Sex, 06 de Março

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opinião

Relembrando o ano que passou

“Querer bem tem sido uma constante em minha vida. Quis bem à beleza, à inteligência, à juventude, ao erro, à generosidade, à coragem, à lágrima e ao carinho dos outros”.

Antônio Maria, Vento Vadio, crônicas (Ed. Todavia, São Paulo, 2021).


 
Memória de quintais antigos. Mangueiras carregadas. Foi o que senti hoje. Recordando a casa de Rui Porto Carreiro. Rua da Hora, Espinheiro. Colega no Instituto Recife. Um de meus afetos até sempre. Lembrando seu sorriso brando. Tanta saudade que desci na direção do rio. Atravessei a rua. No pequeno parque, defronte da comunidade do Vintém, tirei o sapato. Comecei a caminhar descalço. Sentindo a areia nos pés. Um homem, perto, olhou. Caminhei, livre, sem apertos, sem capivaras. Foi como se tivesse sentido, nos nervos, o chão esmerilhado de areia.

Antigamente, pensávamos que as ruas do Recife notívago fossem nossas. Silentes. Vazias. O escuro só quebrado pelos faróis de carros bissextos que passavam. Tempo, como disse o poeta, em que eu tinha menos cinquenta anos e menos cinquenta remorsos.
 
Mas, por que estou dizendo isto? Porque, ao retornar do rio Capibaribe, senti nas mãos e na alma o valor da vida. Na liberdade de andar, no senso de ver, na chance de dar boa tarde à senhorinha que passeava com seu cachorro. E, além do prosaico da existência cotidiana, o susto.

O susto da reverência norte-americana à medalha de ouro de Rebeca. O poderio estadunidense curvado à soberania da ginasta brasileira. O atômico tornou-se anômico. E as afro-americanas, enlaçadas no voo de gentileza, atravessaram atlânticos. Abraçaram-se sem se tocar. Que instante magnífico! Que belo gesto!
 
Dois dias depois, a vitória da seleção feminina de futebol sobre a Espanha. 4 x 2. Sem Marta. Ou seja, uma conquista singular. Desempenho pessoal. Após três contusões de Rebeca, agora Monalisa. Espanholas vencidas com persistente obstinação. Em uma vitória coletiva. De noviça esquadra autoconfiante. E, aí, vem o melhor. Ambos, voo individual e jogo coletivo, produtos da chama feminina. Talento das mulheres. Com a flama de quem sabe o que é dar vida. E o que é dar à vida.
 
Encerrado o jogo, tomei banho, jantei e fui para a janela. Meu posto de observação. Para pegar, no ar, com a mão, uma calma boa. E escutar raro silêncio. Lembrando Giverny nos jardins de Monet; a dispersão dos judeus na ópera de Verdi; o imperdível pirão do cozido no almoço; regado ao vinho branco com licor de cassis. Nesse momento, quando o arrebol cedeu espaço às estrelas, senti a miudeza e a grandeza do humano. Como é possível produzir a tessitura do bem. E do belo. Superando o que é contingente. Provisório. Superficial. Trivial. E compartilhar o que é essencial. Fatal. Definitivo. Cabal. Como dizia Nelson Rodrigues. 

Apertei a mão do destino. Que a inspiração de fados me concedeu. Sentindo a benção do vento que vem do mar. O mistério do mar de Paul Valéry. E a sensualidade do mergulhador de Vinicius de Moraes. Ciente de que, amanhã, o dia estenderá aos meus pés uma passadeira. E, por ela, eu seguirei, com minha leve bandeira.  
 


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