Palacete e jardins da Casa Firjan, no Rio de Janeiro, viram Patrimônio Cultural Brasileiro
Com projeto original de 1906, casarão foi presente de casamento a Celina Guinle e Linneo de Paula Machado
O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) decidiu ontem, por unanimidade, pelo tombamento do Palacete Linneo de Paula Machado e de seus jardins, atual sede da Casa Firjan, como Patrimônio Cultural Brasileiro. Os conselheiros também sugeriram que o nome de Celina Guinle seja acrescentado à designação oficial do imóvel, como forma de reconhecer a importância dela, que recebeu dos pais, Eduardo e Guilhermina Guinle, o casarão como presente de casamento. Sendo assim, o espaço passa a se chamar Palacete Celina Guinle e Linneo de Paula Machado e seus jardins.
Em Botafogo, na Zona Sul do Rio, o lugar recebe por mês, em média, 20 mil visitantes, que admiram a história por trás da arquitetura do palacete, com projeto de 1906, e visitam as exposições que acontecem em alguns dos seus 30 cômodos. O público desfruta ainda da calmaria dos jardins, que ocupam 7.577 dos 8.202 metros quadrados do terreno do imóvel.
— O palacete é extremamente importante em termos urbanísticos porque tem uma qualidade arquitetônica e paisagística extremamente elevada. É, sobretudo, um exemplar riquíssimo de uma arquitetura eclética do início do século XX, que retrata com muita clareza o que era a paisagem urbana do bairro de Botafogo e da cidade do Rio de Janeiro. Então, para nós, é uma expressão muito importante em termos de arquitetura da época — diz a superintendente regional do Iphan-RJ, Patrícia Corrêa.
‘É seguro e ele ama’
O espaço é frequentado diariamente por idosos, adultos e crianças, que aproveitam a grama aparada e a sombra generosa de árvores centenárias para fazer uma pausa na rotina. Muitos visitantes descrevem o lugar como um refúgio silencioso em meio ao caos do Rio.
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A nutricionista Rafaella Barbosa Lellis, de 28 anos, moradora de Botafogo, conta que leva o filho, Caetano, de 1 ano e 1 mês, pelo menos a cada 15 dias aos jardins do palacete, para que ele tenha contato com a natureza e outras crianças:
— Eu o deixo livre para explorar o espaço, porque sei que aqui dentro é seguro, e ele ama.
A babá Josefina Leite diz ter encontrado o lugar ideal para levar as meninas, de 1 e 4 anos, das quais toma conta:
— Elas pedem para vir e choram quando temos que ir embora.
O novo patrimônio cultural brasileiro também atrai turistas como a gerente operacional Caroline Sodré, de 29 anos, e a contadora Ana Carolina, de 31, que são do Pará.
— Se eu morasse no Rio, viria ao palacete todos os fins de semana — conta Caroline.
— Além de toda a beleza e calmaria, o espaço agrega a parte histórica e cultural da cidade — complementa Ana Carolina.
O presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano, lembra que o palacete de fachada cor-de-rosa foi um ponto importante de encontro para os industriais do século passado:
— Ele segue conectando, gerando diálogos, emitindo alertas e promovendo a indústria. Foi erguido por Eduardo Palassim Guinle, patriarca da influente família Guinle no Brasil e fundador da Companhia Docas de Santos. Está, portanto, na veia dessa casa a sua relação com a indústria.
Já a superintendente regional do Iphan destaca alguns detalhes estéticos, que vão além da conhecida escada em caracol do hall central:
— A riqueza dos detalhes de azulejos daquela casa é algo impressionante. A família Guinle teve uma importância muito grande na conservação desses azulejos, que datam do fim do século XIX e que compõem a maior parte dos ambientes da casa. Os pisos também são todos originais. Então, a casa é um exemplar extremamente importante. E tudo foi muito bem restaurado, bem executado pela Firjan. Por isso, é tão importante o tombamento arquitetônico inicialmente.
Segundo Patrícia Corrêa, o tombamento do mobiliário do palacete será proposto numa segunda etapa. Com a transformação em patrimônio nacional, o casarão passou a ser protegido nas três instâncias. O imóvel já é tombado pelo estado (2006) e pela prefeitura (1987).
— Conservamos, preservamos, restauramos e adaptamos com total respeito à importância desse prédio de carga histórica tão forte. Seguimos todas as orientações e referências de diversos órgãos de patrimônio, conseguindo transformar o palacete em um espaço funcional, que entrega à comunidade serviços e reflexões sobre inovação, futuro, nova economia — afirma a gerente-geral da Casa Firjan, Cristiane Alves.
O livro “Casa Firjan - Viva o Futuro Hoje”, de Clóvis Bulcão de Moraes e Carlos Fernando Andrade, conta que o projeto original do palacete, de 1906, foi desenvolvido pelo arquiteto John Oberg. Ao receber a mansão como presente de núpcias, em 1910, Celina decidiu ampliar sua futura residência. Coube ao arquiteto Armando Carlos da Silva Telles detalhar serviços descritos como pintura, forração e decoração interna, demolição e reconstrução da fachada lateral, entre outros. No ano da morte de Guilhermina Guinle (1925), Celina encomendou um acréscimo no térreo. A nova reforma incluiu alterações internas, chanceladas pelo arquiteto francês Joseph Gire.
Restauração e adaptação
Com a restauração e a adaptação para transformar o palacete na Casa Firjan — inaugurada em 2018 —, foram instalados elevador, novos banheiros, equipamentos de segurança contra incêndio e pânico, além de sistemas de ar-condicionado, automação e informática. Um anexo moderno foi construído.
Já os antigos cômodos foram adaptados para novos usos, preservando os revestimentos de piso e paredes originais. Armários de louça passaram a abrigar livros, e a copa foi transformada em restaurante.
Entre os 30 cômodos do casarão, no térreo, foi montada a Sala Lucy e Luiz Carlos Barreto, que recebe eventos e projetos de cinema, e tem exibições de filmes. Nas salas Celina e Guilherme, também no térreo, acontecem exposições recorrentes. Na Sala Firjan, no segundo andar, há uma exposição permanente sobre a história da casa.

