Qui, 16 de Abril

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opinião

Os fantasmas que voltaram

Pertencemos a uma geração que combateu tenazmente a tortura, a violência política, a crueldade praticada em nome do Estado. Havia, em nós, uma convicção quase serena: a de que jamais voltaríamos a nos deparar com tais horrores. Era, talvez, uma esperança vaga — mas era também uma crença sustentada pela confiança de que a sociedade brasileira havia alcançado um nível de maturidade capaz de conter a fúria da maldade, essa força sempre latente no miolo de qualquer organização humana. Imaginávamos que não experimentaríamos novamente a sensação de impotência diante da violência política, que não seríamos lançados outra vez à condição de espectadores perplexos, incapazes de reagir frontalmente às injustiças.

Mas eis que, em pleno abril de 2026, a realidade nos golpeia com dureza. Uma sentença recai sobre um senhor catarinense de 71 anos, condenado a mais de uma década de prisão por ter contribuído com algo em torno de cem dólares para o transporte de participantes de uma manifestação política. O episódio estarrece. E mais do que isso: ressuscita fantasmas que julgávamos definitivamente exorcizados do país. A crueldade, quando praticada sob o manto da legalidade estatal, adquire contornos ainda mais inquietantes. Ela passa a ser instrumento de poder — não raro a serviço da permanência de poucos, em detrimento de valores que sempre moldaram a consciência liberal e humanista do Brasil.

Pernambuco, em particular, carrega na sua história a tradição de nunca se omitir diante da tirania. Sempre que foi preciso, levantou-se contra o arbítrio. Nunca faltou ao país.

O momento atual, contudo, impõe perplexidade. Assusta. E, como toda situação histórica marcada por excessos, tende a produzir consequências. Aqueles que hoje ocupam o poder em breve estarão submetidos ao julgamento democrático. E, caso prevaleça o sentimento difuso de revolta, constrangimento e indignação — alimentado por escândalos, desvios, prisões questionáveis e decisões que parecem desproporcionais —, esse peso inevitavelmente recairá sobre os que representam o status quo.

É possível — talvez provável — que a sociedade brasileira busque, por meio do voto, resgatar aquilo que sente ter sido perdido ou sequestrado. Não se trata de desejo de confronto. O brasileiro, em sua essência, rejeita a tirania, rejeita o autoritarismo sob qualquer nome que ele assuma. Ditadura, fascismo — rótulos distintos para práticas que ferem a liberdade — tendem a ser repelidos. O voto permanece como a via civilizada, como o instrumento capaz de corrigir rumos sem o derramamento de sangue, sem aprofundar a crise de uma nação já marcada pela incerteza e pelo sofrimento.

O Brasil necessita de reconciliação. Precisa reencontrar a possibilidade de convivência, de equilíbrio, de felicidade social. Não de discursos que inflam divisões, nem de estruturas que estimulam o ódio e a agressão entre cidadãos. Estamos, ao que tudo indica, em um caminho equivocado. Mas ainda há retorno. E esse retorno, como tantas vezes na história, pode vir silencioso, firme e decisivo — pelas mãos do eleitor. Assim esperamos.



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