OPINIÃO

Tristes reflexões em tempos do Covid 19...

Vivemos globalmente uma crise nunca vista na história recente da humanidade, talvez só nas duas guerras mundiais

Hildo Cirne de Azevedo Filho

Tenho mais de 70 anos e sou professor titular da Universidade de Pernambuco, cargo conseguido através de concurso público de provas e títulos. Como médico com mais de 50 anos dedicados ao serviço público, nas áreas da assistência, ensino e pesquisa, acredito ter o direito de me expressar com farei neste texto, o qual provavelmente irá desgostar inúmeros figurões dessa república.

Vivemos globalmente uma crise nunca vista na história recente da humanidade, talvez só nas duas guerras mundiais, pois além das centenas de milhares de vidas ceifadas presenciaremos quase que certamente um profundo colapso da economia mundial, com milhões de empregos perdidos e a bancarrota de vários países mesmo aqueles em situação financeira mais equilibrada.

Por mais que o remédio seja doloroso, enfrentando um inimigo ainda quase desconhecido, o mais rígido distanciamento social parece ser o único meio efetivo para reduzir um caos maior, evidenciado por uma letalidade mais elevada do que a projetada, acompanhada pela falência dos sistemas de saúde. Enquanto isso, esperemos que os nossos cientistas cheguem a tempo de produzir uma vacina que possa reduzir o número de vítimas, que no momento parece aterrorizante, embora em curto prazo não seja provável que essa descoberta venha a acontecer. Contudo, se voltarmos na história, esse milagre já foi observado no passado quando a Inglaterra sofria o pesado bombardeio da aviação germânica.

Naquela época, pesquisadores da Universidade de Oxford silenciosamente pesquisavam e desenvolveram a penicilina cristalina. A nova droga pela vez primeira foi utilizada em um ser humano na The Radcliffe Infirmary, precisamente no dia 12 de fevereiro de 1941. Esse importantíssimo avanço científico foi fundamental para o esforço bélico das forças aliadas, salvando milhares de civis e combatentes, tendo sido mantido como segredo de guerra visto que os alemães por mais que tentassem nunca possuíram o novel agente bactericida.

No nosso país, imaginem a imensidão da catástrofe se não tivéssemos o Sistema Único de Saúde (SUS), juntamente com aqueles que nele acreditam e que nele trabalham com toda a dignidade. Seria impossível enfrentar essa pandemia sem uma única estrutura profissionalmente organizada e controladora de todas as atividades e decisões, estabelecendo políticas emergenciais em consonância com as maiores autoridades sanitárias. Costumo afirmar que o SUS foi o maior instrumento de inclusão social desde o advento do salário mínimo pelo Presidente Getúlio Vargas.

Todavia, ao longo de mais de três décadas, o SUS vem sendo em muitos casos mal gerenciado, negligenciado até, pessimamente financiado e em algumas vezes assaltado por alguns gestores impatrióticos, bastando recordar escândalos escabrosos veiculados pela imprensa em um passado recente. Para piorar a situação, a falta de recursos para o SUS se vê agravada pelo mesmo estar inserido em uma máquina estatal paquidérmica, sempre burocraticamente travada, disfuncional e frequentemente encharcada por denúncias de corrupção.

Na verdade, essa colossal máquina estatal, em todos os níveis e em todos os poderes, consome uma enorme, censurável e desnecessária quantidade dos nossos recursos para mantê-la funcionando como atividade meio, e com suas mazelas asseguradas, quando se olvidam a responsabilidade do poder público com as atividades fim do estado que são em última análise a saúde, a educação, a segurança, o bem estar social e a infraestrutura.

Se a Constituição de 1988 trouxe o SUS como ponto positivo, por outro lado permitiu que boa parte da classe política se apoderasse dos seus preceitos democráticos para promover o maior assalto a uma nação que a civilização ocidental já presenciou. No momento presente, como um favor para que o Ministério da Saúde possa combater o COVID 19, os nossos legisladores concordam em doar cinco a dez bilhões de reais das suas verbas (NOSSO DINHEIRO) que seriam destinadas através de suas emendas, com honrosas exceções, para alimentar as bocas vorazes dos seus apaniguados e seguidores, medidas não republicanas, fundamentalmente eleitoreiras e que redundariam em maior número de votos em eleições futuras. Nesse momento de pânico e de sofrimento, abrigados sob a criminosa escusa quando alegam a não observância da ordem regimental do legislativo federal, seus dirigentes se recusam a abrir mão, em prol do esforço na luta contra a pandemia, dos três bilhões de reais que eles nos impuseram para que absurdamente financiássemos as próximas eleições.

Hoje o nosso SUS luta bravamente para se preparar e se equipar emergencialmente para enfrentar essa terrível calamidade que lamentavelmente ainda se encontra em estágios iniciais, cuja tarefa heroica e hercúlea seria na situação atual extremamente amenizada se desde 1988 houvesse se estabelecida uma política de estado no sentido de torna-lo minimamente adequado para o nosso povo. Carências de hospitais, emergências permanentemente superlotadas, longas listas de espera para cirurgias ditas não urgentes, consultas ambulatoriais de especialistas sendo marcadas com três, quatro, seis meses de espera, fazem parte da nossa realidade diária.

É admissível se considerar como não urgente ou se aceitar um ser humano viver um ano ou mais com uma sonda na bexiga enquanto espera para operar um tumor benigno da próstata? Coloquem-se senhores lideres dessa nação na posição desses pacientes, talvez seja difícil para os mesmos entenderem porque a maior parte quando tem qualquer problema de saúde procura imediatamente os grandes hospitais particulares, principalmente os de São Paulo e com despesas pagas através do bolso do contribuinte.
Com o Ministério da Saúde dispondo de um parco orçamento de 130 bilhões de reais, nós nos esquecemos, e nesse grupo incluo uma grande porção dos principais gestores dos três poderes da república e boa parte da chamada grande imprensa, dos 500 bilhões de reais que nos roubaram apenas no dito esquema ‘Petrolão’.

É provável que atualmente o denominado esquema ‘Mensalão’ seja considerado por alguns uma obra de ficção e não me espantaria com a possibilidade da Operação Lava a Jato, mercê do interesse daqueles que detêm poder e temem a possibilidade de serem pela mesma julgados e aprisionados, vir pouco a pouco se esvaziando, sendo por certo do interesse dos assaltantes do Brasil que desapareça nas brumas da história. Não acredito que haja mais nenhum preso decorrente do malsinado esquema do mensalão, talvez apenas o ‘laranja’ Marcos Valério.

Na pilhagem do petróleo, os poucos que ainda permanecem por trás das grades, não tenho dúvidas, em um futuro bem próximo serão libertados pelas instâncias judiciais superiores. Não se espantem se no futuro a operação Lava a Jato vier a ser considerada mediante plano arquitetado por todos os meliantes envolvidos, e seus protetores, como o agente criminoso dessa trágica história.

É revoltante quando se observa um estado gigante, inoperante e deficiente para com os seus deveres com os seus concidadãos, ter decidido construir arenas de futebol gigantes, hiperfaturadas e sem nenhuma função social associadas a obras desnecessárias e também manancial para enriquecimento ilícito, com o fito de sediar copa do mundo de futebol e olimpíadas, decisões totalmente descabidas e sabidamente destinadas a aumentar o nosso endividamento interno, a falência das nossas contas e o deleite daqueles comparsas convidados a participar desse manjar da corrupção.

Também é revoltante se constatar quando os gestores atuais em uma atitude de puro farisaísmo propagam que vão reduzir os custos da máquina pública para ajudar na luta contra o COVID 19. Por que não reduziram esses custos, aparentemente tão fácil e rapidamente, antes dessa catástrofe se instalar? Por que no passado não reduziram o número de assessores, carros oficiais, penduricalhos no sentido de aumentar a disponibilidade de ofertar à sociedade um ensino melhor, uma segurança adequada e uma saúde condizente com aquela que os líderes da república buscam para seus entes queridos quando necessitados?

É revoltante ver o ilustre Ministro da Saúde mendigar por alguns bilhões para a compra de equipamentos. É revoltante, repito, sabermos que a crise do COVID 19 aumentará em cerca de 300 bilhões de reais o nosso endividamento interno no ano de 2020 e pior ainda nos sentimos quando vemos que apenas no esquema petrólão nos levaram 500 bilhões, isso sem falar nas outras instituições que foram vítimas desses meliantes. ´

É revoltante se ver a construção emergencial de hospitais e a abertura de leitos de leitos de UTI, seguramente a preços estratosféricos pois a situação favorece a não necessidade de licitação, estruturas essas que possivelmente serão futuramente abandonadas e não agregadas à atividade médica assistencial do SUS. Nessa hora trágica, ocasião em que a nação está em risco pela possibilidade de contabilizar milhares de vidas ceifadas e pelo risco de enfrentar uma derrocada geral de todo o nosso sistema de saúde, onde estavam os nossos gestores que não ouviram os clamores, as sugestões, as reivindicações e até mesmo as intimações das entidades médicas mais representativas? Onde estavam os nossos gestores quando o Conselho Federal de Medicina clamava por mais verbas para o SUS, quando exigia que as vagas necessárias de profissionais da saúde fossem preenchidas apenas através de concursos públicos e que fossem definitivamente inseridas em uma carreira de estado? Onde estavam os nossos gestores quando os conselhos regionais de medicina exigiam que mais hospitais fossem abertos, mais vagas de UTI fossem asseguradas ao SUS e que mínimas condições de trabalho e remuneração fossem asseguradas aos profissionais de saúde? Onde estavam os nossos gestores, que agora empunham a bandeira do necessário isolamento social, quando se solicitava a erradicação das favelas através de um projeto decente de habitação para pessoas de baixa renda que nitidamente reduziria o compulsório confinamento com vários membros de uma família vivendo em um único cômodo? Onde estavam as autoridades que hoje solicitam que lavemos as mãos e nos higienizemos repetidamente, mas que aceitam a realidade da maioria das cidades, grandes e pequenas, terem menos de 50% da sua área dotada de saneamento, levando a uma completa ausência de um sistema de águas e esgotos na suas áreas periféricas, resultando em confinamento compulsório dentro de um contexto de sujeira crônica por falta do abastecimento de água, nociva consequência para todos os aspectos do ser humano e que claramente resultará em uma maior taxa de infecções e da letalidade na catástrofe que ora atravessamos e em outras que eventualmente poderão acontecer?

Portanto nessa hora, o que o cidadão pode dizer é Basta! Basta de Hipocrisia! Basta de incompetência! Basta de atitudes não republicanas! Basta de corrupção! Basta de ouvir tanta baboseira tais como: ‘não há nesse país ninguém mais honesto do que eu’!
Espero por fim, que sofridos, assustados, milhares chorando a perda de entes queridos, possamos sair desse pesadelo mais fortes, mais comprometidos com a cidadania e para que também nos livremos dessa tragédia comportamental e da banalização do delito que assola a nossa querida nação, modificando totalmente a partir de agora o comportamento na escolha dos nossos governantes, pedindo a Deus que nos ilumine para que possamos escolher aqueles que construirão um Brasil digno em que os nossos netos tenham orgulho de nele viver, pois para a minha geração a esperança quase que desapareceu.

* Professor Titular de Neurocirurgia da Universidade de Pernambuco e Presidente da Academia Pernambucana de Medicina.

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