Outono
O poeta Joaquim Cardozo escreveu: “Eu quero chamar o tempo / Limpá-lo bem muito limpo / Deixá-lo como um lustral. / Com ele faço os espelhos / Onde durmo de joelhos / Num sono só de cristal”. Em Um livro aceso e nove canções sombrias.
Outro poeta, Félix de Athayde, disse que Cardozo “queria que o tempo purificasse as coisas. Mas já não há tempo.” O chão voou, anunciou Cardozo. Que queria mais tempo. E procurou se esconder das horas, comprar demoras (Joaquim Cardozo, Poesia Completa e Prosa, Nova Aguilar e Editora Massangana, Rio de Janeiro, 2010).
Talvez Deus tenha, em sua infinita compaixão, me contemplado com o dom da conformação. A disposição de me resignar. Mas, o fato é que não me desespera a marcha inexorável do tempo. E todo conjunto de consequências, boas e más, que vem com ele. Trazido pelo outono. Os cabelos de prata, o olhar mais compreensivo sobre pessoas. Gestos mais compassivos. Capacidade de sentir e amar. Ao lado da forma mais serena de me expressar.
Não critico, nem de longe, os que carregam a tentativa vã de atrasar os efeitos do tempo sobre si mesmos. Compreendo-os perfeitamente. Na sua maneira pessoal de viver a vida. A seu modo. Apenas acho melhor, cá do meu canto, tirar partido da maturidade. Colecionar os frutos que posso obter em razão do suor do meu rosto. E daquilo que me é oferecido como resultado.
Sei que são várias as dores da idade. Mas, em que, afinal de contas, podem elas nos favorecer ? Não será esse oportuno proveito um exercício minimamente inteligente ? Aproveitar a convivência com amizades cinquentenárias que soubemos cultivar. Admirar o tom violáceo do arrebol ígneo das tardes do Recife. Mergulhar nos encantos adolescentes, surpreendentes, de neta e neto, ouvindo seus cantos e tons que mudam a cada semestre.
Convicto, confirmo olhar sobre mim mesmo. E sobre a circunstância ao redor. Em relação a mim, penso que os anos prateados me trouxeram duas vantagens: dispensei ansiedade própria dos que chegam aos trinta anos. E querem ter certeza vital sobre seu destino. Se a carreira que escolheram vai bem ou mal. A essa altura, minha fronteira outonal é fértil. Não trago remorsos. Seguro de meus erros. Certo de minhas escolhas.
A segunda vantagem é o cardápio de gostos, que generoso caminho me ofereceu. Sabe-me gostosamente. Benigno. Li de Carlos Drummond de Andrade a Vinicius de Moraes, de Ernest Hemingway a Charles Baudelaire. Ouvi do concerto dois de Rachmaninov à missa de Mozart. Curti a emoção de ver e ouvir Águas de Março (com Tom e Elis) a Astor Piazzola. Experimentei a alegria de dançar Vassourinhas, certa noite, em Dusseldorf. Na casa de funcionário da agência de cooperação técnica alemã. E curti a magia do toque armorial, Mourão. Provei assados e marinados, bebi tintos e dourados. Senti nos dedos o branco de neve americana. E recebi, no rosto, o calor de tarde toscana.
Fui abençoado com a graça de me arriscar. E me arrepiar. Sem me arrepender. Apreciando obras de humano fazer. Em seus cinzeis, suas cores maravilhosas, cafeicultores de Portinari, arlesianas de Van Gogh. Quanto aos companheiros dessa viagem fraterna, muito aprendi com eles. Na didática do ter, a lição maior: ser. Cada vez mais doado a todos e a cada um. Agora, vivo o tempo do adágio. Sem pressa. Encarando a chance de continuar olhando a enigmático mistério do mundo. Ouvindo o rio. E desfrutando a brisa da Florença tropical de que falou Camus.
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