Sex, 17 de Julho

Logo Folha de Pernambuco
opinião

O verdadeiro absurdo

Há um rapaz que acorda às três da manhã para pedalar em segurança por duas horas. Há quem chame o refúgio dele de absurdo. Eu, como cirurgião e como ciclista, discordo — e tenho os números.

São três da manhã, e o despertador toca num quarto escuro do Recife. Enquanto a cidade dorme, um rapaz se levanta, toma um café apressado, confere os pneus e parte rumo à Via Mangue. Chega poucos minutos antes das quatro — o instante exato em que a pista se fecha aos carros e se abre, por duas horas, a quem pedala. Ali, e quase só ali, ele pode finalmente soltar as pernas: sessenta, setenta quilômetros a quarenta por hora, perseguindo no asfalto vazio o sonho de um dia competir. Aquelas duas horas de madrugada são, para ele, o único lugar da cidade onde pode treinar sem o risco de ser atropelado por um motorista distraído — ou rendido por um assaltante. É o seu santuário.

Pois há quem chame esse santuário de “absurdo”. Um leitor usou exatamente essa palavra, em jornal, para a interdição da Via Mangue. Defendo o seu direito de dizê-lo — e aproveito para corrigir, de passagem, a frase que costuma servir a esses momentos: “desaprovo o que dizes, mas defenderei o teu direito de dizê-lo” não é de Voltaire, e sim de sua biógrafa Evelyn Beatrice Hall, que a cunhou em 1906 para resumir-lhe o espírito. Defendo, portanto, o direito do leitor de reclamar. Mas tenho o dever de contrapô-lo, porque o que está em jogo não é gosto: é vida.

Começo pelo mais simples: não há caos. A própria fotografia que costuma ilustrar essas queixas mostra uma via de fluxo livre — um caminhão, uma moto, dois carros. As ruas do Recife só saturam depois das sete da manhã; às quatro, às cinco, estão desertas, e a Via Mangue dispõe de paralelas que absorvem com folga o tráfego do horário. A interdição dura duas horas, em três madrugadas por semana — terças e quintas até as seis, sábados até as oito. Ela não congestiona coisa alguma. Apenas incomoda, e incomoda pouco.

Mas por que esse santuário precisa existir? Porque, fora dele, pedalar no Recife é um ato de coragem. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco, o estado fechou 2025 com 3.610 ciclistas acidentados, e 2026 segue numa média de sete por dia. Em apenas oito dias de setembro de 2024, três ciclistas foram atropelados e mortos na capital. Eu conheço o desfecho dessas histórias: já vi chegar à emergência o ciclista que um retrovisor lançou ao chão — a perna dobrada num ângulo impossível, o osso rompendo a pele, o sangue secando no asfalto, a dor que nenhum analgésico alcança de imediato. E conheço a rotina que os fere: o motorista que abre a porta sem olhar e derruba quem passa, o que ultrapassa colado, sem espaço algum, o que buzina por trás apenas para assustar. É o cotidiano lamentável de quem pedala no Recife. 

A interdição da Via Mangue não é privilégio de atleta. É um remédio amargo contra a barbárie do nosso trânsito — a confissão de que, deixados sozinhos com certos motoristas, nós morremos. Na Europa, onde pedalei, fechar uma via por essa razão seria quase impensável: lá o motorista respeita quem está sobre duas rodas, guarda a distância de segurança, divide o asfalto sem hostilidade. Aqui, a interdição é o único respeito que se consegue garantir por decreto.

E o que essas duas horas oferecem, além de proteção? A medicina mais barata e poderosa que existe. Um estudo do BMJ com 263 mil adultos mostrou que quem se desloca de bicicleta tem cerca de 45% menos câncer, 46% menos doença cardiovascular e 41% menos mortes por qualquer causa. 

Não existe medicamento com esse alcance e esse custo. Uma coorte de 122 mil pacientes no JAMA Network Open revelou algo ainda mais contundente: a baixa aptidão física associa-se a um risco de morte que chega a ser cinco vezes maior, rivalizando com o de fumar, o de ter diabetes ou o de ter doença coronariana — e sem teto de benefício, pois quanto mais condicionado o corpo, menor a mortalidade. Não é só o coração: uma análise de 1,2 milhão de pessoas no Lancet Psychiatry mostrou que quem se exercita tem dias mais leves, e o ciclismo figura entre as atividades que mais reduzem o sofrimento mental, em torno de 22%. (A própria Comissão Lancet sobre demência de 2024 lista a inatividade física entre os fatores que, corrigidos, previnem a doença — mas isso é conversa para outro artigo.)
Há ainda o argumento que fala ao bolso. 

Gerar saúde é, antes de tudo, gerar economia. Um levantamento global publicado no Lancet calculou que a inatividade física custou aos sistemas de saúde 53,8 bilhões de dólares internacionais em um único ano — mais de 31 bilhões saídos dos cofres públicos — e que são justamente os países de renda média, como o Brasil, os que arcam com a maior carga de doença. 

Cada cidadão que troca o sofá pela bicicleta é uma internação que não acontece, uma UPA menos lotada, um diabético a menos, uma amputação que não chega à mesa do Hospital da Restauração. O dinheiro que não se gasta tratando doença crônica é o dinheiro que sobra para a escola, para o saneamento e para o próprio asfalto que tanto preocupa o leitor.

Por tudo isso, o erro de quem reclama não é apenas de fato — é de ambição. As pessoas estão despertando para o esporte e para a saúde: vê-se o crescimento das corridas de rua, muitas com vias fechadas em sua homenagem, e isso eu aplaudo. Mas o ciclismo não recebeu o mesmo cuidado — ao contrário, a qualidade das nossas ciclovias só caiu. E aqui está o desperdício: o Recife é uma cidade plana, vocacionada para as duas rodas, que explora pouquíssimo a própria geografia — e que, pior, trata muito mal quem pedala, invariavelmente o machucando e o matando. 

Tem ciclovias mal cuidadas, que alagam a qualquer chuva, esburacadas e mal sinalizadas, em regra invadidas por motociclistas que disputam o mesmo espaço do ciclista — e por motoristas mal-educados que estacionam justamente sobre a faixa que deveria ser dele. Uma cidade assim poderia investir muito mais na bicicleta, não apenas como competição e como saúde, mas como meio de deslocamento.

Não deveríamos, portanto, fechar menos a Via Mangue; deveríamos fechar muito mais. Nossa vizinha João Pessoa interdita a orla todos os dias, das cinco às oito da manhã, e ninguém a chama de absurda. O Recife poderia ter mais horários, mais vias, mais ciclistas e, acima de tudo, mais segurança. Porque há uma pergunta que ninguém faz: se não existe onde treinar, como nascerá um ciclista de alta performance nesta cidade? Hoje ele tem três opções — treinar em João Pessoa, treinar fora do país, ou arriscar a própria vida nas nossas ruas. A Via Mangue, naquelas poucas horas, é a quarta: a única em casa, e a única segura.

E há uma verdade técnica que poucos compreendem: o ciclismo de competição precisa da rua. A ciclovia e a ciclofaixa foram concebidas para o deslocamento e o lazer em baixa velocidade — tanto que a norma de trânsito fixa em vinte quilômetros por hora o teto para as bicicletas elétricas e os patinetes que nelas circulam. São espaços partilhados com pedestres, onde um ciclista a quarenta ou quarenta e cinco por hora seria uma ameaça a quem atravessa distraído. 

Naquela pista da Via Mangue, a velocidade média ronda os trinta, e os atletas de alta performance chegam aos quarenta e cinco — algo que nenhuma ciclofaixa de lazer comporta. Para treino de velocidade, só a rua. Aquelas duas horas de via fechada são exatamente a janela, segura e exclusiva, em que um atleta pode nascer nesta cidade.

Falo de um lugar particular. Sou cirurgião, professor de cirurgia, e sou também ciclista. Aos sessenta anos, com um consumo de oxigênio (VOmáx de 50) que muitos jovens invejariam, pedalo cerca de duzentos quilômetros por semana, em estradas e serras dentro e fora do país. Mas nada disso importa de fato. Conto apenas para dizer o que importa: que parte dessa experiência, a mesma que me mantém vivo e lúcido, pode ser vivida aqui, no Recife, naquelas poucas horas de asfalto protegido.

Por isso, quando o despertador tocar de novo às três da manhã e aquele rapaz partir rumo ao seu santuário de duas horas, lembremo-nos do que está realmente em jogo: vida, alegria, saúde, economia e o futuro de uma cidade que poderia pedalar muito mais. Gerar saúde jamais será um absurdo. O único absurdo — o único de toda esta história — é não compreender isso.
 


 

 

* Cirurgião-geral, professor-adjunto de Cirurgia da Universidade de Pernambuco (UPE), MD, MSc, PhD, MBA, ciclista.



______
Os artigos são de responsabilidade dos seus autores e não necessariamente representam a opinião do jornal. Os textos para este espaço devem ser enviados para o e-mail [email protected] e passam por uma curadoria antes da aprovação para publicação. 

Veja também

Newsletter