Os Carnavais que nunca têm fim

Agremiações nunca param de pensar na folia de Momo. O momento é de guardar a fantasia, mas reiniciar a festa

Figurino no bloco lírico O BondeFigurino no bloco lírico O Bonde - Foto: Brenda Alcântara/ Folha de Pernambuco

A Pérola do Samba foi a estreante do Carnaval 2018 no grupo especial das escolas no Recife. Ficou em terceiro lugar, um local digno no pódio para uma jovem agremiação que tinha muito pouco fôlego para concorrer com adversárias gigantes. Findo o desfile, fantasias e carros alegóricos recolhidos, tudo recomeça, sem intermitência. O Carnaval já é redesenhado na apuração das notas no Pátio de São Pedro, anotando os erros que, corrigidos, darão notas maiores à escola no ano que vem. Para o carnavalesco Sergio Souza, foi a harmonia o maior percalço da Pérola: mas contando que os 400 componentes de 2017 viraram 800 no primeiro desfile do grupo especial, o tropeço é totalmente aceitável. E a escola recomeça mais um Carnaval.

O barracão dividido pela Pérola - cujo berço é o Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife - fica no bairro de Afogados, do lado Oeste da cidade. Por enquanto, andam o desmonte e os protótipos. Este ano, Sergio apostou na reutilização de 10 mil CDs e DVDs nas confecções; inteiros, em pedaços, que reluzem a iluminação da passarela. Para 2019, o carnavalesco testa latinhas de cerveja, cortadas em tiras, para minimizar os custos com a reciclagem.

Carnaval que nunca acaba, na Escola Pérola do Samba, do Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife

Carnaval que nunca acaba, na Escola Pérola do Samba, do Alto José do Pinho, Zona Norte do Recife - Crédito: Brenda Alcântara/ Folha de Pernambuco

A triagem começa este fim de semana, e o que era carro alegórico pode virar fantasia, e vice-versa, com 90% de reaproveitamento. "Esta bagunça aqui vira outro Carnaval", diz, em meio a pedaços de fantasias, madeira, tecidos e armações. Até lá, vira São João. A Junina Raízes e a Evolução são duas das quadrilhas juninas parceiras que ajudaram à Pérola a desfilar e, agora, receberão ajuda. "É a nossa vez. O material que foi usado no desfile vai pra quadrilha".
A Pérola vai recomeçar a fazer shows, numa das ruas do Alto, que reverte a venda de bebidas e caldinhos em renda para bancar o desfile de 2019. "Fazemos ainda apresentações em casamentos, em aniversários. Vai bateria, o paredão, que é a rainha e as passistas, e a intérprete é Rafa Magalhães, a primeira mulher nesse cargo em escola de samba no Estado", conta. O dinheiro vai pingando e virando Carnaval. "Para 2018, começamos a fazer as coisas em novembro, em cima da hora, mas foi quando entrou dinheiro. Foi bem difícil. O desfile custou mais que o dobro do último feito no grupo de acesso. Sorte é que o Carnaval é movido à voluntariado e à criatividade, porque condição de bancar uma escola de grupo especial, nós não tínhamos".
Desmontes
Desmontado, o gigante montado para celebrar o Galo da Madrugada, na ponte Duarte Coelho, no Centro do Recife, virou uma montanha de peças de ferro e de PVC expandido. Segundo o cenógrafo e iluminador Edson Lira, cuja empresa é especilizada em reaproveitamento destes materiais, as peças que compunham o galo foram armazenadas com bastante cuidado: as penas são separadas por tamanho e embaladas em plástico-bolha e as peças de aço recebem uma camada protetora. O cuidado garante que tudo esteja apto ao reuso em outros projetos no próximo Carnaval, em um novo galo ou em outras alegorias que entrem no projeto.
Cid Cavalcanti, presidente-fundador do bloco lírico O Bonde

Cid Cavalcanti, presidente-fundador do bloco lírico O Bonde - Crédito: Brenda Alcântara/ Folha de Pernambuco

Para desfilar, o bloco lírico O Bonde, criado em 1991, usa carros alegóricos, fantasias e um flabelo iluminados. Em 2018, tudo começou em 6 de janeiro, no Dia de Reis, com a queima da lapinha, e terminou no último domingo (18) com o "bacalhau" no Bairro do Recife. Agora é a hora de reorganizar, fazer limpeza e manutenção de todas as peças, que são embaladas e guardadas para estarem aptas ao uso de pronto. "Nesses 27 anos, cuidamos da memória que estamos construindo. O Bonde vai completar 30 anos em 2021 e já temos tema do Carnaval definido. Trabalhamos com cronogramas. Estamos vivendo um Carnaval, mas o do ano seguinte já está pensado", diz o presidente-fundador do bloco Cid Cavalcanti.
A cultura popular é transgressora, o próprio Carnaval é uma transgressão - e ele, a bem da verdade, não para totalmente em mês algum em Pernambuco. O Bonde segue a norma e, como ponto de cultura que é, tem atividades para preencher o calendário do ano todo: além do bloco, tem la ursa, bloco infantil (O Bondinho), a bandeira de São João, a serenata natalina, a cantada (com o coral Edgar Morais) e o bacalhau. "Quando se impõe o fim da festa, uma Quarta-feira de Cinzas, isso já é uma transgressão. Por que bacalhau na quarta? Já está ligadao ao peixe da Quaresma.Carnaval é escancarar o que você quiser por três dias, contanto que da Quarta de Cinzas em diante você entre numa vida santa".
Julio Silva Filho, presidente da Troça Carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos

Julio Silva Filho, presidente da Troça Carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos - Crédito: Brenda Alcântara/ Folha de Pernambuco

À base do ensaio
O Carnaval 2018 foi o 71º da história da Troça Carnavalesca Pitombeira dos Quatro Cantos. Acompanhando as mudanças ao longo das décadas, a agremiação foi se adaptando a uma festa cada vez mais comercial e adotou ajustes para conseguir se manter viva ano a ano. Aboliu, por exemplo, a confecção própria de fantasias, medida que, tomada há mais de 10 anos, reduziu custos, e entregando aos grupos de frevo a missão de fazer o figurino. "A gente opina para ter as cores da troça, eles apresentam o desenho, o modelo piloto e a gente contribui financeiramente nisso também", conta o presidente da Pitombeira há 20 anos, Julio Silva Filho.
Antigamente, conta Julio, a Pitombeira abria inscrição para interessados em desfilar na troça no Carnaval. Eram disponibilizados alguns itens cuja venda bancaria parte da fantasia, custo que era completado pela própria agremiação. "Esses voluntários não existem mais, não existe mais a intensão de participar única e exclusivamente da Pitombeira. A gente ainda lança modelos para que os interessados mandem fazer, mas é pouca gente. Você já pensou o que é desfilar com uma fantasia de destaque?", diz Julio.
Os desfiles oficiais saem com três ou quatro grupos de frevo; dois deles ensaiam durante todo o ano na sede da Pitombeira, na rua 24 de Janeiro, todas as semanas, e tomam a troça como uma prioridade para o Carnaval. Este ano, foram 350 componentes que saíram pontualmente às 10h da segunda-feira. "É trabalhoso e é caro viabilizar um desfile desses".
A Prefeitura de Olinda, segundo a Lei do Carnaval (5306/01), sancionada em 2015, destina subsídio às agremiações todos os anos. Segundo a gestão, para este ano, a troça recebeu R$ 12.600. "Esse repasse não cobre nem 10% do custo do desfile oficial. A Pitombeira trabalha o ano inteiro. Em Sete de Setembro, abre os período de ensaios, que seguem até dezembro em domingos alternados. Somos exclusivamente fomentadores do frevo e a sede (uma casa doada à troça em 1984) se abre também para aulas que a orquestra oferece para iniciantes".
Ivaldevan Calheiros, um dos fundadores do grêmio Eu Acho é Pouco

Ivaldevan Calheiros, um dos fundadores do grêmio Eu Acho é Pouco - Crédito: Brenda Alcântara/ Folha de Pernambuco


Dragão político
O Grêmio Lítero Recreativo Cultural Misto Carnavalesmo Eu Acho é Pouco terá um pós-carnaval atípico este ano. Ao invés de "hibernar" até o fim do ano, como de costume, precisará rever estratégias para conseguir desfilar em Olinda no ano que vem. Depois de carnavais seguidos de saídas muito tumultuadas, percebeu as ruas estreitas da Cidade Alta não comportam todos os seguidores do dragão. "Pensávamos que após tanto posicionamento político, iria haver menos seguidores, mas aumentaram. Os trajetos são complicados e precisam ser repensados. Hoje, a gente ainda não tem uma solução, por isso, este pós-Carnaval vai demandar mais de nós", diz um dos coordenadores, Guilherme Calheiros.
Uma das alegorias mais famosas do Carnaval olindense, o dragão e o estandartes do Eu Acho é Pouco ficam na casa de um dos fundadores do grêmio, Ivaldevan Calheiros. Já fazem parte da decoração. O bloco não tem fantasias, mas cores vermelha e amarela são postas em tudo que seus seguidores vestem para os desfiles e nas camisas vendidas, uma das fontes de renda que viabilizam o bloco. Há alguns anos, foi preciso saldar uma dívida feita no Carnaval, então a coordenação do grêmio resolveu fazer festas para arrecadar dinheiro. Chegou a fazer quatro, mas nos últimos quatro ou cinco anos, viu-se que apenas uma - o Baile Vermelho e Amarelo -, somada à venda de camisas, seria suficiente.

 

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