O silêncio das Escadas
Sonhos são considerados o enigma da vida, alguns possuem significados, mensagens e as vezes até premonições. Apesar disso, sonhar com pessoas que
não existem mais nesse plano já se tornaram uma situação recorrente para indivíduos como eu.
Sendo assim, não foi estranho sonhar com o lamento de uma noiva. Acreditei que eram apenas sonhos. Até começar a trabalhar ali...
O prédio da empresa em que trabalhava era antigo, com quatro andares, janelas grandes e paredes espessas. Estava situado no centro mais bonito e turístico da
cidade, entre bares modernos, museus e casarões abandonados. Durante o dia, o som dos carros, turistas e trabalhadores abafava qualquer lembrança do passado.
Contudo, era durante a noite, quando o último computador se apagava e restava apenas a luz do setor acesa, que o silêncio se tornava quase inumano.
Foi em uma dessas noites, quando precisei ficar até tarde para concluir um relatório urgente, que ouvi passos nas escadas. Não era o som apressado e pesado de alguém se organizando para ir embora, nem o arrastar preguiçoso de quem ainda está trabalhando. Eram passos lentos, compassados, como os de alguém que já conhecia o caminho há muito tempo e que não tinham pressa de sair daquele lugar.
Olhei para o corredor: estava vazio, mas o ar parecia diferente, mais denso e estático. Apesar disso, voltei a digitar, tentando ignorar a sensação de que não
estava sozinha, a sensação de estar sendo observada. No entanto, medrosa como sou, não consegui e logo desci para ficar no térreo com as pessoas que se
encontravam ali.
No dia seguinte, comentei por curiosidade na copa. — Vocês já ficaram aqui depois das seis? — perguntei, com uma risada sem graça. A recepcionista, dona Irene, desviou o olhar. — Ah, menina... Você também ouviu coisas? — disse, abaixando a voz. — Dizem que esse prédio já foi um bordel, muito antes de virar escritório. Uma moça foi prometida em casamento por um marinheiro, mas ele nunca voltou para buscá-la. Dizem que ela ainda desce as escadas à noite, com o vestido branco, esperando que ele volte para cumprir a promessa de um casamento já esquecido.
Rimos, mas ninguém pareceu achar graça. No entanto, não conseguia deixar de pensar na presença que senti na noite anterior.
Nas semanas seguintes, comecei a reparar em pequenos detalhes: o leve perfume de jasmim que impregnava o ar perto do elevador e na batida das janelas nos dias chuvosos.
No início, eu atribuía tudo ao vento, afinal era um prédio antigo. Depois, ao cansaço de um sono mal dormido. Mas, quanto mais eu tentava explicar, mais o inexplicável se tornava familiar.
Certa noite, decidi ficar até tarde novamente, simplesmente porque queria entender, ou provar a mim mesma que não havia nada para compreender, e foi no meio do relatório quando ouvi o barulho suave de tecido sendo arrastado. Olhei para o reflexo e a vi: uma mulher de cabelos escuros, olhando fixamente para mim, como quem pede silêncio.
Um arrepio correu pelo meu corpo neste momento, e lembrei-me de súbito da moça dos sonhos que tanto me atormentava. Me virei, e ela não estava mais lá, apenas o som distante de passos descendo as escadas.
Peguei o elevador até a recepção, porque sabia que o segurança e mais alguns colaboradores estavam no térreo, e não queria ficar sozinha naquele momento. As lâmpadas piscavam, uma a uma, como se algo as acompanhasse. Alguns justificavam afirmando que era apenas uma instabilidade elétrica em consequência aos eventos festivos na região. Apesar disso, depois do que presenciei, não acreditava que fosse apenas aquilo.
Nos dias seguintes, continuei com a minha rotina, mas o prédio parecia diferente, ou talvez a minha conexão com ele tivesse mudado a minha percepção. Comecei a pensar naquela mulher, presa entre o que esperava e o que perdeu enquanto digitava relatórios e respondia e-mails, pensava em quantos de nós também estavam aguardando por algo que nunca vinha: uma chance, um amor, um reconhecimento.
Às vezes, o som das escadas me fazia levantar a cabeça e sorrir, como se dissesse: “Eu sei. Eu também espero.”
Foi numa sexta-feira chuvosa que tudo fez sentido, o expediente já tinha acabado, e o prédio parecia exalar um cansaço antigo. Desci sozinha, e a luz das salas vacilavam, oscilando entre a sombra e o amarelo gasto, foi no último lance de degraus, que ouvi passos atrás de mim. Passos lentos, arrastados… e absolutamente certos de onde pisavam. Senti o mesmo arrepio familiar correr pelo meu corpo.
Parei.
Não por medo, apesar de estar apreensiva, mas por uma espécie de reverência silenciosa, como quem percebe que está diante de algo que não pertence mais a este mundo. Senti o perfume de jasmim inundar o ar, tão suave que era quase imperceptível. E então, uma voz, frágil como memória, falou bem atrás de mim:
— Eu esperei tanto… tanto tempo. Ninguém me reconheceu.
Meu peito apertou, o meu coração bateu em disparada e fechei os olhos, tentando reunir coragem para respirar.
— Por que ainda espera? — minha voz saiu trêmula e sussurrante, com medo, de repente, que aquela presença fosse embora. Houve um silêncio que parecia pesar séculos.
— Porque alguém prometeu voltar — ela sussurrou — e eu… eu obedeci. Fiquei. Mesmo quando todos foram embora. A voz se quebrava em pequenas ondas, como se falasse dentro de um sonho. — Só queria que alguém me visse. Que soubesse que eu existi… e que eu não fui só abandonada. Senti as lágrimas queimarem meus olhos, respirei fundo e respondi, com a alma inteira na garganta: — Eu vejo você.
O ar mudou e o corredor, que antes estava frio, pareceu exalar um calor brando, o calor de quem, depois de muito sofrer, finalmente é acolhido. Atrás de mim, ecoou um suspiro longo, carregado de alívio e depois, um silêncio tão completo que parecia sagrado. Finalmente abri os olhos e o relógio marcava oito horas, e as luzes, antes trêmulas, estabilizaram numa claridade suave.
Olhei para trás com o que restava da minha coragem e ela não estava mais ali. Ou talvez, pela primeira vez, estivesse exatamente onde deveria estar. Desde aquela noite, nunca mais ouvi passos nas escadas ou o cheiro de um perfume de jasmim. O prédio parecia mais sereno do que jamais fora. Contudo, sempre que entro, lembro-me dela e da existência de promessas que transpassam o tempo e sentimentos que só ficam livres depois que alguém consegue enxergá-los. Depois disso, compreendi que para que os mortos possam desejar isto, é preciso que eles carreguem essa espera silenciosa durante a vida.
A partir deste momento compreendi a importância das palavras e que pequenos reconhecimentos podem mudar a vida de uma pessoa. Basta um gesto simples, e ele é o suficiente para curar feridas e dar o conforto que aquela pessoa mal sabia que precisava. Foi em vários sonhos que aquela noiva pediu um reconhecimento, e foi em um pequeno gesto que consegui curar uma ferida antiga e dessa forma, entregar paz a uma alma esquecida. E foi assim que compreendi que no fim, todos nós somos parecidos com ela, sempre em busca de alguém nos veja de verdade.
___
Os artigos publicados nesta seção não refletem necessariamente a opinião do jornal. Os textos para este espaço devem ser enviados para o e-mail [email protected] e passam por uma curadoria antes da aprovação para publicação.
