[PARA LIBERAR] Mulheres dedicam mais que o dobro do tempo que homens em trabalhos domésticos

As mulheres dedicam, em média, 22,3 horas às tarefas domésticas e/ou cuidado de pessoas por semana em Pernambuco

Darcilene Cláudio Gomes, doutora em economiaDarcilene Cláudio Gomes, doutora em economia - Foto: Divulgação

Em pleno 2020 passar por algumas situações que consideramos retrógradas já é comum. Dentre estas revelações vindas diretamente do passado que desejávamos superar, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o resultado de uma pesquisa que avaliou o tempo dedicado aos trabalhos domésticos no país. Mulheres continuam sendo as maiores responsáveis pelos cuidados com o lar. Só em Pernambuco, elas dedicam mais que o dobro do tempo dos homens em tarefas domésticas.

Pessoas de 14 anos ou mais foram entrevistadas no estudo. 6 milhões e 104 mil pessoas (80% do total), realizaram afazeres domésticos na sua casa ou em casa de parente em 2019. Deste total, 2 milhões e 393 mil eram homens e 3 milhões e 712 mil eram mulheres. Em pontos percentuais, 68,3% dos homens pernambucanos realizam tarefas domésticas, contra 90% das pernambucanas.

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As mulheres dedicam, em média, 22,3 horas às tarefas domésticas e/ou cuidado de pessoas por semana, enquanto os homens dedicam 10,8 horas. Pernambuco tem a terceira maior carga horária com tarefas domésticas do Brasil, uma média geral de 17,7 horas semanais, perdendo apenas para a Paraíba e Minas Gerais.

Doutora em economia, Darcilene Cláudio Gomes salientou que essa divisão desigual acontece por que o trabalho doméstico ainda é desvalorizado. “O trabalho de cuidar, o trabalho de manutenção, ele ainda é subvalorizado. E esse trabalho subvalorizado fica, então, sob responsabilidade das mulheres, por mais que seja um trabalho fundamental. É um trabalho que tem relação com a própria manutenção da vida na sociedade, mas ele não é um trabalho que gera um valor da forma como a gente calcula na economia, não gera um lucro. Ninguém fica rico por isso, então ele acaba sendo um trabalho desvalorizado e aí quem vai fazer esse trabalho desvalorizado são os sujeitos que dentro desta hierarquia social estão na base da pirâmide. Então são mulheres, e, na maioria das vezes, quando o trabalho doméstico é remunerado, as mulheres negras”, explicou.

A pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) ainda salientou que mesmo quando as tarefas domésticas são delegadas a alguém pago para isso, a responsabilidade fica também sobre a mulher. “Essa divisão sexual do trabalho se mantém mesmo em famílias que têm uma estrutura de serviço doméstico contratado, assalariado, ainda assim o peso maior fica com a mulher. É ela que trata com a empregada, é ela que vai definir a jornada de trabalho, a organização do trabalho ao longo da semana. Embora ela não pegue diretamente no trabalho doméstico ainda assim a carga mental é dela, a responsabilidade desse trabalho é da mulher”, esclareceu.

O estudo que chegou à conclusão de que o trabalho doméstico ainda é realizado majoritariamente pelas mulheres levou em consideração sete afazeres domésticos: preparar ou servir alimentos, arrumar a mesa ou lavar as louças; cuidar da limpeza ou manutenção de roupas e sapatos; fazer pequenos reparos ou manutenção do domicílio, do automóvel, de eletrodomésticos ou outros equipamentos; limpar ou arrumar o domicílio, garagem, quintal ou jardim; cuidar da organização do domicílio (pagar contas, contatar serviços, orientar empregados) e cuidar dos animais domésticos.

O cuidado com a limpeza de roupas e sapatos foi a atividade de registrou maior discrepância entre os sexos no Estado. 54,6% dos homens realizam essa tarefa contra 92,4% das mulheres, uma diferença de 37,8%. A taxa de realização dessa atividade entre os homens (92,2%) e as mulheres que moram sozinhos foi praticamente a mesma (92,1%). Já entre os homens em coabitação na condição de responsáveis (45,9%) ou de cônjuges (48,2%), esse percentual foi bem menor do que o das mulheres nas mesmas condições (94,2% e 95,3% respectivamente).

Entre todos os afazeres domésticos contemplados na pesquisa, o único que os homens realizaram mais do que as mulheres foi o de pequenos reparos ou manutenção do domicílio, do automóvel, de eletrodomésticos ou outros equipamentos. Nos homens o percentual é de 60,1%, para as mulheres é 40,6% A diferença percentual é de 19,6%, menor do que a nacional, que chegou a 27,5%.

Com relação aos trabalhos analisados, Darcilene salientou que quando a mulher trabalha fora de casa ainda fica mais turbulenta sua vida, com jornadas duplas ou triplas. “A mulher trabalha o dia inteiro, depois tem que chegar em casa e cuidar da casa, da limpeza, da alimentação da família, se tiver filhos ainda precisa acompanhar a vida escolar dos filhos. São todos trabalhos identificados com a figura feminina, até mesmo em famílias que você consegue obter uma divisão mais igualitária do trabalho doméstico, os homens fazem as tarefas se a mulher manda. A responsabilidade continua sendo da mulher”, falou.

Na pesquisa, foi mostrada também a taxa de realização das mulheres em afazeres domésticos nas condições de cônjuge (96,3%) ou responsável pelo domicílio (93,5%).

Com o recorte dos dados da pesquisa por realização de afazeres domésticos e nível de
instrução, é possível notar que a taxa aumenta com a escolaridade, sobretudo para os homens. Enquanto 87% das mulheres sem instrução e com fundamental incompleto realizam tarefas domésticas, o mesmo ocorre com 62,9% dos homens. Quanto às mulheres com ensino superior completo, 92,2% faz tarefas em casa, contra 80,7% dos homens.

“Nesse período de quarentena tem até uma questão interessante, um estudo mostrou que caiu massivamente a produção das mulheres cientistas nesses últimos meses. Essas cientistas estão em casa, sem suporte. Se essa mulher tinha uma empregada assalariada e é consciente, ela mandou essa empregada para casa, então ela teve que assumir essas tarefas, o acompanhamento escolar dos filhos ainda mais forte pela questão das aulas remotas e tendo que atender as demandas do trabalho”, esclareceu Darcilene.

Quando se trata de cor ou raça, as maiores taxas de afazeres domésticos são realizadas tanto por homens quanto por mulheres pretas, com 76,5% e 92,7%, respectivamente. As
porcentagens de homens brancos (67,1%) e pardos (67,7%) é semelhante, enquanto 88% de mulheres brancas e 90,7% de mulheres pardas realizam esse tipo de tarefa.

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