Qua, 10 de Junho

Logo Folha de Pernambuco
opinião

O que está em jogo?

Eleger o próximo presidente da República. Mas não apenas isto. E não seria pouco. Há toda uma história por trás. Toda uma experiência política, vívida e vivida. E todo um conjunto de valores sociais por cima. Como manta.  

O que está por trás na época mais próxima? O 8 de janeiro de 2022. Quando um gripo de insufladores tentou aplicar um golpe de Estado. Frustro. Por falta de apoio militar. E por ausência de suporte popular. Ou seja, o que está em jogo é o risco de expor a democracia brasileira. À senda de sediciosos. Haja consciência de que é preciso cuidar do jardim. Senão as rosas desaparecem.

O que esteve por trás em tempo um pouco além? Em 1930. Naquele ano, um determinado tipo de Brasil, antigo formato social e político, foi encerrado. Enterrado. E nasceu outro Brasil. Foi extinto o Brasil oligárquico. Dos coronéis de veredas e sertões. Do baronato de café de São Paulo. E da oligarquia leiteira das Minas Gerais.

Então, o poder da República era exercido por um reduzido grupo de políticos. De dois estados da Federação. No revezamento, dois por dois, de paulistas e mineiros. Coronelistas. Oligarquicamente. No esconso usufruto de exclusiva política do café com leite. Até que gaúchos, paraibanos, tenentes, parlamentares, jornalistas, a nascente sociedade urbana nacional do século XX, deu um basta. E começou a se constituir um novo Brasil. Um novo país. Moderno. Desoligarquizado. Com muito esforço. Deu-se a partida.

Getúlio Vargas, presidente de 1930 a 1945, fundou o Brasil moderno. Criou ministérios, o da Educação, instituiu empresas, a Petrobras. Aperfeiçoou a legislação eleitoral, gestão do ex ministro da Justiça, Agamenon Magalhães. Que também aprovou a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT. A partir de então, o Estado brasileiro começou a equipar-se com instituições apropriadas ao desenvolvimento. Como certificaram Daron Acemoglu e James Robinson, no livro Porque as Nações Falham. Por sua vez, a sociedade brasileira foi amadurecendo no exercício cotidianos da cidadania. Que se quer livre. Sob o império da lei. Democraticamente.

Pois bem. O Brasil de hoje é o país que recebemos de nossos antecedentes. Que zelaram a nação. Que cuidaram da liberdade. Agora, é nossa vez. Nosso encargo. Vamos voltar à oligarquia ? Oligarquia é governo de poucos (conforme Norberto Bobbio, Dicionário de Política, Editora UNB, 1993). Pode ser uma facção partidária, um segmento produtivo. Ou uma família. É o que ocorre atualmente com a direita brasileira. A direita brasileira foi ocupada. Interditada. Por um movimento familiar. Que não defende uma doutrina liberal. Não apresenta um discurso substantivo sobre o mercado. Não formula um pensamento político. 

Na prática, tal movimento se preocupa em preservar os interesses nepotistas de grupo familiar e amigos. A ponto de um dos filhos do chefe do clã ir aos Estados Unidos apoiar o tarifaço de Trump. Opondo-se à política comercial brasileira, seu próprio país.

Vamos voltar à oligarquia de noventa anos atrás ? Vamos retroceder politicamente a um modelo antimoderno, superado ? Onde estão os Juscelinos e os Tancredos do século XXI ? As lideranças de direita, que pensam e atuam na política, se curvam ao familismo oligárquico. Porque este detém o apoio de 20% a 25% do eleitorado. Falta um projeto político de direita, competente, aglutinador. E conectado com as raízes democráticas do liberalismo.

É isto que está em jogo. O nepotismo oligárquico. Opção entre sucessão hereditária ou sistema moderno. Escolha entre oligarquia familiar ou institucionalidade democrática. A hora é de valores sedimentados no sol aberto a todos. E não em obra esquiva, menor, de cochicho familiar.             


___
Os artigos publicados nesta seção não refletem necessariamente a opinião do jornal. Os textos para este espaço devem ser enviados para o e-mail [email protected] e passam por uma curadoria antes da aprovação para publicação. 

Veja também

Newsletter