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Os riscos na instalação de usina nuclear em Pernambuco

Para o bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife, dom Limacedo Antônio, a Igreja está se colocando no seu papel de chamar a sociedade para o debate e juntar forças em nome do povo

A Arquidiocese de Olinda e Recife reuniu pesquisadores, ONGs, deputados federais e estaduais e sociedade civil para debater a possível instalação de uma usina nuclear em Itacuruba, no Sertão do Estado. A possibilidade não é nova. Mas está cada vez mais próxima. Em 3 de abril, no evento World Nuclear Spotlight, no Rio de Janeiro, diversas empresas ligadas ao ramo oficializaram o interesse em construir as usinas.

“O mundo está andando no caminho contrário desta perspectiva. Estão desativando as usinas nucleares, justamente devido aos riscos de vazamentos. Assim, as empresas estão buscando novos mercados e a América Latina, pouco ‘nuclearizada’, é o alvo preferido”, contextualizou a advogada da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Gabriella Santos. A CPT acompanha a questão há cerca de sete anos.

De acordo Gabriella, há diversos problemas na implementação da energia nuclear na região que vão além do óbvio risco ambiental. “Ali moram comunidades quilombolas e indígenas tradicionais. Inclusive outras, não-tradicionais, que foram deslocadas pela construção da barragem de Itaparica. O índice de depressão e suicídio ali já é sete vezes maior que a média do estado, segundo Cremepe”, lembra. “Há um discurso de desenvolvimento local, mas uma usina como esta é completamente automatizada, não gera empregos.”

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Para o doutor em Física pela Universidade Aix-Marseille Heitor Scalambrini, também presente na reunião, o risco de vazamentos é pequeno, mas existe e, caso ocorra, não há como medir as consequências. A água do rio São Francisco seria utilizada para resfriar os reatores, por isso a cidade, às margens do Velho Chico é perfeita para a instalação. “Um vazamento impactaria 20 milhões de pessoas que dependem do rio. Os materiais que estão no interior do reator não têm cheiro, são invisíveis e muito nocivos. Contaminando a água e os animais do rio, contaminariam também a terra irrigada e o ar”, explicou o professor aposentado da UFPE.

Scalambrini explica que a contaminação pode ter consequências variadas. “É um como nenhum outro. Se um avião cai, sabe-se quem são as vítimas e o que aconteceu. No caso de um vazamento de material radioativo, o problema pode se estender por séculos e cada pessoas pode ter um problema de saúde diferente”, explicou. “A custos fabulosos, o a radiação decorrente do vazamento de Fukushima poderá ser neutralizada em 50 anos. E, no topo de tudo, o Brasil não precisa disso. A contribuição de Angra 1 e 2, por exemplo, é de 1% da energia do País. Enquanto isso, países como a Alemanha e Itália estão completamente desativando suas usinas nos próximos anos.”

Para o pároco de Floresta, Luciano Aguiar, o problema é particularmente sério no sentido social. “Há uma série de mega projetos que pensam em realizar no Sertão, porque pensam que o povo de lá não tem valor. Então, nossa função é conscientizar as pessoas agora, para que eles não aconteçam. Numa eventual implementação de uma usina, o lixo nuclear iria para Floresta, por exemplo. Precisamos no mexer agora e não como fizemos em relação à transposição: tarde demais.”

Para o bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife, dom Limacedo Antônio, a Igreja está se colocando no seu papel de chamar a sociedade para o debate e juntar forças em nome do povo. “Ciência, política, clero, todos são capazes de dialogar. A sabedoria está aí. O papa sobre questões ambientais, disse recentemente: “Deus perdoa, a natureza não”.

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