OPINIÃO

Quando tudo muda ao mesmo tempo (Gpt4o)

Não é novidade na história humana as coisas mudarem drasticamente. Em nossas vidas privadas então, fazendo um pouco de exercício de memória, quantas vezes tudo parece ter ficado de “pernas para ar” de uma hora para outra? Fico às vezes imaginando alguns episódios históricos impactantes nas vidas das pessoas e o que isso representou em seus destinos. Não digo individualmente, mas para toda uma coletividade. Agora, mais recente, o que está ocorrendo no Rio Grande do Sul, por exemplo. Um desastre natural que, por mais que o digam como algo esperado, talvez previsível, ninguém poderia imaginar os impactos em tantas pessoas ao mesmo tempo. Assim é a vida e assim temos que entender o quão frágil são nossas seguranças. Entretanto, para além de mais uma catástrofe natural em nosso mundo, algo silencioso vem acontecendo (catastrófico ou não), a revolução da Inteligência Artificial.

E eu provoco com uma pequena história ficcional. “Num futuro não tão distante, Ana, uma escritora e pesquisadora em tecnologia, descobriu uma nova forma de interação com seu assistente digital. Diferentemente das versões anteriores, o novo sistema, baseado em tecnologia generativa avançada, não só entendia suas perguntas, mas também antecipava suas necessidades criativas e acadêmicas. Em uma manhã particularmente inspiradora, enquanto observava o nascer do sol refletido nas telas que cobriam as paredes de seu escritório, Ana perguntou: Pode me ajudar a redigir um artigo sobre a influência da realidade virtual na literatura moderna?” O sistema, com a fluência de um velho amigo, sugeriu estruturas, fontes e até trechos de obras relevantes, criando um ambiente de imersão que transformava pesquisa em uma experiência quase palpável. O que diriam vocês? Acham possível isso?

Essa ficção, embora futurista, não está longe da realidade proporcionada pelo “ChatGPT 4o”, a mais recente inovação em inteligência artificial generativa lançada. Este sistema não apenas compreende textos complexos e responde perguntas com uma precisão antes inimaginável, mas também gera conteúdo novo e adaptado às necessidades específicas do usuário, integrando várias fontes de comunicação ao mesmo tempo. Permite que você filme, pergunte, escreva, fotografe e acima de tudo, dialogue com a IA, ao mesmo tempo, conseguindo ela perceber até alguns de seus estados emocionais. A capacidade de contextualizar e gerar informações pertinentes é uma das grandes promessas dessa tecnologia, revolucionando não só como trabalhamos, mas como vivemos e em alguns casos, até como relacionamo-nos.

Como pontuado por Pierre Lévy em "As Tecnologias da Inteligência", estamos na cúspide de uma "mutação antropológica", onde nossas ferramentas de pensamento se expandem além das capacidades humanas individuais. Lévy argumenta que a inteligência coletiva formada através de interações mediadas por computador nos propicia uma extensão da mente e do pensamento. O ChatGPT 4o exemplifica isso, ao permitir interações complexas e humanizadas com máquinas, abrindo portas para uma nova forma de sinergia entre humano e digital.

Nos campos da educação, terapia e comunicação, essa inovação promete transformações substanciais. Educadores podem receber assistência personalizada para adaptar métodos de ensino às necessidades individuais dos alunos, enquanto terapeutas podem usar o sistema para entender melhor os padrões de fala e pensamento de seus pacientes, proporcionando um suporte mais eficaz. Na comunicação, a barreira entre culturas pode ser diminuída através de traduções e adaptações linguísticas mais naturais e precisas, tornando o mundo mais conectado e menos dividido, no qual o multiculturalismo se transforme numa realidade aplicável no dia a dia, para além das questões geopolíticas.

Apesar dessas promessas, como bem adverte Byung-Chul Han em "Não-coisas", devemos estar atentos à objetificação da vida social pela tecnologia. O risco de transformar relações interpessoais em interações com 'não-coisas', onde a tecnologia nos serve sem a necessidade de reciprocidade emocional, é real e presente, e, por mais divinas que sejam essas mesmas tecnologias, elas não possuem humanidade. A nossa capacidade de "humanizar" e "dar alma" às coisas é o que, ironicamente, poderá nos modificar enquanto gente. Estamos à beira de uma revolução tanto tecnológica quanto humana, onde o desafio será encontrar o equilíbrio entre utilizar as máquinas para ampliar nossas capacidades sem perder a essência do que realmente somos: seres profundamente sociais e emocionais.

*Advogado e Especialista em Transformação Digital

Veja também

Inteligência Artificial Aplicada nos Negócios

Inteligência Artificial Aplicada nos Negócios

Sobre a tragédia e o Crime Organizado I

Sobre a tragédia e o Crime Organizado I

Newsletter