Qui, 08 de Outubro

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opinião

Serial killer de oportunidades

Existe um tipo de empresário que não atravessa uma esquina sem enxergar um negócio nascendo. Numa fila de banco, vê uma fintech. Numa conversa de bar, vê uma franquia. Esse perfil pode ser chamado de *serial killer* de oportunidades — mata o tempo todo, só que mata tédio, mata acomodação, mata a ideia de que as coisas precisam continuar como estão. O problema é que essa mesma fome, sem disciplina, também mata o próprio negócio.

Mais do que crise, imposto ou concorrente: empresa boa afunda não por falta de ideia, mas por excesso dela. Steve Jobs resumiu isso numa frase que virou clichê de palestra, mas que poucos praticam: "foco é dizer não". E completou que inovar é recusar milhares de coisas boas para poder dizer sim às poucas que realmente importam. Ele não falou em recusar o que é ruim — isso é fácil. O difícil, o que separa quem escala de quem se dispersa, é recusar o que é bom. Porque bom, no mundo dos negócios, sobra.

Empresas não costumam morrer por falta de oportunidade. Morrem por excesso dela. O dono abre cinco frentes ao mesmo tempo, não sustenta nenhuma com a profundidade que cada uma exige e depois culpa o mercado, quando o adversário estava no espelho. Isso está no cerne do que escrevo em meu livro Demita Seu Chefe e Vá Empreender: ali, demitir não é só o chefe do emprego formal, é demitir o medo e a dependência de uma única fonte de segurança, com fé de que o corte certo abre espaço para o que realmente importa.

O mesmo vale para dentro do próprio negócio. Em algum momento, o empreendedor também precisa demitir ideias. As suas próprias.

Silvio Santos é o maior exemplo desse instinto: começou como camelô, vendendo de bijuteria a relógio, e chegou a dono do SBT, do Baú da Felicidade, da Jequiti e do Banco Panamericano. Viu oportunidade em quase tudo, mas recusava negócios milionários quando fugiam do que sabia fazer bem. Luiza Helena Trajano segue lógica parecida: levou o Magazine Luiza de loja de bairro a fintech, marketplace e seguros, sempre ancorada no mesmo núcleo de varejo que a fez crescer.

O mesmo padrão aparece em quem nunca vira manchete, tanto numa capital quanto numa cidade do interior. A mulher que abriu um salão cortando cabelo em casa, cresceu pelo Instagram, abriu a segunda unidade e recusou a terceira para não perder a qualidade que a fez crescer. O homem que transformou a hamburgueria de rua em delivery, depois em loja física, e disse não ao franqueador que queria abrir dez pontos de uma vez. Todos vivem a mesma tensão: enxergar oportunidade em tudo e ainda assim escolher onde não entrar.

Em qualquer escala, quem cresce não é quem vê mais oportunidade, é quem escolhe menos.

Esse tipo inquieto sustenta o país nas costas: gera emprego formal, paga tributo — muito tributo, diga-se — e cria oportunidade real onde nenhuma política pública chega sozinha. É ICMS, é ISS, é INSS, é FGTS financiando hospital, escola e estrada. Não é romantismo, é aritmética: sem gente disposta a arriscar o próprio dinheiro, não há imposto que sustente nação nenhuma.

Em meu livro O Poder das Mulheres Empreendedoras, trago o Mapa dos Poderes, ferramenta para identificar onde a energia de cada empreendedor rende mais. Porque o *serial killer* de oportunidades e o atirador de precisão são a mesma pessoa em dois momentos: primeiro cria em abundância, depois decide em escassez, cortando nove ideias para dar todo o oxigênio a uma.

A pergunta que separa quem multiplica negócio de quem se dispersa nunca foi quantas oportunidades você enxergou esta semana. Foi sempre, como diria Jobs, quantas você teve coragem de recusar. Cada não bem colocado é o que garante que a próxima geração de empregos, tributos e inovação no Brasil venha de um negócio que sobreviveu ao próprio fundador.



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