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Pacientes com ELA controlam computador com a mente após colocar implante cerebral; entenda

Voluntários fazem parte dos testes clínicos do Stentrode, chip da empresa americana Synchron

Pacientes com ELA controlam computador com a mente após colocar implante cerebralPacientes com ELA controlam computador com a mente após colocar implante cerebral - Foto: Reprodução / Youtube Synchron

Aos 63 anos, em 2021, Mark foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), um distúrbio que afeta os neurônios motores no sistema nervoso central, levando o paciente a desenvolver uma paralisia motora irreversível e ter uma expectativa de vida de apenas três a cinco anos após o início dos sintomas.

A maioria dos que recebem o diagnóstico perde a capacidade de se comunicar, mas o americano é um dos poucos escolhidos para participar dos testes clínicos de um implante cerebral que pode manter, ao menos em parte, essa habilidade. Em agosto do ano passado, ele recebeu o Stentrode, chip desenvolvido pela empresa dos Estados Unidos Synchron.

O implante é uma tecnologia chamada de interface cérebro–computador (BCIs, da sigla em inglês), técnicas que têm como objetivo permitir que indivíduos com uma forma de paralisia grave, como pacientes com ELA, consigam se comunicar por meio do pensamento. Para isso, um aparelho registra a atividade cerebral e a decodifica para controlar um computador, um braço robótico, um celular ou outros dispositivos pela mente.

Em entrevista à CNN americana, Mark contou recentemente sobre como tem sido a sua experiência com o implante: — Não tenho nenhuma sensação em meu cérebro, de que há algo lá — disse. Ele contou que, quando pensa em um determinado movimento, como clicar em algum lugar na tela do computador, o implante lê esse sinal, reconhece o movimento pretendido, e a mensagem é transmitida ao dispositivo.

Em janeiro do ano passado, a Synchron publicou na revista científica JAMA Neurology os resultados do acompanhamento de quatro primeiros participantes com ELA que receberam o implante. O aparelho não causou danos, como coágulos ou déficits neurológicos, e permitiu que os voluntários enviassem mensagens de texto, de e-mail, administrassem finanças pessoais, realizassem compras on-line e comunicassem a necessidade de cuidados.

Um deles se tornou a primeira pessoa no mundo a postar no X (antigo Twitter) usando apenas a mente: “Não há necessidade de pressionar teclas ou vozes. Eu criei este tweet apenas pensando nisso. #olámundoBCI”, escreveu.

Em vídeos divulgados nos últimos anos, a Synchron mostrou como três desses participantes, Graham, Rodney e Phil, conseguem realizar diversas tarefas no dia a dia somente com o pensamento.

Assista aos vídeos:
 

 

No caso de Mark, ele contou que, depois do procedimento para inserir o implante, foi preciso esperar cerca de dois meses para que o inchaço do dispositivo semelhante a um marca-passo que fica na altura do peito – onde é inserida a bateria do implante e por onde os sinais são enviados – diminuísse.

Apenas depois, a equipe da Synchron ligou o Stentrode. Nos últimos três meses, uma terapeuta ocupacional da empresa tem trabalhado com Mark para que ele aprenda a realizar as tarefas por meio do pensamento, registrando cada avanço – já que ele faz parte de um estudo clínico.

Até agora, ele conseguiu dominar o programa utilizado para enviar alertas de saúde, mas tem como metas no curto prazo controlar a Alexa, ligar a Netflix e aprender a enviar mensagens de texto.

— As mensagens de texto são um elemento realmente essencial da forma como nos comunicamos com nossa família e amigos atualmente. Portanto, geralmente é isso que as pessoas mais querem de volta — explicou o neurologista Tom Oxley, CEO da Synchron e desenvolvedor do Stentrode, à CNN.

Oxley contou que alguns pacientes foram capazes de digitar de 5 e 10 palavras por minuto, um ritmo impressionante ao se considerar que a maioria das pessoas saudáveis consegue digitar até 20 palavras por minuto.

BCIs avançam

Neste ano, o bilionário Elon Musk – dono de empresas como Tesla, X (antigo Twitter) e SpaceX – anunciou que a Neuralink, sua companhia dedicada a BCIs, inseriu pela primeira vez seu implante cerebral, o Telepathy, num humano nos testes clínicos – e que ele conseguiu mover um mouse apenas com o pensamento. No entanto, pouco se sabe ao certo já que nenhum dado foi publicado em revistas científicas, apenas anunciado pelo magnata em redes sociais.

Enquanto isso, outros implantes buscam converter o pensamento diretamente em fala e têm avançado rapidamente em universidades americanas. Em 2021, cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSF) relataram um aparelho colocado acima da região da fala no cérebro que permitiu que um homem com paralisia grave se comunicasse a partir de frases que surgiam instantaneamente numa tela, ainda que num ritmo lento de até 18 palavras por minuto.

Dois anos depois, pesquisadores das universidades de Stanford e Brown publicaram o caso de um modelo mais avançado, que chegou a 62 palavras por minuto. No mesmo mês, a equipe da UCSF também divulgou uma nova versão de seu implante, que foi ainda mais longe: 80 palavras por minuto. Para comparação, a fala comum costuma chegar a 150.

O chip da Synchron, porém, é considerado menos invasivo, já que não demanda uma cirurgia cerebral, um ano antes. Ele é endovascular, colocado por meio da veia jugular, como uma espécie de stent. Isso é um ponto positivo, já que a cirurgia para inserir o implante, nos casos da Neuralink e dos outros chips, tem uma série de riscos.

— A interface se transformou em uma das áreas mais populares e mais de fronteira da neurociência moderna. Mas ainda temos muito dúvidas sobre a necessidade de um implante porque é muito invasivo. 10 anos atrás nós já descobrimos que a maioria dos pacientes não quer e não precisa de algo com os riscos de uma neurocirurgia. A regra da medicina é muito clara, você sempre dá preferência a métodos terapêuticos que sejam seguros, eficientes e acessíveis, que podem ser disseminados a um preço razoável — disse em entrevista recente ao GLOBO Miguel Nicolelis, professor emérito do departamento de Neurobiologia da Universidade Duke, nos EUA, presidente do Nicolelis Institute for Advanced Brain Studies e um dos pioneiros no desenvolvimento de BCIs.

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