Por que a governança será decisiva para o próximo ciclo de crescimento do mercado imobiliário?
O mercado imobiliário brasileiro entra em um novo ciclo de crescimento. Em 2025, os lançamentos cresceram 30,1% em volume e 31,1% em valor, segundo os Indicadores ABRAINC/Fipe, enquanto a CBIC manteve a projeção de alta de 2,3% para o PIB da construção no ano. Os números mostram que, mesmo em um ambiente ainda desafiador, o setor segue ativo e com espaço para expansão.
Esse movimento é relevante porque recoloca incorporadoras e loteadoras diante de uma oportunidade concreta de ganhar escala. Mas ele também traz uma exigência nova, ou pelo menos mais visível, já que crescer já não depende apenas de lançar ou vender mais. Depende, cada vez mais, da capacidade de sustentar esse crescimento com previsibilidade, controle e qualidade operacional.
Durante muito tempo, o setor concentrou sua energia nas frentes mais óbvias do negócio, como vendas, expansão comercial e novos empreendimentos. Esses fatores continuam centrais, mas em um mercado mais pressionado por eficiência, custo de capital e exigência de informação, o diferencial competitivo começa a migrar para a governança do fluxo financeiro.
Esse é um ponto importante porque boa parte das operações financeiras do mercado imobiliário ainda funciona com baixa integração entre ERP, bancos, contratos, cobrança e conciliação. Na prática, isso significa times sobrecarregados com tarefas manuais, múltiplas versões da mesma informação, dificuldade para acompanhar a saúde real da carteira e pouca previsibilidade sobre o que de fato vai virar caixa.
Nesse contexto, nem sempre aquela operação que parece funcionar está realmente saudável. Os boletos são emitidos, os relatórios são entregues, o mês fecha e o próximo lançamento entra no planejamento. Mas, no bastidor dessa aparente normalidade, permanecem fricções que consomem tempo, elevam o custo operacional e reduzem a capacidade de decisão da empresa. O que era administrável com uma carteira menor vira gargalo à medida que aumentam os contratos, os bancos, os empreendimentos, as exceções e as renegociações. E, nesse cenário, a empresa corre o risco de crescer em volume sem crescer na mesma proporção em controle.
Por isso, a governança precisa sair da caixa do diferencial e ocupar o centro da estratégia como requisito essencial para qualquer operação. E governança, termo que vem ganhando mais espaço em diversos setores, é mais simples e estruturante do que parece: significa ter capacidade de transformar dados dispersos em informação confiável, processos fragmentados em fluxo previsível e crescimento comercial em geração real de caixa.
No mercado imobiliário, essa mudança é decisiva porque a conta não fecha apenas na base de vender mais. É preciso garantir que a cobrança aconteça com consistência, que a conciliação acompanhe o ritmo da operação, que a inadimplência seja monitorada com visibilidade real e que a carteira possa ser analisada com confiança por gestores, parceiros financeiros e investidores.
E olhando para essa outra ponta que movimenta o mercado, a discussão ganha ainda mais peso ao avaliar a evolução das estruturas de financiamento do setor. O estoque de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) já ultrapassou R$ 260 bilhões, mas, junto com a ampliação do mercado de capitais, aumentou também a exigência sobre a qualidade operacional das carteiras que sustentam essas operações. Em outras palavras, o mercado não olha apenas para o ativo, ele olha para a capacidade de provar que esse ativo é confiável.
É por isso que a governança do fluxo financeiro tende a ser a base do próximo ciclo desse crescimento. Empresas que operam com rastreabilidade, integração, monitoramento contínuo e previsibilidade de carteira saem na frente não apenas em eficiência, mas também em capacidade de expansão, leitura de risco e credibilidade diante de investidores, securitizadoras, bancos e parceiros estratégicos. Os melhores resultados estarão com quem conseguir transformar a operação financeira em base sólida para decidir, captar e crescer.
Dessa forma, governança não será um diferencial acessório, mas o que separa crescimento desorganizado de crescimento sustentável. Afinal, crescer é importante, mas crescer com controle é o que dará longevidade aos negócios.
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