Torcer como uma criança
Pensem na cena. Crianças estão jogando futebol na praça. Uma delas chuta a bola para longe e corre atrás dela. Os pais gritam. Motoristas buzinam. Pneus cantam.
Cenas dessas dizem muito sobre a cidade. Urbanistas costumam dizer que uma cidade pode ser avaliada pela liberdade que oferece às crianças para andar e brincar em segurança — o que significa, na prática, ruas tranquilas, calçadas largas, policiamento visível. Há até um nome técnico para isso: "mobilidade infantil independente".
Eu diria que o mesmo vale para estádios de futebol. Quanto mais agradável para uma criança, melhor, inclusive para os adultos.
Se os inimigos da cidade são o trânsito e a insegurança pública, os estádios sofrem de problemas como horários ruins, infraestrutura precária e diversas formas de violência, seja física (confronto entre torcidas) ou moral (homofobia, misoginia, racismo).
São fatores que afastam as crianças dos estádios e, como outro lado da mesma moeda, arruínam os vínculos afetivos com os clubes locais. O que ao menos explica a crescente adesão a clubes do exterior.
Nem tudo está perdido, no entanto. Em 2024, o STJD puniu o Sport com três jogos restritos a mulheres e crianças. Resultado: três partidas com casa cheia e relatos de torcedoras sobre a sensação de segurança e bem-estar.
Outra boa notícia é que a CBF despertou para o assunto. Na semana passada, a entidade reuniu dirigentes e apresentou propostas para a modernização do futebol brasileiro, voltadas a três dos principais obstáculos à presença de crianças nos estádios: horários, infraestrutura e segurança.
A começar pelos horários das partidas, um verdadeiro quebra-cabeça a serviço das redes de TV e streaming, cada qual com as suas necessidades de preencher buracos na programação. É isso que explica as partidas às 20:30 dos domingos, por exemplo, à revelia da escola das crianças no dia seguinte.
Veja-se que o Brasileirão tem apenas 20% das partidas disputadas à luz do dia, enquanto na La Liga são 40%, na Bundesliga 70% e na Premier League 75%. A CBF promete mudar isso e priorizar horários diurnos nos finais de semana.
Mais um fator que afasta as famílias é a infraestrutura: banheiros ruins, entradas mal sinalizadas, filas para comprar comida. A CBF está prestes a lançar um licenciamento que sujeitará cada estádio a um pente-fino de segurança, acessibilidade e higiene. Só assim, o estádio estará habilitado a receber partidas do Brasileirão e da Copa do Brasil.
Por fim, o velho problema da violência. Segundo pesquisa do Instituto Nexus, três a cada quatro brasileiros não se sentem seguros para levar os filhos ao estádio. Contra isso, a CBF está montando uma Comissão Antiviolência do Futebol Brasileiro, voltada à formulação de políticas para segurança dentro e fora dos estádios.
Só quando as crianças voltarem às ruas e aos estádios do país o futuro de nossas cidades e do nosso futebol estará assegurado.
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