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OPINIÃO

Partidos conservadores: sinfonia inacabada

Uma política completa tem que ter Partidos social-democratas, liberais e conservadores. Consistentes. Programáticos. Para que a sociedade se veja toda representada. E, assim, a democracia se reconheça efetiva. No Brasil do Império, até 1889, a elite civil era homogênea. E construiu uma ordem oligárquica. Por meio de dois Partidos: o Partido Conservador e o Liberal. 

Na República Velha, entre 1889 e 1930, o fio condutor do processo era a política dos governadores. Relacionados aos Partidos republicanos. Durante a ditadura Varguista e até o golpe de 64, dois Partidos conservadores respaldaram o poder: o Partido Social Democrático - PSD, de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Agamenon Magalhães. E a União Democrática Nacional - UDN, de Carlos Lacerda, Magalhães Pinto e Cid Sampaio. O terceiro Partido, à época, foi o Partido Trabalhista Brasileiro - PTB, criado por Getúlio. Refletindo o surgimento do movimento operário que vinha com a industrialização.

Os Partidos conservadores, no Brasil, sempre mantiveram o poder político. Pouco definidos ideologicamente. Mas pragmáticos. E com identidade política e social. Sua relação com as classes sociais muda com o tempo. Até o século 20, eles se articulavam mais com as classes média e rica. No século 21, com as mudanças no mercado de trabalho, aumento do setor terciário de serviços, e maior influência dos evangélicos, os conservadores penetraram mais nas classes populares. Atualmente, os Partidos conservadores são mais fortes no Sul e no Sudeste, regiões mais desenvolvidas do país. E começam a penetrar no Nordeste, onde reinam o PT e o PSB.

Por outro lado, sua relação com o regime democrático, compromisso com a democracia, também muda com o passar dos anos. Sustentaram o ambiente democrático nos períodos de 45 a 63. E apoiaram o golpe em 64. Extintos o PSD e a UDN, seus sucessores, ARENA e PDS cimentaram os governos militares. Em 1985, PMDB, PFL e os demais Partidos de oposição, PT, PSB, PSDB, fizeram a transição para a democracia.            

O êxito eleitoral dos Partidos conservadores é a chave para entender a política brasileira depois da abertura em 1985. Eles têm sempre integrado as coalizões governamentais no plano nacional. E, assim, se beneficiam na continuidade de posições de poder no nível local e regional. Reforçando essa dominância, anote-se que a sociedade brasileira, no geral, é conservadora. Significando que há um pensamento conservador para além dos Partidos conservadores.   

Pesquisadores têm detectado um perfil claro desses Partidos: eles desenvolvem uma ênfase na política local como meio de sustentação eleitoral; apresentam baixa disciplina partidária do ponto de vista programático; e exercitam o clentelismo como forma de atuação e sobrevivência política. Sobretudo nas áreas de menor renda onde as pessoas são mais vulneráveis a esse tipo de ação.

É importante acentuar que, com a eleição de Jair Bolsonaro, há uma mudança profunda no cenário do pensamento conservador do Brasil. A direita ganha tons mais fortes no discurso político. E extrapola a fronteira da democracia. Com a tentativa de golpe que resultou na afronta de 8 de janeiro de 2023. O espectro político incorpora uma ultra-direita. Que utiliza habilmente as mídias sociais. E, hoje, governa os dois estados economicamente mais poderosos do país: São Paulo e Minas Gerais. Além de deter a direção e a maioria parlamentar na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. 

A direita tradicional continua a existir. Mas a ultra-direita traz uma distorção. Porque sua principal liderança carrega vocação autoritária. Foi expulso do Exército e defendeu, em plenário, quando parlamentar, um oficial apontado como torturador. O tempo e o voto são os elementos que podem restaurar o cenário de uma política republicana. Na qual os cineastas não tenham que reproduzir na arte da vida uma vida sem arte.  


* Membro do Conselho de Proteção do Patrimônio Cultural de Pernambuco e colunista da Folha.

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