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Palacetes do Recife têm histórias contadas em livro

Casarões da Zona Norte da capital pernambucana são como peças de um quebra-cabeça que remonta o passado

Museu do Estado de PernambucoMuseu do Estado de Pernambuco - Foto: Jose Britto / Folha de Pernambuco

Reconhecidos como patrimônio material do Estado, os casarões da Zona Norte da capital pernambucana são como peças de um quebra-cabeça que remonta o passado. As construções são o foco do livro “Palacetes e Solares dos Arredores do Recife”, escrito pelo arquiteto e pesquisador José Luiz Mota Menezes, professor emérito da Pós-Graduação em Arqueologia e Conservação do Patrimônio da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A obra, que será lançada nesta quarta (29), às 17h, no Museu do Estado de Pernambuco (Mepe), busca identificar os modelos adotados naquelas moradias, à luz do modo de projetar a arquitetura do século 19.

O livro traz uma análise de quatro locais onde existiram as edificações em maior número e estuda particularmente duas delas: o palacete de Augusto Frederico de Oliveira, onde atualmente funciona o Mepe, e o solar do Barão Rodrigues Mendes, onde hoje está instalada a Academia Pernambucana de Letras. O autor debruçou-se numa pesquisa a fim de decifrar não apenas as construções, mas, sobretudo, aqueles que nelas habitavam. Também buscou verificar a sociedade da época, cujos descendentes não mais estão presentes no lugar e sim morando em arranha-céus, às vezes situados no mesmo local onde antes viviam barões e comerciantes endinheirados.

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"Os estudos revelaram que havia grande influência de Paris e da Inglaterra nas construções e modo de vida daquela época. Os casarões revelam uma sociedade que primava pelo luxo, pelas festas entre eles", comenta José Luiz Mota Menezes. Era uma sociedade de gente abastada que desfilava suas conquistas diante dos outros, na organização de jardins e pomares e numa vida de deleites. "Havia praticamente uma competição entre os donos dos imóveis para mostrar quem tinha mais poder aquisitivo de acordo com a imponência de suas construções", acrescenta o arquiteto e pesquisador.

O gosto por certa ostentação, inclusive, direcionou a preferência de alguns proprietários pela importação de móveis de fabricação europeia. Estes objetos exerciam importante papel numa sociedade que possuía melhores condições econômicas e era presente um relacionamento entre seus participantes, com visitas e festas constantes. "A importância de preservar estas construções é para ter um episódio da cidade e da sociedade que deve ser mostrado que existiu. Duvido que você passe diante dos palacetes e solares e não fique admirado. É impossível não ficar encantado", avalia.

Símbolos da opulência das famílias ricas do Recife do século 19, os casarões eram erguidos na Estrada dos Manguinhos, a atual Avenida Rui Barbosa, endereço preferido dos comerciantes europeus e brasileiros que se instalavam na capital pernambucana em busca de prosperidade. Passaram a edificar solares ou palacetes em sítios situados nas áreas de plantio de cana dos antigos engenhos de produção de açúcar, que estavam sendo desativados. O local atraía endinheirados pela proximidade com o Rio Capibaribe e pela facilidade de acesso aos trens urbanos, que conectavam a região ao Centro.

Segundo levantamento feito pelo professor aposentado da UFPE, restam apenas 14 dos 81 casarões que existiam no início do século 19 na Estrada dos Manguinhos dos ricos comerciantes. "O grande período de derruba dos solares foi nos anos 1940 e 1950 quando surgiu a ideia de fazer arranha-céus. Eu diria que essa mudança e verticalização são naturais em grandes cidades. Mas as demolições dos palacetes e solares representam uma grande perda histórica e social. Os que estão de pé se salvaram porque mudaram de uso, se transforam em museus, por exemplo. Do contrário teriam sido derrubados, pois o Recife tem uma área muito pequena e uma população muito grande", afirma Mota Menezes.

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