura, o “Marcelo” / “Armando”, aparece com uma camiseta amarela do Bloco Pitombeira dos Quatro Cantos, de Olinda. Como consequência disso, o que estamos vendo no cotidiano recifense, aos milhares, é o uso disseminado da camiseta da Pitombeira e a formação de irreverentes quadros cômicos com personagens do filme em ação; situações que indicam serem as mais marcantes no meio desse carnaval, sátiras não vão faltar.
Agora é cair na folia, iniciando com bons Frevos de Rua: Último Dia (Levino Ferreira). Lágrimas de Folião (Levino Ferreira). Mordido (Alcides Leão). Duas Épocas (Edson Rodrigues). Vassourinhas (Matias da Rocha e Joana Batista Ramos). Cabelo de Fogo (Maestro Nunes). Freio a Óleo (José Menezes). Nino, o pernambuquinho (Maestro Duda). Gostosão (Nelson Ferreira)...
E deliciar-se com os Frevos de Blocos Líricos:
- Batutas de São José… Deixe o frevo rolar / Que eu só quero saber / Se você vai ficar / Ai, meu bem, sem você / Ah não há carnaval / Vamos cair no passo / E a vida gozar. (João Santiago).
- Serpentina Partida… Você, vestida de alegria / E eu da tristeza no salão / Mas ainda vai chegar um dia / Em que vou reinar no seu cordão. (Maximiano Campos - Arthur Lima Cavalcanti).
- Flabelo das Ilusões… Vê! O meu Recife se enfeitou demais / Olha! Até o rio parou de correr / Só pra ver meu bloco de recordações / Com um flabelo feito de ilusões / Me levando de volta pra você. (Heleno Ramalho).
- Recife Manhã de Sol… Vejo o Recife prateado / À luz da lua que surgiu / Há um poema aos namorados / No
céu e nas águas dos rios. (J. Michiles).
- Panorama de Folião… Vem, meu bem / Alegria que o frevo contém / É a do meu coração / Vem pegar no meu braço / Vamos cair no passo sem alteração. (Luiz de França).
- Último Regresso… É lindo ver o dia amanhecer / Ouvir ao longe pastorinhas mil / Dizendo bem, que o Recife tem / O carnaval melhor do meu Brasil. (Getúlio Cavalcanti).
Evoé!
* Administrador de empresas (UFPE), da Asociación de Cervantistas (ES), da Asociación Internacional de Lectores y Coleccionistas de Don Quijote (MX), autor do livro "Sonho Impossível - O Recife e Cervantes"[email protected]
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