Respeitem os cabelos brancos
O Brasil está envelhecendo a passos largos, mas a nossa empatia parece caminhar na direção oposta. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), a população com 60 anos ou mais saltou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024 — um crescimento de 53,3%. As projeções do IBGE são ainda mais eloquentes: em 2070, os idosos representarão 37,8% da população brasileira, cerca de 73,5 milhões de pessoas. A velocidade dessa transformação demográfica deveria acender um alerta nos gabinetes dos governantes. Um país que envelhece nessa proporção precisa de políticas públicas consistentes, cidades acessíveis e serviços humanizados. O que se vê, porém, é o contrário: persiste uma cultura de desrespeito que transforma a velhice em um fardo e faz do idoso um cidadão de segunda categoria.
O desrespeito institucional começa já no primeiro dia da aposentadoria. A partir desse momento, desconsideram-se tanto as contribuições feitas durante décadas à Previdência Social quanto os anos dedicados ao trabalho. Quem contribuiu sobre quatro ou cinco salários mínimos passa a receber o equivalente a um ou dois, sem reposição sequer da inflação. É uma realidade que afronta a dignidade e condena milhões de brasileiros a sobreviver em condições precárias justamente na fase da vida em que mais necessitam do amparo do Estado.
A insensibilidade também se revela nas exigências administrativas. A prova de vida, por exemplo, frequentemente ignora as limitações dessa população ao exigir deslocamentos a agências ou terminais bancários, submetendo idosos com mobilidade reduzida, usuários de cadeiras de rodas ou muletas a constrangimentos incompatíveis com os mais elementares princípios de dignidade.
Essa falta de consideração estende-se ao comércio e aos serviços privados. Em bancos, supermercados e lojas, a dificuldade natural para encontrar um cartão, digitar uma senha ou fazer um Pix costuma ser recebida com impaciência por atendentes e até por pessoas na fila. A sociedade da velocidade já não tolera quem precisa apenas de alguns minutos a mais.
Nas ruas, a situação torna-se ainda mais cruel. Não são raros os relatos sobre motoristas de ônibus que deixam de parar nos pontos ou arrancam antes que os idosos consigam embarcar ou desembarcar com segurança, provocando quedas, lesões e tragédias evitáveis.
O ápice dessa exclusão esconde-se sob o discurso da modernização. A digitalização dos serviços transformou-se em um novo instrumento de exclusão. Reconhecimento facial, QR Code, aplicativos, logins e códigos substituíram o atendimento humano. Vivemos sob o império de distantes e frias máquinas. Marcar uma consulta, agendar um exame ou conseguir uma cirurgia tornou-se um desafio para milhões de idosos que convivem com limitações visuais, dificuldades motoras ou pouca familiaridade com a tecnologia.
A sociedade que hoje vira as costas para seus idosos está ensinando como deseja ser tratada amanhã. Quem desrespeita os cabelos brancos de hoje está antecipando a própria velhice de amanhã.
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