Psicopatia ortográfica
Na obra “As Palavras e as Coisas”, Michel Foucault menciona que existem palavras que são consideradas “proibidas”, portanto, não devem ser mencionadas visando evitar celeumas. Certamente, o filósofo francês não tinha pretensões de premonições, pois, se tivesse, certamente alertaria que, em um dado momento da história, o Brasil seria palco de uma psicopatia ortográfica.
Fruto da falta de capacidade cognitiva acendrada, ausência de oportunidade para saber diferenciar as coisas, ou até mesmo por maldade, estamos vivendo momentos nefastos, quando as pessoas repudiam palavras pelo simples fato de as elegerem como algo danoso ao em que acreditam.
Em alguns momentos, poderia ser até engraçado se não fosse preocupante, comportamentos totalmente desfocados de análise reflexiva e, consequentemente, de desconhecimento histórico.
Com efeito, muitas das palavras são empregadas fora do contexto e sem a devida preocupação em submetê-las à hermenêutica. Em uma era quando o olhar reflexivo e a palavra abalizada são vistos como algo danoso, talvez seja querer muito de quem só consegue enxergar o mundo a partir de recorte criado pela sua psiquê.
Digo isso, pelo fato de que, recentemente, conversando com um colega, este relatou que ouviu de uma pessoa que sempre comprou os livros de sua autoria, mas que agora resolveu esperar passar as eleições para comprar seu mais novo lançamento e, pasmem, pelo simples fato de constar uma palavra na capa que, segundo ele, poderia levar as pessoas a pensarem que estava lendo uma obra que é contrária aos padrões de sociedade na qual ele acredita.
Ora, triste de uma pessoa que vive a partir dos que os outros pensam ao seu respeito. Gente assim vive, em um mundo hermético e, consequentemente sem liberdade, suas atitudes giram em função do que os outros pensam ao seu respeito. Na verdade, são sujeitos sem identidade, vivem de representações.
Infelizmente, estamos vivendo a era de uma psicopatia ortográfica, em que pessoas estão alucinadas e consequentemente, não conseguem conviver e muito menos enxergar nada que não esteja corroborando com a pequeneza dos seus conceitos.
Não sabem o que é direita, esquerda, marxismo, weberianismo, calvinismo, neopentecostalismo e todos os ismos que sejam possíveis, mas se arvoram em emitirem opiniões.
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