Seg, 09 de Março

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O caso do cachorro Orelha: uma análise crítica da impunidade e da proteção animal no Brasil

O caso do cachorro Orelha exemplifica um episódio de crueldade animal que transcende o ato isolado, revelando falhas estruturais no sistema judicial brasileiro e na nossa sociedade como um todo. 

Orelha, um cão cuidado por moradores locais, teria sido agredido por um grupo de adolescentes ricos, resultando em ferimentos graves que incluíam inchaço craniano, olho saltado e hemorragias, resultando em eutanásia.
O caso gerou comoção internacional, com repercussão em mídias do mundo todo e destaca a vulnerabilidade dos animais de rua e a efetividade da Lei 14.064/2020, que endureceu penas para maus-tratos a cães e gatos.

Uma crítica fulcral ao caso reside no acesso privilegiado ao sistema judicial pelas classes mais ricas e influentes do país. Os adolescentes envolvidos, filhos de famílias com alto poder econômico, demonstraram capacidade de retardar as investigações ao viajarem para os Estados Unidos, o que pode ser interpretado como uma estratégia de fuga para dilatar o processo. 

Essa mobilidade internacional reflete uma assimetria social: enquanto cidadãos de baixa renda enfrentam restrições imediatas, os privilegiados utilizam recursos financeiros para postergar responsabilização. O resultado disso é a subdivisão da cidadania em “castas”, onde uns a exercem de forma efetiva e outros apenas migalhas de direitos.

Nessa divisão também devem ser colocados os animais. Não está público, mas seguramente os lares desses adolescentes devem ter pets, cuidados e alimentados com luxo, ao contrário de Orelha, tratado de forma vil e desumana por eles. Ainda quanto ao fosso social, temos que a ação tardia da alegação de suspeição da juíza, ato lastrado pela lei, deixa frágil a questão moral aqui levantada. 

A impunidade que cerca casos envolvendo pessoas ricas e seus filhos é um sintoma de desigualdades sistêmicas, onde o capital social e econômico mitiga consequências legais. Em uma era de redes sociais, onde likes e visibilidade superam relações éticas, jovens como os envolvidos no ataque a Orelha podem internalizar narcisismo e desumanização, onde esses jovens se afastam de princípios morais por se acharem inatingíveis, e imaginam que estão isentos de padrões de conduta e responsabilização. 

A educação básica deve enfatizar temas como bioética e direitos dos animais nos currículos. Sem essa reorientação, incidentes como o de Orelha persistirão, erodindo o tecido social e moral da nação, e perpetuando uma cultura de indiferença à dor alheia. Clicks e likes, para esse grupo que se acha de uma casta superior, valem mais que uma vida, e lembremos: toda vida importa.
 


* Procurador Jurídico do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de Pernambuco CRMV/PE.
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